Segunda, 31 de Agosto de 2026 13:50
75 98160-8722
Dólar comercial R$ 5,18 -0,12%
Euro R$ 6,01 ++0,12%
Bitcoin R$ 431.734,32 ++1,64%
Bovespa 177.460,02 pontos +1.02%
Economia Economia

Simples Nacional: antecipação da escolha para 2027 gera alerta entre empresários de Feira de Santana

Presidente da ACEFS destaca necessidade de planejamento com apoio contábil, enquanto empresário do varejo critica falta de clareza e defende adiamento para ampliar o debate sobre a reforma tributária.

31/08/2026 12h43
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Simples Nacional: antecipação da escolha para 2027 gera alerta entre empresários de Feira de Santana

Foto: CDL

A mudança no calendário de adesão ao Simples Nacional para 2027 já começa a provocar preocupação entre empresários de Feira de Santana. Pela nova regra do Conselho Gestor do Simples Nacional, empresas que estiverem fora do regime e quiserem ingressar no sistema no próximo ano terão de antecipar a decisão: o pedido deverá ser feito entre 1º e 30 de setembro de 2026, e não mais em janeiro de 2027.

A alteração ocorre em meio à implantação da reforma tributária sobre o consumo, que prevê a entrada em cena de novos tributos, como a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Para discutir os impactos da mudança no comércio feirense, o Boca de Forno News ouviu o presidente da Associação Comercial e Empresarial de Feira de Santana (ACEFS), Genildo Melo, e o empresário do setor varejista Fernando Silva.

Embora tenham avaliações diferentes sobre determinados aspectos, os dois convergem em um ponto: o empresário precisa se preparar para uma mudança considerada ampla e que ainda provoca muitas dúvidas, principalmente entre os pequenos negócios.

Genildo Melo - Foto: Boca de Forno News

Genildo Melo explicou que a alteração atinge principalmente empresas que atualmente estão fora do Simples Nacional e pretendem ingressar no regime em 2027. Segundo ele, a mudança está prevista na Resolução nº 186/2026 e determina que o empresário interessado deverá formalizar a opção entre 1º e 30 de setembro deste ano. “O pedido que era para apenas para janeiro de 2027 passa a valer. Quem deseja entrar no Simples Nacional tem que tomar essa decisão do dia 1º a 30 de setembro agora de 2026 para valer em 2027”, explicou.

O presidente da ACEFS ressaltou ainda que existe a possibilidade de escolha de um regime híbrido, relacionado ao tratamento do IBS e da CBS fora do Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS). Outro prazo considerado importante pelos empresários é o de 30 de novembro de 2026. Conforme explicou Genildo, quem fizer a opção em setembro e posteriormente mudar de decisão poderá cancelar o pedido até essa data.

Ele também chamou atenção para outra situação: caso a solicitação seja indeferida, por exemplo, em razão de alguma dívida, o contribuinte terá prazo de 30 dias após o indeferimento para regularizar a pendência e tentar garantir a aprovação.

Na avaliação de Genildo Melo, a antecipação não deve provocar, por si só, uma alteração imediata na dinâmica das vendas do comércio de Feira de Santana. O impacto maior estaria na necessidade de planejamento e tomada de decisão por parte do empresário.

Para ele, não é recomendável fazer a escolha de forma automática. O empresário precisa analisar a realidade financeira e tributária da própria empresa e buscar orientação profissional. “Isso tem que ser baseado inclusive em cálculos. Ele tem que estar embasado nas informações dos seus contadores justamente para entender se a sua empresa, qual é o melhor regime para a sua empresa”, afirmou.

O presidente da ACEFS avalia que boa parte das empresas já vem acompanhando as mudanças há mais de um ano. Desde 2025, segundo ele, informações sobre a reforma tributária e seus impactos vêm sendo divulgadas, permitindo que escritórios de contabilidade e empresas iniciem a adaptação dos sistemas.

Apesar disso, Genildo reconhece que alguns empresários ainda podem enfrentar dificuldades justamente porque havia a expectativa de que a decisão fosse tomada apenas em janeiro. Para quem ainda não iniciou o processo de preparação, a recomendação é procurar imediatamente a equipe contábil. “Os que ainda não o fizeram terão que fazer um certo regime de urgência e se reunir urgentemente com suas equipes contábeis”, alertou.

Cenário de incerteza

Fernando Silva - Foto: Boca de Forno News

A avaliação de Fernando Silva é mais crítica. O empresário do varejo afirmou que acompanha a reforma tributária, mas reconheceu que ainda não conseguiu compreender completamente qual será a melhor opção para o próprio negócio. Ele destacou que a complexidade do assunto não atinge somente os comerciantes. Na visão dele, ainda existem profissionais da área contábil que não dominam completamente todas as mudanças previstas. “Existem muitas dúvidas, muitas situações para se analisar, porque vai ser implantado por etapa”, afirmou.

Fernando chamou atenção principalmente para a realidade das micro e pequenas empresas, que geralmente não possuem departamentos contábeis próprios e dependem de escritórios que atendem simultaneamente diversos clientes. Na avaliação dele, isso aumenta a dificuldade de tomar uma decisão tão importante em um período reduzido. “A minha pequena empresa está no meio de uma guerra, igual um cego sem saber para que lado vai”, resumiu.

O empresário afirmou que ainda não sabe se, para sua realidade, será melhor permanecer no Simples Nacional ou migrar para outro modelo de tributação, como lucro real ou lucro presumido.

Fernando Silva também criticou a antecipação do calendário. Segundo ele, tradicionalmente os empresários tinham mais tempo para analisar os números da empresa e decidir qual regime tributário seria mais adequado. Com a mudança, o planejamento precisará ser realizado antecipadamente.

Na visão do empresário, o problema não está apenas na mudança em si, mas na falta de segurança sobre como as novas regras funcionarão na prática. Ele argumentou que pequenos empreendedores precisam lidar diariamente com uma série de responsabilidades e nem sempre dispõem de estrutura para acompanhar uma reforma tributária dessa dimensão.

Fernando defendeu que o governo deveria utilizar pelo menos mais um ano para explicar detalhadamente as mudanças, apresentando pontos positivos e negativos antes de exigir uma decisão definitiva. Para ele, a reforma não deveria ficar concentrada apenas na perspectiva de arrecadação, sob risco de aumentar a dificuldade de sobrevivência de pequenos negócios.

O empresário também afirmou que tem buscado informações por meio de seminários e debates, mas considera insuficiente a quantidade de discussões aprofundadas promovidas em Feira de Santana. Segundo Fernando, entidades representativas do empresariado local ainda falaram pouco sobre a mudança.

Ele destacou inclusive o papel do rádio como instrumento de informação para o comércio, afirmando que o veículo consegue levar informações com rapidez e promover debates que ajudam os empresários a compreender questões que afetam diretamente suas atividades.

Fernando disse ter observado iniciativas de escritórios de contabilidade e profissionais de outras regiões do país tentando explicar as novas regras pelas redes sociais, mas considera que o conteúdo disponível ainda não é suficiente. Na avaliação dele, até mesmo entre os escritórios contábeis haveria diferentes níveis de preparação para o novo cenário.

Alíquotas

Para Genildo Melo, a maior preocupação dos empresários neste momento está relacionada ao tamanho das alíquotas que serão efetivamente aplicadas. O presidente da ACEFS afirmou que existem estimativas na faixa de 26% a 32%, mas também menciona projeções que chegam a 43% em determinados segmentos.

A indefinição, segundo ele, provoca insegurança entre os empresários. “Muitas dúvidas, muitas dúvidas. Na verdade, nem o próprio governo federal tem certeza de muitas das ações que estão sendo implementadas”, avaliou.

Genildo acrescentou que, ao longo de 2026, algumas medidas que já haviam sido anunciadas acabaram sendo retiradas ou passaram por reavaliação, o que contribui para aumentar a sensação de incerteza. A orientação, portanto, é acompanhar as decisões oficiais e manter o diálogo permanente com profissionais da contabilidade.

Preço pode chegar ao consumidor

A preocupação com as alíquotas está diretamente relacionada ao preço final dos produtos. Genildo Melo afirmou que, caso haja aumento significativo da carga tributária, a tendência é que parte desse custo seja incorporada aos preços.

Na avaliação dele, o empresário funciona como um elo de repasse da tributação e, no fim da cadeia, o impacto pode chegar ao consumidor. “Quando você fala em aumento de alíquota, eu não tenho a menor dúvida que isso será repassado nos preços dos produtos. Em última análise, quem paga o imposto é o consumidor. O empresário apenas repassa”, afirmou.

O presidente da ACEFS alertou, porém, que uma elevação excessiva pode provocar um efeito negativo sobre o próprio comércio, porque preços maiores tendem a reduzir o consumo. Por isso, defendeu que o governo estabeleça alíquotas que sejam suportáveis tanto para as empresas quanto para os consumidores.

Genildo explicou que a reforma tributária prevê a reorganização de diferentes tributos. A CBS deverá concentrar tributos federais, como PIS e Cofins, enquanto o IBS reunirá impostos estaduais e municipais, entre eles ICMS e ISS. Para o presidente da ACEFS, a reforma pode ser positiva caso consiga simplificar e desburocratizar o sistema tributário brasileiro. “O ideal é que se faça uma reforma tributária que desburocratize o sistema, mas que não haja aumento de alíquota”, defendeu.

Segundo ele, as dificuldades operacionais poderão ser superadas gradualmente à medida que empresas, profissionais e sistemas se adaptem às novas regras. O que mais preocupa, porém, é a possibilidade de uma carga tributária maior.

Genildo afirmou esperar que as alíquotas não cheguem aos patamares mais elevados que vêm sendo cogitados. “Isso vai prejudicar muito não apenas os empresários de Feira de Santana, mas de todo o Brasil”, alertou.

Regras não estão claras

Fernando Silva também demonstrou preocupação com os efeitos da reforma, principalmente para os pequenos negócios. O empresário afirmou que gostaria de conseguir enxergar aspectos positivos na mudança, mas, diante das informações disponíveis até o momento, considera que prevalece a insegurança.

Para ele, o pequeno comerciante não deseja permanecer na informalidade ou trabalhar à margem das regras. O problema seria a dificuldade de compreender antecipadamente qual será o impacto das novas normas sobre cada empresa. “Pode ser que tenha coisas boas, mas ainda, pelo menos quando eu converso, quando a gente faz o diálogo com alguns colegas, quase todos nós estamos pessimistas com relação a isso e até inseguros sobre a sobrevivência das empresas nesse novo regime”, declarou.

Fernando ressaltou que não acredita que o novo sistema tenha como objetivo eliminar empresas, mas comparou a situação a dirigir por uma estrada desconhecida, na qual qualquer erro pode trazer consequências. Ele também criticou o caráter punitivo que, em sua avaliação, caracteriza o sistema tributário brasileiro.

Juros elevados

Além da reforma tributária, Genildo Melo destacou outro fator que, segundo ele, já está pressionando o comércio de Feira de Santana: os juros elevados. O presidente da ACEFS afirmou que o período entre julho e outubro costuma registrar uma desaceleração natural das vendas depois de meses importantes para o varejo.

O comércio passou por datas e períodos de forte movimentação, como o Dia das Mães, Dia dos Namorados e as festas juninas. Depois desse ciclo, ocorre tradicionalmente uma redução no ritmo de consumo. Para Genildo, o cenário fica ainda mais delicado diante da taxa de juros, que, segundo ele, está em 15% ao ano.

Na avaliação do dirigente empresarial, juros elevados reduzem a disposição das empresas para investir e dificultam a expansão dos negócios. “De fato existe essa preocupação na redução do consumo, na redução das vendas e, consequentemente, uma dificuldade aí na geração de emprego e renda”, afirmou.

Novas contratações ficam mais difíceis

A combinação de tributação, juros elevados e possível retração do consumo também acende um alerta em relação ao mercado de trabalho. Genildo explicou que, se os impostos aumentam, os preços tendem a subir; com produtos mais caros, o consumo pode cair; com menor faturamento, as empresas passam a ser mais cautelosas nos investimentos.

Esse ciclo pode atingir diretamente a geração de empregos. Para o presidente da ACEFS, Feira de Santana possui uma característica importante por ter um comércio forte e consolidado, o que pode ajudar a preservar os postos de trabalho existentes.

Ainda assim, ele considera mais difícil imaginar uma expansão significativa das contratações no atual cenário. “O nível de emprego que temos hoje poderá até ser mantido, com alguma dificuldade, mas gerar novos empregos eu acho que é um pouco mais difícil”, avaliou.

Adiamento da decisão

Enquanto Genildo Melo recomenda planejamento e acompanhamento contábil diante da mudança já estabelecida, Fernando Silva defende uma solução mais radical: o adiamento da decisão. Para o empresário, o ideal seria utilizar mais um ano para aprofundar a discussão e permitir que pequenos e microempresários tenham tempo suficiente para entender o novo sistema e avaliar sua capacidade de adaptação.

Fernando também relacionou sua proposta ao calendário eleitoral e defendeu que a discussão seja feita em um período sem eleições, com participação de empresários, profissionais da área contábil, especialistas tributários e representantes do governo.

Na avaliação dele, grandes empresas teriam mais facilidade para se adaptar porque contam com departamentos jurídicos e contábeis próprios. Já os pequenos negócios, muitas vezes, dependem de serviços terceirizados e possuem menos recursos para absorver mudanças complexas. “Como é que vamos fazer com que possamos entrar numa nova regra, mudar a regra do jogo, sem sequer saber qual é a regra nova?”, questionou.

Atenção imediata dos empresários

Apesar das diferenças entre as avaliações, as duas entrevistas apontam para a necessidade de os empresários não deixarem a discussão para a última hora. Para Genildo Melo, o caminho é procurar os contadores, realizar os cálculos e identificar qual regime será mais adequado para cada negócio. Para Fernando Silva, entretanto, ainda faltam informações e tempo para que o pequeno comerciante tome uma decisão segura.

O novo calendário transforma setembro em um mês decisivo para as empresas que pretendem ingressar no Simples Nacional em 2027. Ao mesmo tempo, a implantação gradual da reforma tributária mantém o setor empresarial diante de um cenário de adaptação, dúvidas e expectativa em relação às futuras alíquotas.

Enquanto o governo avança na implementação das novas regras, empresários de Feira de Santana defendem que a simplificação do sistema não venha acompanhada de aumento excessivo da carga tributária e que os pequenos negócios tenham condições reais de se adaptar.

Ao final da entrevista, Genildo Melo agradeceu o espaço concedido à Associação Comercial e Empresarial de Feira de Santana e destacou a relação da entidade com os veículos de comunicação. O presidente da ACEFS afirmou que a imprensa é uma grande parceira do comércio local e deixou um abraço aos ouvintes do programa, citando especialmente Luiz Santos.

Fernando Silva também agradeceu a participação e colocou-se à disposição para novos debates sobre o tema, reforçando a importância de ampliar a discussão sobre os impactos da reforma tributária para os pequenos comerciantes.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários