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Bahia 14 de Junho

Santo Amaro reivindica protagonismo no processo da Independência da Bahia; professora defende reparação histórica com base em documentos

Professora de História e estudante de Direito afirma que documentos da época demonstram que o movimento pela expulsão dos portugueses teve início em Santo Amaro, antes dos acontecimentos de Cachoeira, e propõe mobilização regional para revisão da narrativa histórica.

01/07/2026 09h01
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

14 de Junho - Foto: Prefeitura de Santo Amaro da Purificação

A proximidade das celebrações do 2 de Julho, data que marca a consolidação da Independência da Bahia e a expulsão definitiva das tropas portuguesas do território baiano em 1823, reacendeu um debate histórico que ganhou força nas redes sociais e agora alcança também o rádio e outros meios de comunicação do Recôncavo Baiano.

O centro da discussão é o papel desempenhado por Santo Amaro da Purificação no processo de independência. A professora de História, estudante de Direito e cantora Ilmara Cecília defende que o município teve papel decisivo no início da mobilização contra a Coroa Portuguesa e que esse protagonismo foi sendo apagado ao longo do tempo por decisões políticas e pela forma como a história passou a ser contada.

Em entrevista ao programa Rádio Total, transmitido pelas rádios Santo Amaro FM e Paraguassu FM, Ilmara afirmou que sua intenção não é diminuir a importância de Cachoeira nem criar rivalidade entre os municípios do Recôncavo, mas promover aquilo que chama de “reparação histórica”.

Segundo ela, a discussão começou de forma espontânea, após publicar um vídeo em suas redes sociais durante as comemorações do 14 de Junho, data considerada histórica para Santo Amaro. “Eu fiz um vídeo muito simples falando sobre o 14 de Junho e, para minha surpresa, a maioria das pessoas comentava dizendo que não sabia daquela história. Foi aí que percebi o quanto a nossa própria população desconhece a importância de Santo Amaro no processo da Independência”, relatou.

Para a professora, esse desconhecimento está diretamente relacionado à ausência da história do município no currículo das escolas. “É inadmissível que Santo Amaro não tenha um projeto político-pedagógico que torne obrigatório o ensino da história local. Durante quase dez anos em sala de aula sempre ensinei aos meus alunos sobre o 14 de Junho, sobre o Bembé do Mercado e sobre a importância histórica da cidade. O povo só luta por aquilo que conhece". 

“Tudo começa antes do 25 de junho”

Ilmara afirma que o principal equívoco na narrativa atualmente difundida é apresentar o dia 25 de junho de 1822, em Cachoeira, como o início da luta pela Independência na Bahia. Segundo ela, documentos históricos demonstram que, onze dias antes, em 14 de junho, Santo Amaro já havia rompido politicamente com Portugal. “É uma conta muito simples. Quatorze vem antes de vinte e cinco. Então existe alguma coisa nessa história que não foi devidamente contada". 

Ela explica que existe uma Ata de Vereança datada de 14 de junho de 1822, considerada por ela um documento fundamental para compreender o início da mobilização. Segundo Ilmara, essa ata demonstra que Santo Amaro declarou apoio a Dom Pedro antes mesmo dos acontecimentos registrados em Cachoeira.

Pesquisas ampliaram a discussão

A professora conta que, inicialmente, pretendia apenas lembrar a importância do 14 de Junho. Entretanto, após a repercussão dos vídeos publicados na internet, passou a receber documentos e estudos de pesquisadores especializados no tema. Entre eles está a professora Patrícia, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que, segundo Ilmara, disponibilizou documentos históricos e referências existentes na Biblioteca Nacional.

Ela afirma que o acesso a esse material revelou informações que sequer imaginava encontrar. “Eu comecei apenas querendo mostrar que não foi em Cachoeira que tudo começou. Hoje estou descobrindo documentos muito mais profundos, que mostram o papel fundamental desempenhado por Santo Amaro durante todo esse processo". 

Segundo Ilmara, há registros indicando que Santo Amaro pressionou politicamente outras localidades do Recôncavo a aderirem ao movimento contra as tropas portuguesas.

Apoio militar às batalhas

Outro ponto destacado pela professora diz respeito aos confrontos ocorridos em Cachoeira. Segundo ela, existe uma interpretação equivocada de que a batalha foi travada exclusivamente pelos moradores daquele município.

Ela afirma que documentos demonstram a participação decisiva de combatentes vindos de Santo Amaro, São Francisco do Conde, que na época integrava a Freguesia de Santo Amaro, e também de São Félix. “Quando começou o confronto no dia 25 de junho, Santo Amaro já havia tomado posição. Os documentos mostram que tropas saíram daqui para ajudar. Se Santo Amaro e São Francisco do Conde não tivessem participado, Cachoeira dificilmente conseguiria resistir sozinha". 

Ilmara Cecília - Foto: Arquivo Pessoal

Ilmara ressalta que reconhecer essa participação não significa diminuir a importância de Cachoeira. “Não estou dizendo que Cachoeira não teve protagonismo. Estou dizendo que ela não lutou sozinha e que o início da mobilização aconteceu antes.”

Distinção entre pioneirismo e protagonismo

Ao longo da entrevista, a professora insistiu na necessidade de diferenciar os conceitos de pioneirismo e protagonismo. Segundo ela, Santo Amaro reivindica o reconhecimento por ter iniciado o movimento político que levou à Independência na Bahia, enquanto outras cidades também exerceram papéis fundamentais durante o conflito. “Não quero trazer tudo para Santo Amaro. Isso seria tão errado quanto apagar a nossa participação. Quero reunir todos os municípios do Recôncavo para construir uma narrativa verdadeira e coletiva", ressalta. 

Ela defende a criação de uma comissão envolvendo pesquisadores, representantes dos municípios e instituições culturais para discutir oficialmente o assunto.

Consequências políticas e econômicas

Na avaliação de Ilmara, o reconhecimento histórico ultrapassa o aspecto simbólico. Ela afirma que as cidades reconhecidas como protagonistas acabam recebendo mais investimentos públicos, políticas de preservação do patrimônio histórico e incentivo ao turismo.

Como exemplo, citou a lei estadual que tornou Cachoeira capital simbólica da Bahia em 25 de junho, medida que, segundo ela, ampliou ainda mais a visibilidade do município. “Quando o Governo volta os olhos para uma cidade, chegam investimentos, preservação do patrimônio, turismo e desenvolvimento. Santo Amaro perdeu muito ao longo desses anos", afirma. 

Ela também lembrou que Cachoeira possui um conjunto arquitetônico amplamente tombado e concentra importantes equipamentos culturais, enquanto Santo Amaro ainda busca maior valorização de seu patrimônio histórico.

Movimento suprapartidário

Apesar das críticas às decisões políticas tomadas ao longo dos anos, Ilmara fez questão de afirmar que sua mobilização não possui ligação com grupos políticos. “Não tenho envolvimento político-partidário com ninguém. Isso é política no sentido da cidadania, da representação e da defesa da história. Precisaremos do apoio dos representantes políticos, mas essa não é uma luta partidária". 

Segundo ela, as redes sociais permitiram ampliar o debate e criar uma mobilização popular capaz de pressionar autoridades e instituições. “Quando o povo conhece sua história, ele passa a exigir reconhecimento". 

14 de Junho - Foto: Prefeitura de Santo Amaro da Purificação

Apoio de pesquisadores

Durante a entrevista, Ilmara revelou ainda que entrou em contato com o professor e historiador Márcio Dória, referência nos estudos sobre Santo Amaro. Ela destacou que a tese de doutorado defendida por ele em 2024 analisa justamente a construção da identidade do município a partir da Ata de Vereança de 14 de junho de 1822. Segundo a professora, esse trabalho reforça a necessidade de preservar a memória histórica da cidade. “Sem memória não existe identidade. Um povo que não conhece sua história não conhece a si mesmo", diz. 

Ao final da entrevista, Ilmara fez um apelo para que os municípios do Recôncavo Baiano deixem de lado disputas locais e unam forças em defesa da história da região.

Ela afirmou que pretende reunir representantes de Santo Amaro, Cachoeira, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara e outras cidades para ampliar o debate e buscar o reconhecimento do papel desempenhado por cada uma delas durante o processo de Independência. “Não é uma disputa entre cidades. O Recôncavo inteiro foi fundamental para a Independência da Bahia. O que buscamos é que a história seja contada com fidelidade aos documentos", explica.

Segundo a professora, os documentos utilizados em suas pesquisas são públicos e estão disponíveis na Biblioteca Nacional, além de estudos produzidos por pesquisadores da UFRB.

Ela afirma que continuará divulgando essas informações por meio das redes sociais, na expectativa de que o debate avance também no meio acadêmico, nas instituições públicas e entre os representantes políticos. “O que estamos defendendo é uma reparação histórica. A história não pode ser moldada conforme interesses políticos. Ela precisa ser preservada e contada como realmente aconteceu", finalizou. 

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