
A remissão do diabetes é possível por meio da nutrição. Essa é a principal defesa da nutricionista Ane Cristine, que há 16 anos atua com pacientes portadores da doença. Em entrevista ao programa Boca de Forno, da Rádio Sociedade News, e ao Portal Boca de Forno News, ela explicou que o tratamento desenvolvido em sua prática clínica busca identificar o estado nutricional do paciente, corrigir desequilíbrios e estabelecer uma estratégia personalizada para alcançar o que chama de "saúde plena".
Segundo a especialista, o primeiro passo é fazer com que o paciente tome consciência da sua condição atual para, a partir daí, corrigir as deficiências nutricionais e promover mudanças na alimentação. "Eu faço isso já há dezesseis anos nos nossos pacientes, identificando o estado atual, tomando consciência de onde realmente ele está nutricionalmente. Corrigimos esses desequilíbrios nutricionais e prescrevemos uma estratégia assertiva, uma jornada assertiva para que ele chegue a um destino que a gente chama de saúde plena, com exames bioquímicos dentro da normalidade. Isso é possível fazer através da nutrição", afirmou.
Ane Cristine explicou que a remissão acontece quando os exames voltam aos níveis considerados normais, especialmente a hemoglobina glicada, principal parâmetro utilizado para o diagnóstico e acompanhamento da doença. "A hemoglobina glicada é o principal exame. Quando ela está acima de 5,6 já está fora da normalidade e o nosso objetivo é trazer esse paciente para a normalidade, para que ele não precise mais usar o medicamento prescrito pelo médico", destacou.
Durante a entrevista, a nutricionista reforçou que a alimentação exerce papel fundamental no controle da glicemia. Segundo ela, pacientes com glicose elevada geralmente apresentam desequilíbrios nutricionais e dois nutrientes são considerados essenciais nesse processo: proteínas e fibras.
"O paciente que tem a glicemia alta é, principalmente, um paciente que apresenta desequilíbrios nutricionais. Nós trabalhamos principalmente com proteína e fibra, que são nutrientes cruciais para corrigir esses exames e trazer o paciente de volta à normalidade", explicou.
Ácido úrico e gota
Outro tema abordado foi o tratamento nutricional para pessoas com ácido úrico elevado e gota. Ane Cristine afirmou que essas condições também podem ser revertidas quando a causa está relacionada às deficiências nutricionais.
Ela explicou que o ácido úrico é um metabólito da purina, substância naturalmente presente no RNA e no DNA das células. Quando não ocorre sua adequada eliminação, ele se acumula no organismo e, de forma crônica, pode provocar a gota, caracterizada por dores e inchaços nas articulações.
Segundo a nutricionista, ao contrário do que muitos pacientes costumam ouvir, a solução nem sempre está em retirar a carne da alimentação. "É muito comum quando o paciente tem ácido úrico alto ouvir que não pode comer carne. Mas a maioria dos nossos pacientes apresenta ácido úrico elevado exatamente por conta dos desequilíbrios nutricionais", afirmou.
Ela ressaltou que o ácido úrico alto funciona como um marcador inflamatório, indicando que existe um processo de inflamação no organismo e que, para combatê-lo, é preciso promover a desinflamação.
Anti-inflamatórios naturais
Durante a entrevista, Ane Cristine apresentou aquilo que considera os quatro principais anti-inflamatórios naturais, que fazem parte da estratégia utilizada em seus atendimentos.
O primeiro é a alimentação na dose correta, destacando que, em muitos casos, é necessário até aumentar a ingestão de proteínas. O segundo é o exercício físico, apontado por ela como um importante agente anti-inflamatório natural. O terceiro é o sono de qualidade e o descanso adequado.
O quarto pilar, segundo a nutricionista, é a chamada "comunicação de amor", baseada em demonstrações de afeto por meio de palavras e ações. Ela explicou que abraços, beijos e demonstrações de carinho estimulam a liberação da ocitocina, conhecida como hormônio do amor.
"A ocitocina é um hormônio anti-inflamatório natural. Ela diminui a pressão arterial e reduz o processo inflamatório porque ajuda a diminuir o cortisol, hormônio relacionado ao estresse e à inflamação", explicou.
Para a especialista, tratar um paciente vai além da alimentação. "Quando a gente fala em tratar um paciente, precisamos falar desses quatro anti-inflamatórios naturais dosados da forma certa para que ele consiga reverter exames bioquímicos alterados", ressaltou.
Mounjaro
Questionada sobre o uso do Mounjaro, medicamento utilizado para emagrecimento e tratamento do diabetes, Ane Cristine afirmou que essa não é a linha de tratamento adotada por ela.
Segundo explicou, o medicamento é um análogo do hormônio responsável pela saciedade produzido no intestino. Apesar disso, ela considera que ele não resolve a origem do problema. "O Mounjaro não ensina a comer. Ele gera uma perda de peso rápida, mas não seleciona se o paciente está perdendo gordura ou massa muscular. Também não corrige deficiências nutricionais. Toda vez que houver uma deficiência nutricional haverá doença", afirmou.
A nutricionista disse que atende frequentemente pacientes que fazem uso do medicamento, além de pessoas que passaram por cirurgia bariátrica. Na avaliação dela, essas estratégias têm em comum a redução importante da ingestão calórica. "Diminuir calorias para perder peso gera consequências. Uma delas é a diminuição do metabolismo. Reduzir o metabolismo diminui a longevidade. O paciente inflama, envelhece mais rápido e perde massa muscular", declarou.
Segundo Ane Cristine, sua proposta de tratamento é justamente o oposto. "A minha linha de tratamento é ativar o metabolismo do paciente. É fazer com que ele rejuvenesça, fique saudável de dentro para fora e tratar a raiz do problema."
Ao falar sobre os riscos do uso prolongado do Mounjaro, a nutricionista afirmou que a redução da ingestão alimentar pode provocar diversas deficiências nutricionais ao longo do tempo.
Ela utilizou como exemplo o cálcio, lembrando que a recomendação para pessoas com menos de 50 anos é de aproximadamente mil miligramas por dia. Segundo ela, a deficiência desse nutriente pode favorecer o desenvolvimento de osteopenia e osteoporose.
A especialista também destacou a importância da proteína para a manutenção do organismo. "Todos os nossos órgãos são formados por músculos lisos. O músculo depende de proteínas para sua formação e renovação. Quando há deficiência de proteína, o paciente pode desenvolver intolerância à lactose, disbiose, câncer de intestino e redução do metabolismo", afirmou.
Ainda de acordo com Ane Cristine, entre os possíveis efeitos decorrentes dessas deficiências nutricionais estão queda de cabelo, flacidez, perda de massa muscular, envelhecimento precoce e maior dificuldade para manter o peso corporal. "Perder massa muscular é muito grave. O paciente acaba ficando escravo de comer pouco e, ao longo do tempo, desenvolve diversas deficiências nutricionais que comprometem sua saúde", concluiu.
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