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Geral Rússia x Ucrânia

Economista fala sobre os efeitos da guerra Rússia x Ucrânia para a economia mundial

Amarildo Gomes fala sobre as consequências que chegarão não apenas para o Brasil, como para todo mundo. Saiba quais são elas.

06/03/2022 09h00
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Foto: Sergei Supinsky / AFP / Metsul
Foto: Sergei Supinsky / AFP / Metsul

O economista Amarildo Gomes falou sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia e os efeitos negativos que ela pode trazer para a economia mundial. Ele destacou que toda guerra traz efeitos danosos. O primeiro é para o ser humano, com mortes, destruição da história das pessoas e o seu deslocamento. “Nesta guerra, mais de um milhão de pessoas já saíram da Ucrânia para outros países que receberão esses refugiados. É uma guerra desproporcional porque é um país muito forte militarmente destruindo seus irmãos. Essa guerra manchará muito a história da Rússia”.

A segunda consequência, ressalta Amarildo, é a econômica, que destrói a vida dessas pessoas, dos refugiados. “Eles têm uma casa, um patrimônio, uma história. E isso tudo tem um valor econômico”. A economia mundial também sofre porque tudo está interligado não só através da rede de computadores como também de todos os sistemas de transporte e bancário. “A logística mundial é interligada hoje. Os efeitos vão acontecer em todo mundo. Todos os países, independentemente de ter transações diretas com a Rússia, irão sofrer com as transações indiretas”, explica.

Como exemplo, ele citou que o Brasil já amanheceu neste sábado (5) com a gasolina mais cara. “O petróleo negociado em todo o mundo sofreu um aumento por causa da guerra de 15% e estamos pagando esse aumento. O barril de petróleo saiu de 99 dólares e oscila entre 115 e 113 dólares. Só não aumentou mais porque existe uma reserva internacional que foi liberada de 60 milhões de barris para não haver aumento abrupto do petróleo, que se estima chegar até 150 dólares caso a guerra não acabe logo”, alerta.

O economista prevê ainda que muitas empresas da Rússia, que fornecem ao mundo, irão fechar. E, logicamente, isso trará consequenciais na demanda e na oferta de petróleo e trigo. “A Rússia é o maior produtor de trigo do mundo. Todo mundo come pão. Trigo é uma commodities, é uma mercadoria utilizada no mundo inteiro. Nosso pãozinho vai aumentar. Estamos muito distantes da Rússia, mas vamos pagar caro pela guerra”, lamenta.

Segundo ainda o economista, os países vizinhos sofrerão mais, principalmente a Europa, porque tem uma economia mais ligada. “40% da energia natural da Europa vem do gás natural da Rússia, mas eles irão procurar alternativas”.

A Rússia, na opinião de Amarildo, é o segundo perdedor. Isso porque a economia ficará fraca. E se a guerra demorar eles não terão dinheiro para pagar suas contas, as pessoas perderão seus empregos. Cartões de crédito como Visa e Mastercard já deixaram de circular no país. “O dinheiro já está escasso e empresas já estão fechando. Isso tudo são consequências que causarão para nós em menor poder”.

As expectativas diziam que seria uma guerra de três ou quatro dias por causa do poder bélico da Rússia. Mas ela está se alongando e, quanto mais demorada, pior. Porque as sanções que o mundo está impondo a Rússia, além de jogá-la em uma situação de frangalhos, ficará uma economia de segundo plano a nível mundial. “É proibido se transacionar hoje empresas da Europa com a Rússia. Isso é normal, são sanções. Se você transacionar com aquele país, não transacionará conosco. Quanto mais demorar, pior”.

Os bancos russos estão também proibidos de utilizar o sistema internacional de transferência de dinheiro. E isso é ruim porque as empresas russas pagam e recebem através dele. “Isso é ruim para o sistema global porque a Rússia não é um “paísinho”, ela é a segunda potência militar e geralmente circula entre a sétima e a nona economia do mundo. Ela não é um país de primeiro mundo porque o regime político ainda é ditatorial. Ela tem um presidente que tem 20 anos no poder e vai ficar até 2036 porque ele mudou a lei. A história de Putin não é boa e quando a história dele não é boa o risco de uma guerra é muito grande”, explica.

Economicamente, a Ucrânia é um povo bom, para Amarildo. Ele lembra que o país tinha o segundo arsenal nuclear do mundo e abriu mão dele. “Porque para eles não interessa a guerra. Interessa paz e harmonia entre os povos. Por isso está sofrendo hoje, porque pediu para entrar na União Europeia. Ela é democrática, tem eleições livres e isso levou Putin a guerra. O desejo da Ucrânia de se aproximar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e de países livres. Na Rússia não se pode nem se manifestar contra a guerra. Crianças e idosos estão sendo presos”, destaca.

A Ucrânia não é uma potência porque tem 45 milhões de habitantes, mas a economia é forte. “Ela é o 4º produtor de trigo do mundo. Produz muitas riquezas e produtos agrícolas”. Para o Brasil será ruim uma perda de relações com a Ucrânia porque ele exporta muito para lá e também compra de lá. “Mas nossa relação com a Rússia é maior. 25% dos nossos defensivos agrícolas, principalmente potássio, vem da Rússia. O país já sofrerá com a carência desse produto, mas pode buscar outras alternativas como o Canadá. Só que pagará maia caro”.

Na visão econômica, destaca Amarildo, o Brasil já se posicionou contra a guerra. Ele ressalta ainda que é preciso separar o Governo Bolsonaro do Brasil. “O Brasil é uma sociedade, é um Estado. E o Estado sempre se posicionou nos conflitos mundiais contra a guerra. O presidente Bolsonaro ficou neutro. E isso é um erro”, disse.

O mundo pediu para Bolsonaro não visitar a Rússia e oito dias antes da guerra ele foi, diz Amarildo. Isso é do estilo do presidente, administrar o país pela visão ideológica e não ser pragmático com os interesses do país. “Mas o país se posicionou na ONU (Organizações das Nações Unidas) contra a guerra, como deveria ser, e pedindo para a Rússia sair da Ucrânia. Posição correta porque temos de ficar a favor da paz, do amor e da harmonia. Porque se não as sanções chegariam ao nosso país. Já estamos enfraquecidos pela pandemia e ter sanções econômicas aí é que a situação iria se apertar”.

O não posicionamento do presidente, na opinião do economista, é porque ele é a favor da guerra. E isso é ruim para o Brasil. “Os líderes internacionais estão ligando para ele para que tome uma decisão. Não existe neutralidade numa guerra. Você tem que ser contra porque ela só destrói. Destrói quem está nela e quem está fora também”.

Quem mais perderá com a guerra, diretamente na Rússia, são os ricos que deixarão de fazer negócios com o mundo. Grandes embarcações, aviões russos não podem mais circular na União Europeia. “Muitas fábricas russas vão fechar. Algumas empresas europeias e dos Estados Unidos, que tem negócios com a Rússia, também sofrerão. Sempre quem paga a mais com isso são os mais pobres que utiliza toda a sua renda para comer. E se aumenta a comida e o petróleo, o mais pobre paga mais e sofre mais”, finalizou. 

 

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