A cidade histórica de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, recebe, entre esta sexta-feira (21) e domingo (23), a 9ª edição do Festival Cachoeira Agosto do Blues. Com programação totalmente gratuita, o evento reúne música, história, cultura e patrimônio em diferentes espaços da cidade e tem como proposta consolidar Cachoeira como um dos principais destinos do blues na Bahia.
Em entrevista ao programa Rádio Total, da Rádio Paraguaçu FM, o produtor do festival, Marcos Moura, destacou que a edição deste ano chega cercada de expectativa e reforçou a proposta de manter o evento com uma identidade própria, independente e diretamente ligada às características históricas e naturais de Cachoeira.
Segundo Marcos, o festival tem uma proposta "raiz" e "rústica", em sintonia com a própria cidade. A programação utiliza como cenário o patrimônio histórico local, sem a necessidade de estruturas grandiosas. “Nosso palco é histórico. A gente não arma palco para ter que desarmar. Nosso palco está ali. A gente dá um incremento para ficar charmoso, condizente com o linguajar apresentado à música blues”, explicou.
A Praça da Aclamação, no Centro Histórico, será um dos principais espaços do evento. O local é cercado por casarões coloniais e igrejas de arquitetura barroca e, segundo a organização, proporciona um cenário que reúne História, Arte e Blues. A iluminação também segue a proposta do festival. De acordo com Marcos Moura, a intenção não é transformar o espaço em uma boate, mas criar uma iluminação que dialogue com a música e valorize o cenário.
Para o produtor, o próprio espaço urbano de Cachoeira funciona como parte da estrutura do evento. “A praça é o telão”, afirmou, ressaltando que a cidade e seu patrimônio são elementos fundamentais para a identidade do festival.
A programação começa nesta sexta-feira (21), às 19h30, com três atrações. Entre elas está a banda Estrelas Vulgares, formada por músicos de Cachoeira. Marcos Moura destacou que o grupo é fruto da própria cena musical da cidade e representa uma das propostas do festival de abrir espaço para novos artistas. “É uma banda daqui de Cachoeira, uma turma que se preparou muito para esse momento”, afirmou.
O produtor também ressaltou que o festival possui horário definido para começar e terminar, mantendo uma programação organizada para o público.
Além de artistas de Cachoeira, como a banda Cachoeirano Estrelas Vulgares, que abrirão o Festival, a edição deste ano também contará com músicos de outras cidades baianas. Entre os nomes citados está a banda Javali Blues, de Ilhéus, apresentada por Marcos como um power trio de blues.
A proposta, segundo ele, é valorizar músicos baianos e mostrar que o estado possui artistas preparados e de excelência, muitas vezes sem oportunidades suficientes para apresentar seus trabalhos. “O que falta é oportunidade. A gente tem muita gente boa que toca, que não deve nada a nenhum músico de fora. Músicos de excelência”, afirmou.
O sábado (22) será o dia mais intenso do festival, com atividades durante a manhã, à tarde e à noite. Às 10h30, o Cine Teatro de Cachoeira recebe o Cine Blues, atividade voltada à apresentação da história do blues. A iniciativa tem caráter educativo e busca aproximar o público das origens e das características do gênero musical.
Marcos explicou que o festival também tem a preocupação de levar conhecimento ao público e apresentar as raízes do blues, estabelecendo uma relação entre a história do gênero e a própria formação cultural do Recôncavo Baiano. “É um festival que se preocupa em educar no que diz respeito ao conhecimento, levar o conhecimento da história”, afirmou.
Na tarde de sábado, às 16h, será realizada a programação Blues Convida, em frente à Embaixada Preta, com apresentação da banda Flor de Imbuia, um quarteto feminino com rabeca.
A iniciativa, realizada pela terceira vez, já promoveu encontros do blues com outros gêneros musicais. No primeiro ano, o convidado foi o jazz. No ano passado, o festival promoveu um tributo a Raul Seixas, dentro das comemorações dos 80 anos do nascimento do artista, caso estivesse vivo.
Neste ano, a escolha foi pelo forró. Para Marcos Moura, o forró tradicional possui uma ligação muito forte com o blues, especialmente por retratar o sofrimento, as histórias e os sentimentos do povo nordestino. Ele citou artistas e referências da música nordestina e destacou a proximidade entre a sanfona, também conhecida como gaita, e a gaita tradicionalmente utilizada no blues. “É a linguagem, a cara do blues”, afirmou sobre o forró raiz.
Outra novidade destacada pelo produtor é o encontro entre o repente nordestino e o blues. Um repentista de Dom Macedo Costa foi convidado para participar da programação e apresentar um diálogo entre as duas linguagens musicais.
Marcos classificou a iniciativa como uma “audácia do festival” e explicou que o repente possui características muito próximas ao blues, principalmente pela temática e pelo improviso. “O repente tem uma linguagem muito próxima ao blues. A saga do povo nordestino, o repente trabalha muito em cima dessa máxima”, explicou.
A apresentação será realizada no sábado e contará com o violeiro utilizando sua tradicional viola para fazer improvisos e versos. Para Marcos, a proposta é inédita e representa uma maneira de aproximar manifestações culturais nordestinas da linguagem do blues.
A programação também contará com a participação de novos músicos e jovens talentos. Marcos destacou a presença de um guitarrista de apenas 17 anos, apresentado como uma das revelações da nova geração do blues e do rock. Segundo ele, o jovem é um músico virtuoso e solista, categoria que exige elevado domínio técnico do instrumento.
A valorização de novos artistas faz parte da proposta do festival, que, segundo o produtor, procura oferecer oportunidades para músicos que estão construindo suas trajetórias. A ideia é fazer do evento não apenas um espaço para nomes já conhecidos, mas também uma plataforma para revelar artistas e fortalecer a cena musical baiana.
Na noite de sábado, a programação retorna ao palco montado no alto da escadaria da Casa de Câmara e Cadeia, considerado por Marcos Moura um dos palcos históricos do blues em Cachoeira. O produtor agradeceu o apoio da instituição e citou o presidente Josmar pela parceria.
A noite contará com mais três apresentações de blues, encerrando a programação noturna do segundo dia. Entre as atrações estão músicos de diferentes regiões da Bahia, reforçando a proposta de um festival genuinamente baiano e interiorano.
Marcos explicou que o objetivo é fazer com que o público conheça artistas que trabalham com o blues dentro do próprio estado. “Nosso festival é genuinamente baiano”, afirmou.
Blues no Paraguaçu é destaque no domingo
No domingo (23), às 10h, acontece uma das atrações mais tradicionais e simbólicas do festival: o Blues no Paraguaçu. A apresentação será realizada sobre um antigo saveiro, utilizado como palco flutuante nas águas do Rio Paraguaçu.
Segundo Marcos, a embarcação carrega marcas de anos de navegação e se transforma em um cenário único para a apresentação musical. O repertório será voltado ao blues mais antigo, especialmente o blues do Mississippi.
Para o produtor, essa atividade representa um dos maiores diferenciais do festival e estabelece uma ligação simbólica entre o Rio Mississippi, berço histórico do blues, e o Rio Paraguaçu. “A ligação do Mississippi ao Paraguaçu não existe em lugar nenhum do mundo”, destacou.
A organização pretende ampliar cada vez mais a importância do Paraguaçu dentro do festival, valorizando o rio e sua relação com a história de Cachoeira.
Marcos Moura afirmou que o festival nunca teve como principal objetivo contratar grandes atrações nacionais. Segundo ele, a prioridade sempre foi colocar o próprio blues no centro da programação. “A atração principal é o blues”, afirmou.
O produtor reconheceu que, futuramente, o evento poderá receber uma atração nacional de grande porte, caso existam condições e suporte para isso. No entanto, ressaltou que, neste momento, o festival prefere trabalhar com os artistas disponíveis na Bahia. Segundo ele, o crescimento do evento vem sendo percebido pela presença de pessoas que deixam suas cidades e passam dois ou três dias em Cachoeira para acompanhar a programação.
Mesmo sem grandes atrações nacionais, o festival vem conquistando público e repercussão espontânea. Marcos relatou que sites da Bahia e de outros estados têm procurado informações sobre o evento para divulgar a programação. Segundo ele, essa divulgação ocorre de forma orgânica, sem pagamento para publicação.
A realização do Festival Cachoeira Agosto do Blues também depende de parcerias e apoios. Marcos Moura afirmou que tem dialogado com a Prefeitura de Cachoeira, considerada a principal parceira e apoiadora do evento.
Ele agradeceu à prefeita Eliana Gonzaga e à secretária de Cultura e Turismo, Cristina Soares, pelo diálogo e pelo apoio ao festival. Durante conversa recente com a prefeita, o produtor apresentou a importância de preparar a próxima edição, que marcará os 10 anos ininterruptos do festival.
Para Marcos, alcançar uma década de realização é significativo, especialmente por se tratar de um evento independente. “Dez anos, uma década, são dez anos ininterruptos de festival independente”, destacou.
Ele defendeu que a iniciativa receba cada vez mais apoio porque, segundo sua avaliação, os benefícios são direcionados à própria cidade, especialmente nas áreas de cultura e turismo.
Cachoeira como protagonista
Ao longo da entrevista, Marcos Moura reforçou que a proposta do festival vai além da realização de shows. Para ele, o evento funciona como uma ferramenta de divulgação do patrimônio, da cultura e das belezas naturais de Cachoeira. “Cachoeira, História e Blues” é o conceito que orienta a iniciativa.
O produtor afirmou que muitos eventos utilizam o nome e a força de Cachoeira, mas que o Agosto do Blues procura apresentar diretamente as riquezas da cidade ao público. “O Blues é Cachoeira, História e Blues, apresentando a cidade”, afirmou.
Para ele, o cenário natural e histórico não é apenas um pano de fundo para as apresentações, mas parte fundamental da experiência proporcionada ao público. Filho de Cachoeira, Marcos também ressaltou a relação pessoal com a cidade e o desejo de contribuir para sua valorização cultural. “Eu sou filho de Cachoeira. Eu faço e volto para casa e minha casa é Cachoeira. Eu amanheço e durmo em Cachoeira”, declarou.
Nove anos de história
A 9ª edição do Cachoeira Agosto do Blues representa nove anos consecutivos de realização do festival. Marcos Moura lembrou que, apesar das dificuldades envolvidas na produção de um evento independente, a satisfação de contribuir para a cultura local funciona como motivação para continuar. “Quando a gente faz com o coração, a coisa flui. Por mais difícil que seja”, afirmou.
Ele destacou que o festival pretende continuar crescendo e fortalecendo a ligação entre o blues e a história de Cachoeira.
A programação acontece de 21 a 23 de agosto, com entrada gratuita, reunindo artistas baianos, novos talentos, atividades educativas, encontros entre diferentes gêneros musicais e o tradicional Blues no Paraguaçu.
A expectativa da organização é que o festival continue ganhando espaço e chegue, em 2027, à sua décima edição, consolidando uma década de música, cultura, história e valorização do patrimônio de Cachoeira.
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