A gasolina vendida nos postos brasileiros está diferente desde o início de agosto. A quantidade de etanol anidro misturada ao combustível passou de 30% para 32%. A mudança, aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), começou a valer no dia 1º e terá duração inicial de 180 dias, com possibilidade de uma prorrogação pelo mesmo período.
Na Bahia, a mudança chega em um momento em que o estado também amplia a produção de etanol. A previsão para a safra 2026/27 é de 854,5 milhões de litros, somando a produção a partir de cana-de-açúcar e milho. Desse total, 358 milhões de litros devem ser de etanol anidro, usado na mistura da gasolina, e 496,5 milhões de litros de etanol hidratado, vendido diretamente nos postos.
O crescimento mais expressivo vem do etanol de milho. A estimativa para a Bahia é de 470 milhões de litros na safra 2026/27, uma produção que não existia no estado na safra anterior. A expansão coloca a Bahia entre os estados que mais avançam na produção desse tipo de biocombustível. A nova mistura, porém, também trouxe uma dúvida para quem abastece: os 2% a mais de etanol podem fazer mal ao carro?
Testes
O governo federal afirma que não. Segundo o Ministério de Minas e Energia, testes realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia avaliaram carros e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina, de diferentes idades e tecnologias. Foram observados itens como partida, aceleração, consumo e emissões, e o governo afirma que não foram identificados impactos relevantes no funcionamento dos veículos.
A indústria automobilística, no entanto, defende mais estudos, principalmente para saber o que pode acontecer com os veículos depois de muito tempo utilizando a nova mistura. A preocupação é maior com modelos antigos, importados e veículos que funcionam exclusivamente com gasolina.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), junto com outras entidades do setor, afirmou que a elevação para 32% deveria ser acompanhada de testes específicos. A indústria chama atenção para possíveis efeitos sobre componentes que entram em contato com o combustível. “Teores acima de 30% trazem desafios de engenharia que demandam validação rigorosa, uma vez que a frota circulante não foi desenvolvida considerando elevados teores de biocombustível”, afirmou a Anfavea em manifestação sobre a mudança.
Entre os componentes que despertam preocupação estão mangueiras, vedações e outras peças do sistema de combustível. A discussão, entretanto, não significa que a E32 esteja comprovadamente danificando os veículos. O ponto levantado pela indústria é que alguns efeitos relacionados à durabilidade só poderiam ser percebidos depois de um período mais longo de utilização.
Motociclistas
Nas motocicletas, o debate também ganhou força. O diretor da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), Sergio Oliveira, disse que o setor não foi consultado antes da mudança. “Sempre fomos favoráveis à mistura do etanol, não temos nenhuma resistência a isso, mas estamos preocupados com essa ausência de debate sobre esse tema”, afirmou.
A preocupação é relevante para a Bahia, que possui uma frota grande de veículos e motocicletas. A base da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) permite separar a frota do estado por tipo de combustível e identificar quantos veículos são flex e quantos utilizam exclusivamente gasolina.
Para quem tem carro flex, a mudança tende a representar uma preocupação menor. Esses veículos foram desenvolvidos para trabalhar com gasolina e etanol. Já proprietários de carros antigos, importados ou exclusivamente a gasolina devem ficar mais atentos às recomendações do fabricante.
Segundo o especialista em engenharia automotiv, Ricardo Nunes, a nova gasolina também muda a conta de quem escolhe entre gasolina e etanol, no entanto, não deve estragar o carro como muitos imaginam “Isso não deve existir, pois o oproduto serpá produzido com qualidade”. Como a mistura passou a ter mais etanol, a gasolina passa a ter um pouco menos de energia por litro. Isso pode alterar o consumo, embora o efeito dependa do veículo.
Mudança
Ele explica que a mudança também pode tornar o etanol hidratado mais competitivo. Uma análise publicada após a entrada em vigor da E32 aponta que a antiga regra de que o etanol só vale a pena quando custa até 70% do preço da gasolina pode deixar de ser uma referência tão rígida. Com a nova composição, a proporção pode chegar perto de 78%, dependendo do veículo e das condições de uso.
Na Bahia, essa conta ganha importância por causa dos preços praticados no estado. Em Salvador, a gasolina comum foi comercializada, em média, por R$ 6,69 o litro entre 9 e 15 de agosto, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No interior, os preços foram ainda maiores em alguns municípios.
Procurado, o Sindicombustíveis-BA não informou a tempo se os postos baianos já perceberam alguma mudança na procura por gasolina e etanol desde a entrada da E32 e se houve alteração nos preços praticados pelos revendedores. Mas em uma análise publicada pela entidade, destacou que o aumento do etanol anidro pode ampliar a demanda pelo biocombustível e favorecer a competitividade do etanol hidratado. Em publicação recente, a entidade também discutiu a segurança da mistura e os efeitos sobre os veículos.
Para o governo federal, a mudança tem também um objetivo econômico. A estimativa é de que a maior participação do etanol reduza a necessidade de importação de gasolina e aumente a utilização de biocombustíveis produzidos no país.
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