Polícia Civil de Ilhéus já identificou três suspeitos de envolvimento no brutal assassinato de três mulheres que chocou a cidade na última semana. Segundo a instituição, os suspeitos em breve serão capturados e apresentados à sociedade: as investigações seguem com prioridade máxima. A cidade, acostumada a ser lembrada por suas praias, pela cultura literária e pelo turismo, inicia a semana ainda impactada pelo crime que expôs de forma dolorosa a face mais cruel da violência contra mulheres.
As vítimas foram Maria Helena do Nascimento Bastos, de 41 anos, professora da rede municipal; sua filha, Mariana Bastos da Silva, de 20 anos; e a colega de trabalho Alexsandra Oliveira Suzart, também professora, de 45 anos. Elas desapareceram na sexta-feira, 15 de agosto, quando saíram para caminhar, e no dia seguinte foram encontradas mortas em um matagal no bairro Jardim Atlântico. Todas apresentavam lesões provocadas por arma branca, em um cenário que deixou até mesmo policiais e peritos consternados.
O delegado André Aragão, que conduz as investigações, confirmou que três suspeitos já foram identificados. Embora os nomes não tenham sido revelados oficialmente, a polícia trabalha com a análise de imagens de câmeras de segurança e provas técnicas para consolidar o caso. “As investigações continuam em ritmo acelerado. Estamos trabalhando com peritos e imagens de segurança para identificar e responsabilizar todos os envolvidos. A sociedade ilheense merece respostas e justiça”, disse o delegado, ressaltando que o trabalho policial segue em sigilo para não comprometer as diligências.
A notícia da identificação dos suspeitos trouxe certo alívio à população, mas não diminuiu a revolta. Nas escolas onde as professoras lecionavam, alunos e colegas passaram os últimos dias em silêncio e luto. A APPI-APLB, sindicato dos professores municipais de Ilhéus, decretou três dias de luto e destacou a dedicação das duas educadoras à comunidade escolar. “Foi uma perda irreparável para a educação de Ilhéus e para toda a comunidade”, afirmou a entidade em nota pública.
O depoimento de quem conviveu com as vítimas ajuda a dimensionar o impacto da tragédia. A professora Dorotheia Carneiro, colega de trabalho, ainda tenta se recompor da perda repentina e da violência que abalou toda a equipe. “Elas eram colegas de trabalho, comprometidas e éticas. Esse crime abalou toda a nossa equipe, gerando mal-estar. Eu, em especial, estou tentando organizar meus pensamentos e minhas emoções para conseguir dormir e trabalhar bem... por isso gostaria de não dar mais entrevistas ou falar sobre. Grata pela compreensão”, disse, num desabafo por mensagem à reportagem da Tribuna.
Em Ilhéus, a rotina de ruas movimentadas por turistas se transformou. Segundo moradores, durante a semana, familiares, amigos e moradores acenderam velas e levaram flores para homenagear as vítimas. Em grupos de mensagens, a palavra mais repetida foi “justiça”, acompanhada de pedidos de maior rigor nas investigações e punição exemplar dos responsáveis. Em rodas de conversa nos bairros, é comum ouvir relatos de medo, especialmente entre mulheres, que relatam insegurança para circular sozinhas.
Autoridades municipais também se manifestaram. O prefeito Valderico decretou luto oficial de três dias na semana passada, reforçando solidariedade às famílias e reconhecendo a gravidade do crime. Lideranças locais têm cobrado do governo estadual reforço no policiamento e apoio psicológico às comunidades afetadas, em especial às escolas onde as professoras atuavam.
Nacional
O caso se tornou assunto nacional e ganhou espaço na imprensa de todo o país. Para muitos moradores, o abalo é ainda maior porque as vítimas representavam figuras conhecidas na comunidade, ligadas à educação e à vida cotidiana da cidade.
O triplo feminicídio, pela brutalidade e pela comoção que causou, já é considerado um dos crimes mais impactantes dos últimos anos no sul da Bahia.
Feminicídios em alta expõem falhas na proteção às mulheres na Bahia e no Brasil
O triplo feminicídio em Ilhéus acontece em um contexto estruturado de violência contra mulheres — um quadro que exige enfrentamento urgente. Em 2024, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública registrou 1,463 feminicídios no Brasil — uma média de quatro mulheres mortas por dia por serem mulheres. Na Bahia, os casos aumentaram de 117 em 2022 para 138 em 2023, colocando o estado entre os cinco mais violentos para as mulheres no país.
Dossiês do Instituto Patrícia Galvão
Em pesquisas conduzidas pela FGV Direito-SP, a promotora Márcia Teixeira, do Ministério Público da Bahia, alerta:
“Olha o dilema que aparece na percepção da população: se denunciar, morre; mas se continuar convivendo com o agressor também morre", disse ela. A promotora coordena ações de defesa da mulher e destaca que medidas protetivas muitas vezes não chegam a tempo, transformando denúncias em tragédias anunciadas.
Ela acrescenta que o álcool, ciúmes ou outros fatores são frequentemente utilizados como desculpas – mas, na sua avaliação, “a motivação é o egoísmo, a tentativa de possuir e subjugar o outro... o álcool, as drogas e o ciúme são os gatilhos ou as desculpas... Esses fatores acionam gatilhos dessa violência que está inerente àquele sujeito...”, reforçando o caráter estrutural da violência de gênero.
O caso de Ilhéus, em que as vítimas foram mortas com golpes de faca, reflete uma pauta nacional: muitos feminicídios ocorrem com uso de arma branca, em espaços próximos da vítima. Esse padrão reforça a urgência em fortalecer políticas de acolhimento, treinamento policial especializado e a expansão de casas-abrigo como medidas preventivas.
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