Você já percebeu que quanto mais as mulheres trabalham, mais são (re) conhecidas e vistas como guerreiras? Ou seja, a exaustão é proporcional à valorização, porém não é permitido a elas demonstrarem cansaço, pelo contrário, são cobradas a serem a fortaleza da família e dos amigos.
As pessoas, através de um processo cultural e socialmente enraizado, tendem a romantizar essas mulheres e suas vidas. Mas será que este movimento é saudável?
No mês em que se comemora o dia internacional da mulher, uma série de ações e campanhas é realizada para destacar a luta histórica das mulheres por direitos em todo o mundo. No entanto, especialistas em saúde mental destacam também a importância do autocuidado feminino.
De acordo com a psicóloga Bianca Reis, esta romantização da mulher sobrecarregada pode causar uma série de transtornos para as mulheres e contribuir para que cada vez mais estas deixem o autocuidado para o último plano.
“Pós-graduações, trabalho, contas, filhos, cachorro, atividade física, alimentação, amigos, família, mudanças hormonais, traumas de infância, etc. Com uma vida cheia de checklists e demandas, onde ficamos? Quando podemos descansar e ou sermos simplesmente nós mesmas? Estas demandas e perguntas acabam gerando um turbilhão na mente das mulheres e, a romantização desta mulher sobrecarregada pode afetar, sim, a saúde mental”, declara a psicóloga Bianca Reis.
O discurso que enfatiza a luta, a dedicação eterna para conquistar os objetivos é cruel porque para determinadas pessoas, a única opção é ser forte. Mas não deveria ser assim. As mulheres desempenham vários papéis impostos pela sociedade e ainda têm sua humanidade negada, pois são consideradas heroínas incansáveis.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) divulgada pelo IBGE, em 2019, as mulheres eram responsáveis por 34,9 milhões dos lares brasileiros, o que representa 48,2% do total. A pesquisa também mostrou que, além de chefiarem o lar, mesmo quando elas têm emprego, trabalham mais em casa do que o homem desempregado.
Mesmo diante destas estatísticas, a sociedade nos impõe o fortalecimento e consolidação da imagem da mulher como guerreira e que nasceu para cuidar, de uma forma romantizada que não leva em consideração os impactos desse fenômeno.
“A conta não fecha, mas tentamos fazer com que as coisas se encaixem e, na maioria das vezes suportamos um fardo pesado para qualquer pessoa. Com isso, acontece uma série de desorganizações de ordem física e mental com verdadeiros adoecimentos. Neste momento, é importante que busquemos uma rede de apoio e, se necessário tratamento psicológico, pois a compreensão profunda dos nossos processos sociais e pessoais para traçar nossos próprios objetivos e desejos nos conecta à nossa essência. Além disso, discussões e debates são extremamente relevantes para a desconstrução de padrões sociais nocivos”, conclui a psicóloga Bianca Reis.
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