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Bahia Saúde

Gestão da regulação é principal entrave da saúde na Bahia, afirma Heraldo Rocha

Na avaliação de Heraldo, um dos principais equívocos foi concentrar praticamente toda a gestão da regulação na capital, retirando a autonomia de polos regionais capazes de resolver boa parte das demandas.

30/06/2026 08h09 Atualizada há 58 minutos atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Tribuna da Bahia
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Mesmo após sucessivos investimentos na ampliação da rede hospitalar da Bahia, a fila da regulação continua sendo um dos principais gargalos da saúde pública no estado. Para o médico e ex-deputado estadual Heraldo Rocha, o problema não está na Central Estadual de Regulação em si, mas na forma como o sistema vem sendo administrado. Em entrevista à Tribuna, ele afirmou que a falta de planejamento, a centralização das decisões em Salvador e a demora na liberação dos leitos hospitalares mantêm milhares de pacientes à espera de atendimento especializado.

"O problema não é da Central de Regulação. A regulação é uma solução. Quem cria o problema é a gestão da Central Estadual de Regulação", afirmou.

Na avaliação de Heraldo, um dos principais equívocos foi concentrar praticamente toda a gestão da regulação na capital, retirando a autonomia de polos regionais capazes de resolver boa parte das demandas sem necessidade de deslocamento para Salvador. "Eles acumularam tudo na capital e acabaram com as centrais regionais. Municípios como Valença, Itapetinga, Vitória da Conquista e Itabuna deveriam ter centrais regionais de regulação", disse.

Para o médico, a descentralização reduziria o tempo de espera por vagas, evitaria a sobrecarga sobre Salvador e permitiria uma distribuição mais eficiente dos pacientes dentro da própria rede estadual.

Tempo - Outro fator apontado por Heraldo Rocha como responsável pelo aumento da fila da regulação é o elevado tempo de permanência dos pacientes internados. Conforme explicou, procedimentos considerados relativamente simples acabam sendo realizados apenas vários dias após a internação, fazendo com que os leitos permaneçam ocupados por muito mais tempo do que o necessário. "Você pode construir um hospital todo dia que não vai ter leito, porque ele vai estar ocupado", afirmou.

Para ilustrar o problema, o médico citou o caso de pacientes com cálculo renal atendidos no Hospital Geral Roberto Santos. "Tenho pacientes que chegam com cólica renal e permanecem dez dias internados aguardando uma cirurgia. Enquanto isso, continuam ocupando um leito que poderia estar recebendo outro paciente da regulação", disse.

Essa demora, conforme Heraldo, cria um efeito cascata em toda a rede hospitalar, impedindo novas internações e aumentando continuamente a fila de espera. Ele ressalta que os pacientes mais prejudicados por essa situação são aqueles que dependem de atendimento rápido para evitar sequelas ou agravamento do quadro clínico.

"Os pacientes oncológicos, cardiovasculares e ortopédicos são os que mais sofrem. Um paciente com fratura exposta chega a passar quinze dias aguardando transferência em um hospital do interior. Assim não há sistema que consiga zerar a fila da regulação", declarou.

Na avaliação do ex-deputado, o problema não será resolvido apenas com a abertura de novos hospitais ou ampliação do número de leitos. "Você pode aumentar a estrutura física, mas se o paciente permanece internado além do tempo necessário, o leito não gira. O problema continua", acrescentou.

Interior enfrenta falta de estrutura, afirma Rocha

Além das dificuldades na regulação, Heraldo Rocha afirma que a falta de estrutura hospitalar em diversas regiões da Bahia acaba agravando ainda mais a situação.

De acordo com o ex-deputado, hospitais do interior não possuem condições de atender procedimentos considerados básicos em outras regiões do país, obrigando pacientes a aguardarem transferência para unidades maiores.

Como exemplo, o médico citou a situação do Médio Sudoeste baiano. "No Médio Sudoeste, municípios como Potiraguá, Macarani, Maiquinique e Iguaí dependem praticamente do Hospital Cristo Redentor, em Itapetinga. Até uma cesariana acaba concentrada lá", afirmou.

Heraldo também chamou atenção para a situação da Costa do Dendê. Conforme relatou, uma região formada por municípios como Valença, Taperoá, Nilo Peçanha, Ituberá, Igrapiúna, Cairu, Camamu e Jaguaripe, com cerca de 385 mil habitantes, enfrenta sérias dificuldades para atendimento obstétrico de alta complexidade.

"Não existe UTI neonatal para atender uma gravidez de risco nessa região. Essas pacientes acabam precisando ser transferidas para Salvador. Muitas vezes o quadro piora antes mesmo de conseguirem uma vaga", disse.

O médico observa que o mesmo ocorre com pacientes infartados. "Um paciente que precisa fazer um cateterismo muitas vezes chega a Salvador com o quadro muito mais grave. Em alguns casos, nem chega com vida", declarou.

Para Heraldo, fortalecer hospitais regionais seria mais eficiente do que concentrar toda a assistência na capital. "Por que não instrumentalizar hospitais como a Santa Casa de Valença ou o Cristo Redentor, em Itapetinga? Muitas cirurgias poderiam ser feitas nessas unidades sem necessidade de trazer todo mundo para Salvador", questionou.

Solução passa por gestão, integração da rede e tecnologia

Para Heraldo Rocha, a redução da fila da regulação depende muito mais de gestão do que de grandes investimentos financeiros.

Entre as medidas defendidas pelo médico está a reinstituição de um sistema regionalizado de regulação, integrado entre municípios, Estado e União. "A primeira medida é integrar toda a rede municipal, estadual e federal. Depois descentralizar novamente a Central Estadual de Regulação", afirmou.

Rocha também defende maior utilização de tecnologia para acompanhar, em tempo real, a ocupação dos hospitais. "Hoje você sabe o que está acontecendo do outro lado do mundo e não sabe o que está acontecendo em Macarani. É preciso informatizar toda a rede, implantar prontuário eletrônico e controlar digitalmente todos os leitos disponíveis", disse.

Outra medida considerada essencial é o fortalecimento da atenção básica. Na avaliação do médico, campanhas permanentes de prevenção poderiam reduzir significativamente a pressão sobre hospitais e unidades de emergência. "Você não vê campanhas de controle da hipertensão, de prevenção da diabetes ou de incentivo ao aleitamento materno. Tudo isso reduz internações e evita que esses pacientes cheguem aos hospitais em estado grave", afirmou.

Heraldo também criticou a precarização das relações de trabalho na saúde pública. "É preciso investir em qualificação. O trabalhador da saúde vai do porteiro ao diretor. Médicos jovens recebem mal, muitos trabalham como pessoa jurídica e faltam concursos públicos. A palavra de ordem é administração", concluiu.

Posicionamento - A Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), em manifestações anteriores, informou que vem ampliando a rede estadual de assistência, com abertura de novos leitos, construção de hospitais, fortalecimento da regionalização da saúde e investimentos para aprimorar os fluxos da Central Estadual de Regulação.

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