O diálogo entre pais, filhos e educadores sobre os desafios vivenciados durante a adolescência será o foco da terceira edição do “Em Cartaz”, evento que utiliza a linguagem do cinema como ferramenta para aproximar diferentes gerações. A iniciativa será realizada no dia 14 de setembro, às 18h, no auditório da Secretaria Municipal de Educação de Feira de Santana.
Em entrevista ao Portal Boca de Forno News, a psicóloga de adolescentes Roberta Saback explicou que a proposta do projeto é criar um espaço de escuta e construção de conhecimento sobre as adolescências, utilizando produções audiovisuais como ponto de partida para conversas que, muitas vezes, podem ser difíceis de acontecer diretamente dentro de casa. “Às vezes é mais fácil a gente falar das nossas dificuldades através de um filme, falando sobre um personagem, do que sentando ali para conversar”, afirmou a psicóloga.
Neste ano, o evento terá como obra central a série “Sessão de Terapia”, do Globoplay, com destaque para os episódios da personagem Guilhermina, uma adolescente de 13 anos interpretada na quarta temporada da produção. A partir da história, serão discutidos dilemas e questões que fazem parte da realidade dos adolescentes. “Esse ano a gente escolheu a série ‘Sessão de Terapia’, da Globoplay, com Selton Mello. Na quarta temporada, os episódios de Guilhermina mostram uma adolescente de 13 anos que está vivendo vários dilemas em relação à adolescência”, explicou Roberta.
Segundo ela, após a exibição, será aberto um espaço para discussão com profissionais especializados e participação dos próprios adolescentes, incluindo estudantes das redes pública e privada de ensino. “O nosso propósito é que, a partir da série, a gente possa discutir temáticas emergentes da adolescência que necessitam ser conversadas”, destacou.
A iniciativa é promovida pelo Sentido Espaço Terapêutico, local onde a psicóloga atua, com apoio da Secretaria Municipal de Educação e de outras empresas da cidade.
Durante a entrevista, Roberta Saback também falou sobre as mudanças enfrentadas pelos adolescentes diante da presença cada vez maior das redes sociais, dos smartphones, da internet e, mais recentemente, das ferramentas de inteligência artificial.
Para a psicóloga, apesar das transformações tecnológicas, as características próprias da adolescência permanecem. O que mudou foi principalmente o contexto no qual esses jovens estão inseridos. “Eu diria que a diferença básica é do nosso contexto, da imersão na internet, das tecnologias e agora da inteligência artificial. Mas o jovem é jovem desde sempre. É militante, corre atrás dos seus direitos, quer ser visto e luta por isso”, afirmou.
Roberta avalia que um dos grandes desafios atuais está na diferença entre as gerações, já que pais e filhos cresceram em contextos tecnológicos distintos. “Pela primeira vez, a gente vive duas gerações de tempos diferentes, uma educando a outra. Isso torna essa comunicação muitas vezes difícil, porque é difícil para os pais entenderem o que os filhos estão vivendo”, explicou.
De acordo com a psicóloga, diante dessa dificuldade, alguns pais podem acabar se afastando do universo dos filhos justamente em uma fase em que a presença familiar continua sendo fundamental. “Os pais muitas vezes não se sentem apropriados desse novo cenário e acabam fazendo uma espécie de abandono, uma autonomia por abandono desses meninos e meninas”, alertou.
Para ela, o caminho passa pela aproximação. Mesmo que os adultos não tenham familiaridade com as novas tecnologias, é importante buscar informação e estabelecer diálogo com os adolescentes. “O importante é que os pais se aproximem desse universo e que, mesmo que não estejam inseridos nesse contexto, possam se informar, possam dialogar, dar espaço para esses adolescentes falarem e construir conhecimento”, ressaltou.
Outro ponto abordado durante a entrevista foi a atenção dos familiares aos sinais apresentados pelos adolescentes. Segundo Roberta, as próprias famílias costumam perceber quando há uma mudança significativa no comportamento dos filhos. “Primeiro, é dizer que os pais sempre sabem das coisas. Então, enquanto família, a gente vai sempre perceber que algo está errado ali quando alguma coisa muito diferente acontece”, afirmou.
Entre os sinais que merecem atenção estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento, afastamento dos amigos, dificuldades ou fracasso escolar, resistência em frequentar a escola e envolvimento em situações de risco. “Se o adolescente era muito extrovertido e deixou de ser, está se isolando mais, está começando a viver um fracasso escolar na escola, não quer viver essa realidade e ir para a escola, está se afastando dos amigos ou até se envolvendo em mais situações de risco, como o próprio uso de drogas e álcool, esse cenário também são coisas para as quais a gente precisa estar atento”, explicou.
Segundo a psicóloga, quando o comportamento passa a fugir significativamente do padrão daquele adolescente, é importante que os adultos olhem para a situação com mais cuidado e procurem compreender o que está acontecendo.
Para Roberta Sabaki, o diálogo não é apenas importante, mas fundamental para estabelecer uma relação de confiança entre adolescentes e adultos. “Eu não vejo outra alternativa. E por isso o ‘Em Cartaz’ acontece como uma promoção desse diálogo. É uma forma que a gente tem de diminuir a distância dessas gerações e dar espaço de compreensão, para que os adolescentes tenham voz para dizer o que sentem e possam ser escutados”, destacou.
A proposta, segundo ela, também envolve famílias e educadores, que precisam estar preparados para acolher os jovens. “Assim, as famílias, os educadores ou todos aqueles que se interessam pelo universo da adolescência possam acolhê-los mais”, afirmou.
Roberta também destacou a importância do afeto nessa relação e resumiu a ideia em uma frase que, segundo ela, tem utilizado ao falar sobre o tema: “O afeto é revolucionário. Quando a gente mostra para o adolescente que a gente se interessa por ele, que a gente quer cuidar dele, aí as portas estão todas abertas para a gente entrar nesse universo”, declarou.
Participação da família na vida escolar
A psicóloga também chamou atenção para a participação dos pais na vida escolar dos filhos. Para ela, a chegada da adolescência não deve representar o afastamento da família do ambiente escolar. “Isso acontece tanto na rede pública quanto na rede privada. Há um desaparecimento, uma evasão dos pais quando os filhos passam para a adolescência, como se dissessem: ‘Agora eu já cumpri minha missão’. Mas é justamente nesse momento que esses meninos precisam de uma assistência maior nossa”, afirmou.
Roberta ressalta, entretanto, que acompanhar não significa controlar excessivamente ou impedir que o adolescente desenvolva sua independência. “Não é fazer por eles, nem tornar a vida deles hipervigiada. É importante que a gente possa construir essa autonomia aos poucos, para que eles possam administrar melhor essa independência. Essa construção da autonomia vai se desenvolvendo ao longo da vida”, explicou.
Excesso de telas
O uso excessivo de telas foi outro assunto abordado pela psicóloga. Segundo ela, embora a tecnologia faça parte da realidade dos adolescentes, o excesso pode ser prejudicial. “A tela em excesso é prejudicial. Sem dúvida. Tudo que é demais é sobra. Então, é importante que a gente possa cuidar e assistir esses meninos de uma forma mais assertiva”, alertou.
A terceira edição do “Em Cartaz” pretende justamente ampliar essa discussão, aproximando adolescentes, famílias, educadores e profissionais para que temas presentes no cotidiano dos jovens possam ser tratados de maneira aberta e acolhedora.
A programação será realizada no dia 14 de setembro, às 18h, no auditório da Secretaria Municipal de Educação de Feira de Santana, com a exibição dos episódios selecionados de “Sessão de Terapia” e, posteriormente, um momento de diálogo e debate com especialistas e adolescentes.
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