O avanço das apostas esportivas no Brasil já começa a produzir reflexos diretos na rede pública de saúde. Na Bahia, ao menos 41 atendimentos relacionados ao vício em jogos foram registrados entre 2022 e 2025 em serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab).
Os casos foram identificados em 21 unidades da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e classificados como transtornos relacionados ao jogo, dentro da categoria de controle de impulsos (CID F63). Embora o número ainda seja considerado baixo, a própria secretaria alerta para um cenário de subnotificação e crescimento progressivo da demanda.
Em nota técnica enviada à Tribuna da Bahia, a Sesab reconhece o chamado “jogo problemático” como uma questão de saúde mental, alinhada à classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento destaca que o comportamento pode gerar impactos amplos, atingindo não apenas o indivíduo, mas também suas relações familiares, vida financeira e desempenho profissional.
De acordo com o psicólogo Fabrício Gomes, o ponto de virada entre o uso recreativo e o transtorno está na perda de controle sobre o comportamento.
“Deixa de ser lazer quando a pessoa passa a apostar de forma repetitiva, mesmo diante de prejuízos claros, e quando isso começa a ocupar um espaço central na vida dela”, explica.
Segundo o especialista, o vício em apostas compartilha mecanismos semelhantes aos de outras dependências comportamentais. Um dos principais fatores é a ativação do sistema de recompensa do cérebro, estimulada por ganhos imprevisíveis.
“Essa lógica intermitente de ganhar às vezes e perder outras m, é uma das mais potentes para manter o comportamento. A pessoa passa a acreditar que está perto de recuperar o que perdeu, o que leva ao ciclo conhecido como ‘perseguição das perdas’”, detalha.
Além disso, entram em jogo distorções cognitivas, como a ilusão de controle e a crença de que estratégias ou insistência podem alterar resultados que são, na prática, aleatórios.
Impactos vão além do financeiro
Embora frequentemente associado a prejuízos econômicos, o vício em apostas tem efeitos mais amplos sobre a saúde mental. Entre os principais sintomas relatados estão ansiedade constante, irritabilidade, sentimento de culpa e vergonha, episódios depressivos e isolamento social.
Em casos mais graves, o comportamento pode levar ao rompimento de vínculos familiares, endividamento severo e comprometimento da rotina de trabalho.
“O sofrimento psíquico costuma aparecer quando a pessoa percebe que perdeu o controle, mas não consegue parar. Isso gera um ciclo de angústia e repetição”, afirma o psicólogo Fabrício Gomes.
Os atendimentos registrados na Bahia ocorrem dentro da estrutura da RAPS, que inclui Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS), serviços de urgência e outros dispositivos do SUS.
Apesar de ainda não haver uma rede específica voltada exclusivamente para o tratamento do vício em apostas, os casos são absorvidos pelos serviços de saúde mental já existentes.
Para a Sesab, o cenário exige um olhar ampliado. A secretaria aponta que o problema deve ser tratado não apenas no âmbito individual, mas como tema de saúde pública, demandando ações de prevenção, informação e organização da rede de cuidado.
Sinais de alerta e quando buscar ajuda
Especialistas apontam alguns sinais que podem indicar o desenvolvimento de um comportamento problemático que envolve dificuldade em parar ou reduzir as apostas, uso de dinheiro destinado a despesas essenciais, necessidade de apostar valores cada vez maiores, tentativas frustradas de controle, mentiras para familiares sobre o hábito e irritação ou ansiedade ao tentar parar
Diante desses indícios, a recomendação é buscar ajuda profissional. O tratamento pode envolver psicoterapia, especialmente abordagens como a terapia cognitivo-comportamental, além de estratégias práticas como bloqueio de aplicativos, controle financeiro e participação da família no processo. Em alguns casos, também pode ser necessário acompanhamento psiquiátrico.
“É fundamental entender que não se trata de falta de força de vontade. É um transtorno que precisa de cuidado especializado”, reforça o psicólogo Fabrício.
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