O cantor e compositor Del Feliz defendeu mudanças na organização do São João na Bahia, especialmente no que diz respeito aos cachês milionários pagos a artistas durante os festejos juninos. Em entrevista ao programa Boca de Forno News, o artista comentou a proposta discutida pela União dos Municípios da Bahia (UPB), em diálogo com o Ministério Público, que prevê a criação de um teto de R$ 700 mil para contratação de bandas pelas prefeituras.
Segundo Del Feliz, a discussão ganhou força em toda a região Nordeste após a movimentação iniciada na Bahia. Para ele, a decisão dos prefeitos reflete uma realidade financeira preocupante. “Esse assunto tem reverberado em todo o Nordeste a partir de uma movimentação aqui no estado da Bahia. O que há é uma convicção dos prefeitos de que os cachês de alguns artistas chegaram a níveis astronômicos, impraticáveis para muitos municípios. Esse teto é uma tentativa de manter a festa viável economicamente, preservar sua beleza e não sufoque financeiramente os municípios”, afirmou.
O artista destacou que alguns cantores estariam cobrando até R$ 2,2 milhões por apresentação durante o São João. Embora ressalte que não cabe a ele “precificar o show do outro”, Del pontua que é responsabilidade do gestor público justificar gastos elevados com recursos que pertencem à população. “Se o prefeito tiver condições de pagar dez milhões por um show e explicar ao povo por que tirou esse dinheiro de outras áreas para investir ali, é uma decisão dele. Mas é preciso responsabilidade”, declarou.
Del Feliz lembrou que, ainda em 2015, participou da articulação da chamada Lei da Zabumba, que previa a destinação de 60% dos recursos públicos do São João para atrações ligadas ao forró tradicional. A proposta foi aprovada, mas nunca regulamentada. “Já prevíamos em 2015 que chegaria um nível insustável para as Prefeituras que vinham naquele período colocando várias atrações nas festas e afastando os representantes da cultura desse evento”.
Para o cantor, a ausência de políticas efetivas contribuiu para o afastamento dos forrozeiros dos grandes palcos e para a descaracterização da festa. “O São João é bonito pela simplicidade, pelas bandeirolas, pelas quadrilhas, pela comida típica e, principalmente, pelo forró. Quando se tira o forró, você enfraquece a identidade da festa”, ressaltou.
Ele defende que o evento continue plural, com espaço para outros gêneros musicais, mas sem que o forró perca o protagonismo. “A festa é plural, mas antes de qualquer coisa é a festa do forró. Mas para trazer turistas ela tem que ser original e manter as tradições”.
O teto agora é de R$ 700 mil para o pagamento das bandas. Questionado sobre se diminuirá os investimentos em materiais por causa dessa diminuição, Del disse que não gosta de precificar o show de nenhum artista.
“Eu entendo que um artista pode cobrar R$ 10 milhões pelo seu show e o prefeito contrata se quiser. Se contratar, ele deve explicar para o povo o porque de ter tirado esse valor que poderia ser investido em outras coisas e colocou no show. Essa é uma questão subjetiva porque não tem como explicar tecnicamente que você cobrou esse valor por um show por causa de estrutura”.
Críticas ao modelo de contratação e às produtoras
Outro ponto levantado pelo artista foi a concentração do mercado nas mãos de poucas produtoras, que, segundo ele, controlam a grade de atrações em diversas cidades baianas. Del questiona o aumento acelerado dos cachês nos últimos anos e aponta falhas na legislação que regula as contratações. “Sem dúvida nenhuma se as Prefeituras contratassem as atrações diretamente com os seus empresários, sem a intervenção de produtoras, os valores seriam menores”.
Ele citou a Lei 14.133 como exemplo de norma que, em sua avaliação, possui brechas ao permitir a comprovação de cachês por meio de notas fiscais emitidas em sequência para diferentes municípios. “A lei é muito falha e acaba prejudicando principalmente os artistas regionais e iniciantes, que não conseguem comprovar valor de cachê por não terem histórico de notas. Essa falha prejudica demais os artistas regionais e os que estão começando porque quem vai fazer o primeiro show não tem nota fiscal. Como você vai fazer o primeiro show se você não tem nota para provar?”, criticou.
Del também mencionou o que chamou de “pegadinha” enfrentada por alguns prefeitos, que teriam recebido propostas iniciais de festas completas a custos reduzidos e, nos anos seguintes, passaram a arcar com valores muito mais altos para manter o mesmo padrão de atrações. “Estamos movimentando Brasília nesse sentido e estamos denunciando essa falha e dificuldade da lei de permitir que os pequenos artistas se apresentem porque queremos facilitar a vida desses que mantém essa tradição trabalhando e quer frequentar os grandes palcos”.
A crítica de Del é que muitas dessas produtoras chegam nas cidades, oferecem toda a sua estrutura com a sua grade pronta e expulsam todos os artistas da região que fazem a festa com tradição. “E isso é um prejuízo absurdo não apenas para a cidade, para a população, mas para uma tradição identitária que foi construída por décadas e está sendo jogada no lixo. Virou um monopólio. Não tenho nada contra caches milionários, artistas adentrarem as festas, as produtoras. O que eu tenho é uma dedicação por essa cultura levando-a para dezenas de países”.
Expectativa para o próximo São João
O cantor acredita que o Ministério Público deve acompanhar de perto as contratações diante do aumento expressivo dos valores pagos nos últimos anos. Ainda assim, reforça que não é contra cachês elevados, desde que haja equilíbrio e respeito à identidade cultural.
Reconhecido como um dos defensores do forró no Brasil e no exterior, como dito anteriormente, tendo participado de ações de valorização do gênero junto à UNESCO e colaborado na campanha que reconheceu o forró como patrimônio cultural brasileiro, Del afirma que sua luta é pela preservação da essência da festa. “Não se trata de radicalismo. O São João pode crescer, pode ter grandes palcos e novas atrações. Mas se a gente descaracterizar tudo, deixa de ser a festa cultural mais rica da Bahia e do Nordeste”, disse.
Para ele, o ideal é que o próximo São João seja marcado pelo equilíbrio: financeiramente sustentável para os municípios, culturalmente autêntico e com maior valorização dos artistas regionais. “Que seja uma festa pacífica, bonita, viável e que respeite a nossa tradição. O povo é quem paga a conta e também é quem mantém viva essa cultura.”
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