Foto: Boca de Forno News
A Prefeitura de Feira de Santana, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, lançou nesta quarta-feira (2) o projeto “Cuidado em dIA”, iniciativa que utiliza inteligência artificial como ferramenta de suporte à atenção básica do município. O lançamento aconteceu às 15h30, no Auditório do Hotel Ibis, e reuniu profissionais da área da saúde.
Voltado inicialmente para médicos e enfermeiros das Equipes de Atenção Primária (EAPs), o projeto tem como proposta utilizar a tecnologia para auxiliar os profissionais durante os atendimentos, contribuindo para o raciocínio clínico, a identificação de possíveis necessidades de exames e encaminhamentos e a busca por informações baseadas em evidências científicas.
O secretário de Saúde de Feira de Santana, Rodrigo Matos, destacou que a iniciativa busca incorporar a evolução tecnológica justamente na porta de entrada do sistema de saúde. “Nós não nos cansamos em trazer novidade que possam impactar positivamente a vida das pessoas. A gente sabe que a atenção básica é um pilar fundamental da saúde. Ou seja, tem sempre um posto de saúde perto da pessoa, esse posto de saúde muitas vezes é a unidade mais próxima da casa dela e logo a porta de entrada”, afirmou.
Rodrigo Matos - Foto: Boca de Forno News
Segundo o secretário, a proposta não é substituir médicos ou demais trabalhadores da saúde pela tecnologia, mas oferecer uma ferramenta adicional para auxiliar nas decisões tomadas durante o atendimento. “Não é substituir o médico, a pessoa, o trabalhador de saúde, pela máquina. É fazer com que a máquina possa ajudar nas tomadas de decisão das pessoas, dos profissionais que lá estão”, explicou Rodrigo Matos.
Nesta primeira etapa, o projeto começa a ser implantado em unidades que integram as chamadas EAPs, denominação atualmente utilizada para equipes que atuam na atenção primária e que anteriormente eram conhecidas como UBS tradicionais. Entre os exemplos citados estão unidades como Cássia, Mangabeira e Dispensário Santana, além de outras equipes espalhadas pelo município.
A intenção da Secretaria Municipal de Saúde é iniciar com uma implantação inicial e, posteriormente, ampliar o uso da ferramenta para outras unidades, incluindo os distritos, até alcançar uma cobertura de 100% da rede, conforme os resultados e os desafios identificados durante o processo.
Rodrigo Matos classificou o lançamento como um momento histórico para o município e explicou como a inteligência artificial poderá atuar na rotina dos profissionais. “Auxilia de uma forma a melhorar e acelerar o processo de raciocínio clínico. Na prática, o médico fala do caso do paciente e a inteligência artificial, através de uma avaliação do repositório que ela tem, um repositório justamente do banco de dados, começa a vincular aquela história clínica com o que tem de base científica”, detalhou.
De acordo com o secretário, o recurso poderá ajudar o profissional a lembrar de procedimentos importantes durante o atendimento, como a solicitação de determinado exame ou a necessidade de encaminhamento para um especialista. “Isso faz com que muitas vezes o médico não esqueça de solicitar o exame que é importante, que faz diferença na vida daquela pessoa, ou não deixe de fazer um encaminhamento”, afirmou.
Rodrigo citou como exemplo um paciente diabético que poderia necessitar de avaliação especializada devido a uma alteração renal. “Um paciente diabético que, no final das contas, precisava ser encaminhado para um nefrologista por uma questão renal. Às vezes, no calor do atendimento, pode se passar. Nós somos humanos, nós somos falhos. Então, a inteligência artificial chega para essa tomada de decisão”, explicou.
O secretário, no entanto, reforçou que a responsabilidade pelo diagnóstico e pela conduta continuará sendo exclusivamente do profissional de saúde. “A tomada de decisão é sempre humana. A tomada de decisão é sempre do profissional de saúde que é qualificado e com certeza está ali para atender da melhor forma possível”, ressaltou.
Para Rodrigo Matos, a combinação entre tecnologia, base científica e atualização das informações poderá contribuir para uma assistência mais qualificada. “Se você tem uma ferramenta dessa que une a base científica junto com todo o repositório possível e as atualizações em tempo real, tenha dúvida que a assistência vai ser muito melhor”, declarou.
Foto: Boca de Forno News
A implantação da ferramenta já começa nesta semana, segundo o secretário. A previsão apresentada durante o lançamento é de que, na semana seguinte, os primeiros atendimentos com o suporte da inteligência artificial já estejam acontecendo nas unidades selecionadas. “Já começa a implantar a partir dessa semana. Na semana que vem já tem atendimento com inteligência artificial nessas unidades, tanto chamadas EAP, três exemplos aqui de Cássia, Mangabeira e Dispensário Santana, mas são várias equipes na cidade que já começam esse atendimento”, informou.
Depois da fase inicial, a proposta é avaliar os resultados e, caso a implantação ocorra conforme o planejado, expandir gradativamente a tecnologia para outras unidades e também para os distritos.
O secretário explicou que o projeto está sendo tratado como uma implantação piloto, justamente por se tratar de uma iniciativa considerada nova na atenção primária. “Na verdade, implantação, projeto piloto. Volto a dizer: a iniciativa, não conheço nenhuma na Bahia. Conversei aqui com o pessoal que está enfrentando isso com a gente também, não implantou ainda na Bahia, na questão primária”, afirmou.
Rodrigo Matos classificou a iniciativa como “ousada”, “inusitada” e “pioneira”, destacando que a gestão pretende responder aos desafios da saúde com inovação. “A cada dia que existe um desafio, nós respondemos esse desafio com trabalho, com inovação e a gente vai impactar a vida de muitas pessoas. Muitas pessoas serão certamente impactadas graças ao trabalho desse grupo que é gigante aí da saúde e liderado, óbvio, pelo prefeito José Ronaldo”, declarou.
Sobre o prazo para que a inteligência artificial esteja disponível em toda a rede municipal, o secretário evitou estabelecer uma data. “Eu só posso te dizer isso depois que a gente conseguir entender como é que vai ser essa implantação. Volto a dizer: a gente não vai fazer promessa se a gente não tem segurança de como é que vai ser a implantação”, afirmou.
Segundo ele, a expansão dependerá da avaliação da primeira fase. “Não é simplesmente ‘botamos inteligência artificial e tira uma foto e acabou’. Não. A gente quer que essa inteligência artificial reflita nos nossos indicadores. Então, quando a gente compreender como foi a implantação, quais foram os desafios e implantar de forma efetiva nessas unidades, a gente consegue fazer um programa de implantação para as outras unidades de Feira de Santana”, explicou.
Apoio para a decisão clínica
Clara Carvalho - Foto: Boca de Forno News
A responsável técnica pelo projeto, Clara Carvalho, também detalhou o funcionamento da tecnologia. Médica emergencista formada pela Universidade de São Paulo (USP), ela atua nas áreas de gestão de departamento de emergência, educação e tecnologia.
Clara explicou que a empresa responsável pela plataforma foi criada com o objetivo de melhorar a assistência prestada aos pacientes e, ao mesmo tempo, reduzir a carga cognitiva dos médicos. “Nós criamos a Volts no intuito de melhorar a assistência para o paciente e a carga cognitiva do médico. Hoje a IA é uma realidade, todo mundo vai utilizar IA no seu dia a dia e o médico também. Só que a utilização de uma inteligência artificial no meio médico, da saúde, ela tem que ser feita de forma muito responsável”, explicou.
Para ela, um dos pontos fundamentais é garantir a segurança das informações utilizadas pela ferramenta. “Os dados têm que ser seguros. Foi por isso que a gente criou uma plataforma que toma decisão, ela é um assistente, ela é um preceptor e, ao mesmo tempo, ela tem um banco de dados extremamente seguro, que é validado por nós, por toda a medicina baseada em evidências”, afirmou.
Na prática, a inteligência artificial será utilizada durante o atendimento como uma ferramenta de apoio ao raciocínio clínico. “A partir do momento que o médico tem ali um caso clínico na mão, a inteligência artificial entra para ajudar ele a raciocinar, a tomar decisões. Então ela entra trazendo as melhores evidências científicas e contextualizando com a realidade daquele paciente, fazendo com que ele tenha melhores desfechos ali na assistência dele”, detalhou Clara.
A segurança das informações dos pacientes também foi destacada durante o lançamento. Clara Carvalho afirmou que a plataforma possui uma estrutura voltada à proteção dos dados e segue as exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “A gente tem um arcabouço bem robusto de segurança e proteção de dados que é voltado pela LGPD, embasado pela LGPD, e a nossa ideia é que essas informações fiquem sempre muito bem resguardadas”, afirmou.
Outro aspecto ressaltado pela responsável técnica é a atualização constante da plataforma. Segundo Clara, o sistema é atualizado diariamente para acompanhar novas descobertas, diretrizes e referências científicas. “A gente atualiza ele dia a dia, todos os dias. Esse é o trabalho de formiguinha que a gente faz, mas que é o que traz segurança à nossa plataforma”, explicou.
Ela destacou que a medicina passa por atualizações constantes e que uma ferramenta utilizada para auxiliar profissionais de saúde precisa acompanhar esse movimento. “A medicina atualiza muito. Todos os dias tem um guideline novo, uma nova diretriz e a gente precisa que essa plataforma seja 100% atualizada. As referências buscadas são referências baseadas nas principais diretrizes de artigos científicos que pautam a medicina baseada em evidência como o cerne de tudo ali”, afirmou.
Foto: Boca de Forno News
Segundo Clara, a plataforma respeita os protocolos da medicina baseada em evidências e tem justamente essa preocupação como um de seus principais objetivos.
Apesar de envolver inteligência artificial, a proposta, segundo a responsável técnica, é também contribuir para uma relação mais próxima entre profissionais e pacientes.
Clara Carvalho explicou que a tecnologia pode reduzir o tempo gasto pelos profissionais com atividades burocráticas e permitir que o médico tenha mais disponibilidade para conversar e olhar para o paciente durante a consulta. “Melhora e muito. Porque, ao mesmo tempo que você pensa: ‘Poxa, uma inteligência artificial vai diminuir o cuidado ali com o médico. O médico vai terceirizar algo para o robô?’. Não, muito pelo contrário”, afirmou.
Ela explicou que a plataforma pode ajudar a reduzir o tempo destinado ao preenchimento de documentos e outras tarefas. “Ele ganha tempo da burocracia que ele faria, muito tempo ali preenchendo papelada, documento, etc. Ele tem mais tempo de olhar no olho do paciente, explicar melhor”, disse.
A ferramenta também pode auxiliar o profissional na forma de comunicação com o paciente. “A Norcia ensina até mesmo comunicação. Por exemplo, chegou gente e ele está com uma doença X, você vê que ele não tem ali uma capacidade de entender o que é aquilo. Você pode utilizar ela até para como se comunicar melhor e ela te auxilia até nisso mesmo”, explicou Clara.
Embora a plataforma seja direcionada principalmente aos médicos, a tecnologia também terá interface disponível para enfermeiros. “Sim. A gente é uma plataforma voltada para médicos, mas ela tem uma interface também que os enfermeiros conseguem usar no dia a dia”, informou.
Atendimento mais assertivo
Dr. Keilon Sampaio - Foto: Boca de Forno News
Quem também participou do lançamento foi o médico Keilon Sampaio, que atua em uma unidade básica de saúde do município. Após participar do treinamento sobre a ferramenta, ele avaliou positivamente a iniciativa e parabenizou a gestão municipal pela adoção da tecnologia. “Primeiramente, parabenizar a gestão, em nome do secretário Rodrigo Matos, que trouxe essa inovação aqui para a atenção básica. Eu creio que deve ser a pioneira aqui na Bahia. Isso vai facilitar bastante o atendimento do médico, que vai ficar um atendimento mais completo”, afirmou.
Segundo Keilon, a ferramenta apresenta uma série de recursos que podem auxiliar o profissional durante a consulta, mas sem retirar dele a responsabilidade pela decisão. “A ferramenta, a gente teve o treinamento hoje, ela é completa. Então dificilmente o médico vai conseguir errar. E deixando bem claro: não é a inteligência artificial que vai atender. É o médico que vai tomar a decisão, é o médico que vai dar o veredito final”, destacou.
Para ele, o sistema funciona como um apoio ao profissional para reduzir a possibilidade de que informações importantes sejam esquecidas durante a consulta. “Ela apenas vai auxiliar para que não fique nenhuma margem de nenhum tipo de erro ou algum tipo de pergunta ou algum tipo de exame que venha ser solicitado”, explicou.
Keilon Sampaio também apontou uma das situações em que a inteligência artificial poderá ser útil na rotina dos profissionais: pacientes que chegam às unidades apresentando sintomas ou queixas pouco específicas. “Às vezes o paciente chega com uma queixa não muito específica e a própria ferramenta te dá opções de algumas perguntas mais específicas, mais detalhadas, para fazer esse corpo da clínica do paciente, para que a gente seja mais assertivo no diagnóstico final”, explicou.
Mais uma vez, o médico reforçou que o diagnóstico não será realizado pela inteligência artificial. “Deixando bem claro: não é a inteligência artificial que vai dar o diagnóstico. É o médico que vai dar o diagnóstico, mas vai dar um auxílio. É como se fosse um professor, um preceptor em volta do colega médico ali no atendimento, dando todo o apoio”, afirmou.
Na avaliação do profissional, a utilização da ferramenta também poderá contribuir para organizar o tempo de atendimento e melhorar a qualidade dos encaminhamentos realizados na rede municipal. “Os estudos mostram, pelo que eu percebi aqui na apresentação, que o tempo de atendimento médico vai ser mais organizado. Então o médico vai conseguir atender, fazer o relatório para o encaminhamento mais assertivo, mais direcionado”, explicou.
Segundo Keilon, isso poderá facilitar também o atendimento nas unidades que recebem os pacientes encaminhados pela atenção básica. “Vai facilitar até na ponta, para quando esse paciente for transferido para alguma unidade ou para alguma policlínica. Ele vai dar uma sinalização se esse paciente é um paciente para ser encaminhado ou não”, afirmou.
A expectativa, de acordo com o médico, é que o uso mais organizado da ferramenta também contribua para reduzir encaminhamentos considerados desnecessários. “Vai diminuir consideravelmente também os encaminhamentos que muitas vezes são feitos de uma forma desnecessária”, concluiu.
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