
Foto: Lucas Martins (@lucasport01)
A relação entre religião, política e liberdade de crença no Brasil é complexa e envolve conceitos centrais. A liberdade de crença é um princípio fundamental da ordem democrática, já que a imposição ou exclusão de determinados credos nega à convivência social um dos pilares mais elementares. Ao mesmo tempo, no cotidiano, a maioria das pessoas que crê em alguma divindade usa a Bíblia como fonte de inspiração em diversos momentos da vida, incluindo a escolha de seus representantes e a análise das ações de seus governantes. Essa utilização da Bíblia não pode ser vista de forma unilateral. Até que ponto a vida pública e social de cada pessoa se separa de suas crenças pessoais?
Essas questões se tornaram ainda mais evidentes com o fenômeno bolsonarista: o apoio ao presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 e 2022 seguiu, entre muitos dos seus eleitores, critérios mais relacionados à religião evangélica, que passou a tolerar torturas e a execução de pessoas, do que a outros aspectos políticos - Protestantes contemporâneos!
O bolsonarismo não se confunde com o cristianismo, assim como a crença no Deus da Bíblia não define automaticamente a filiação ao bolsonarismo; no entanto, a aproximação de valores religiosos com um sistema político particular merece atenção. O desafio é reconhecer as diferenças, respeitar a pluralidade de credos e não misturar convicções religiosas e escolhas políticas.
Nos termos da política não existe cidadão que não possua convicções, no entanto, o exercício da cidadania e da política requer do cidadão, não a defesa de suas convicções enquanto cidadão, mas a defesa do espaço comum sem as convicções que o definem como membro de um grupo restrito.
A religião é um dos temas mais debatidos no Brasil. Um dos pontos responsáveis por essa intensa discussão é a presença crescente de lideranças religiosas, especialmente nas esferas política e midiática. Nesse contexto, o respeito pelo pluralismo religioso e político é desafiado e as diferenças são utilizadas como instrumentos de ataque.
É importante diferenciar a crença religiosa pessoal de como essa crença se transforma em ação pública. As normas do cristianismo, por exemplo, orientam a vida em sociedade e estão repletas de recomendações sobre como viver em harmonia com o próximo. Nesse sentido, elas ajudam a construir a ética pública e a prática política.
No entanto, essa ética pública elaborada pela religião não pode se tornar, em uma sociedade democrática, uma norma de ação para todos. No caso específico do cristianismo, uma sua possível apropriação para o discurso do Estado e a ação política é um tema comum de debate. Afinal, como o mesmo Deus e a mesma Bíblia podem ser usados de forma antiética e em favor da guerra? – Novos Protestantes, seguidores do bolsomarismo.
Por outro lado, as eleições de 2022 trouxeram à tona uma expressão que alguns batizam de bolsonarismo. Muitas das pessoas que se identificam com essa expressão são ou se consideram cristãs. E a sua posição em relação a Jesus, a Deus e à Bíblia é um dos critérios que usam para se posicionar no debate social e político – e não só. Dizer que alguém é bolsonarista é afirmar que essa pessoa crê em coisas que contrariam a fé e os valores morais dos cristãos.
Mas o que é ser bolsonarista? O que é o bolsonarismo? O que é ser cristão? É melhor dizer que se é cristão ou bolsonarista ou que se tem fé em Jesus e que o bolsonarismo é uma coisa ruim? A resposta é simples: um cristão não deve ser bolsonarista. Ser bolsonarista e se afirmar cristão são duas coisas antagônicas. Um verdadeiro cristão não pode e não deve ser bolsonarista. No entanto, não são todos os cristãos que fazem essa afirmação. A relação entre a fé cristã e o bolsonarismo é muito mais complexa do que um simples: "ser bolsonarista é não ser cristão".
Por Alberto Peixoto
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