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Mercado vê chance de Copom iniciar corte de juros com intensidade menor diante de alta do petróleo

Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual no primeiro movimento de queda de juros.

16/03/2026 08h36
Por: Karoliny Dias Fonte: Folhapress
Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

A volatilidade dos preços do petróleo com a guerra no Irã abalou a convicção do mercado financeiro e moderou a expectativa sobre o início do ciclo de redução de juros na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). Para a decisão desta quarta-feira (18), cresceu a aposta de redução de 0,25 ponto percentual da taxa básica, a Selic. 

Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual no primeiro movimento de queda de juros. 

Muitas casas até mantiveram essa projeção oficial, mas já admitem que o colegiado do Banco Central pode tomar uma decisão mais conservadora. Há quem acredite que o Copom nem sequer reduza a Selic do atual patamar de 15% ao ano --o maior em quase 20 anos. 

No dia 9, na maior variação diária desde 1988, o petróleo chegou a disparar quase 30% e ficar próximo de US$ 120 pelo barril. Os preços recuaram depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarar que a guerra estava praticamente encerrada. No entanto, na quinta (12) e na sexta (13), nova onda de ataques levou os preços a superarem novamente a casa de US$ 100 para o barril Brent. 

A volatilidade dos preços permanece. 

Fabio Kanczuk, diretor de macroeconomia do ASA e ex-diretor do Banco Central, vê indefinição na magnitude do primeiro corte de juros. "Se o Copom fosse ontem [quarta], eu ia falar que o corte é de 0,5 ponto. Se o Copom fosse hoje [quinta], eu ia falar 0,25 ponto. Amanhã [sexta] pode voltar a ser 0,5 ponto", diz. 

Ele ressalta que, apesar do período conturbado, o BC está acostumado a lidar com choques vindos dos preços do petróleo e a reagir de acordo com esse cenário já conhecido. Mas, qualquer que seja a velocidade escolhida para reduzir a Selic, Kanczuk espera uma pausa em setembro, às vésperas do período eleitoral, para ver "para onde o Brasil vai". 

O tamanho da queda de juros, na avaliação dele, vai depender da magnitude do primeiro passo. Antes da guerra, projetava que o Copom levaria a Selic a 12% ao ano. Mas, se a opção for por 0,25 ponto na largada, a taxa básica pode estacionar num nível mais alto. 

Sérgio Goldenstein, sócio e fundador da Eytse Estratégia e ex-chefe do departamento de Operações do Mercado Aberto do BC, segue apostando em um corte de 0,5 ponto percentual. Na visão dele, esse já é um ritmo cauteloso no cenário atual. 

"É incoerente ter um ritmo de 0,25 ponto para uma taxa Selic tão alta e tão acima da [taxa de juros] neutra", afirma. "Não se trata de pisar no acelerador, mas de tirar o pé do freio." 

Ainda assim, ele não descarta a alternativa de um corte menor na partida. "O que acho muito improvável é ele não fazer nada. Seria um erro grande o Banco Central não iniciar o processo de redução desse grau excessivo de restrição monetária", acrescenta. 

Na visão do economista, o BC precisa ter cuidado para não gerar uma relação mecânica entre a política monetária e o comportamento de curto prazo no preço do petróleo e deve se preocupar com os efeitos secundários desse choque de oferta sobre a inflação. 

Ele diz ainda que a banda de tolerância da meta de inflação serve justamente para acomodar esse tipo de choque de oferta. O alvo central perseguido pelo BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. Isso significa que o objetivo é considerado cumprido se oscilar entre 1,5% (piso) e 4,5% (teto). 

Devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia, o colegiado já trabalha com a inflação do terceiro trimestre de 2027 na mira. Nesse horizonte de tempo, o ex-membro do BC não vê mais necessidade de uma política de juros tão restritiva, como no início de 2025, diante da perspectiva de um crescimento econômico abaixo de 2%. 

Para Goldenstein, o tamanho do ciclo de queda da Selic vai depender da persistência e da intensidade do choque provocado pela guerra. Se ele não for tão duradouro, projeta que a taxa básica possa cair a 11,75% ao ano. Caso contrário, estima que o juro estacione a um nível próximo de 13% ao ano. 

Outro ponto de interrogação para a Selic à frente, segundo ele, é o cenário político do Brasil e o comportamento do câmbio conforme a percepção dos investidores no período eleitoral. 

Pesquisa Datafolha mostrou que a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) se consolidou no campo oposto ao do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo a pesquisa, o senador se aproxima do petista nas simulações de primeiro turno e empata tecnicamente na de segundo, marcando 43% ante 46% do chefe do Executivo. 

Rafaela Vitória, economista-chefe do banco Inter, também vê espaço para que o Copom inicie o ciclo de cortes da Selic com uma redução de 0,5 ponto percentual, considerando os efeitos da política de juros sobre a atividade econômica. 

Como exemplo, cita a desaceleração do crédito, que pesou no pedido de recuperação extrajudicial da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, e na alta da inadimplência das famílias, e que pode se acentuar com o menor apetite a risco dos bancos. 

Apesar do dado mais recente de inflação "não tão bom", Vitória viu o comportamento do indicador como dentro do esperado pela sazonalidade do período. O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,7% em fevereiro, com alta de educação e transporte. No acumulado de 12 meses, a inflação chegou a 3,81%. 

Quanto aos efeitos da guerra no Irã, considera que o IPCA possa ser afetado de maneira mais significativa se o conflito se estender por prazo prolongado. Na avaliação dela, o pacote de medidas lançado pelo governo Lula para conter os preços de combustíveis traz mais efeitos negativos do que positivos ao país. 

"Você traz de volta para o radar o risco fiscal, que pode impactar o câmbio. [...] Represar aumento de combustível não tira um impacto negativo nas expectativas de inflação. [...] É uma medida populista que pode sair mais caro do que o encomendado", afirma. 

Ela lembra que, desde a reunião anterior, em janeiro, houve apreciação do câmbio. As projeções indicam que na semana que vem a cotação do dólar que servirá de insumo para o Copom será de R$ 5,20, ante R$ 5,35 no último encontro. 

Mesmo com a expectativa de corte maior, a economista admite que o colegiado do BC possa optar por maior cautela. "É um cenário de bastante volatilidade nesse momento, e a gente não descarta o Copom ser até um pouco mais conservador e iniciar o ciclo com [corte de] 0,25 [ponto]. Mas acho pouco provável ele não cortar nada", diz. 

Assim como em janeiro, o Copom voltará a se reunir com quórum reduzido --sete dos nove membros. O governo ainda não indicou os substitutos dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), cujos respectivos mandatos terminaram em 31 de dezembro de 2025.

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