Os Estados Unidos realizam nesta terça-feira (3) as eleições legislativas de meio de mandato, conhecidas como midterms, que renovarão toda a Câmara dos Representantes, parte do Senado e definirão governos estaduais e outros cargos locais.
A votação ocorre na metade do segundo mandato de Donald Trump, em um momento de insatisfação com o custo de vida elevado com a alta da gasolina em meio à guerra do Irã- e de disputas sobre a imigração, a política externa e os rumos da democracia americana.
Mais do que escolher parlamentares, os eleitores decidirão se o Partido Republicano continuará controlando as duas Casas do Congresso ou se os democratas conquistarão espaço para impor limites à agenda do presidente.
O que são as midterms?
Realizadas a cada quatro anos, na metade do mandato presidencial, as midterms integram as eleições bienais para o Congresso, mesmo sem disputa pela Casa Branca.
Estão em jogo os 435 assentos da Câmara, com mandatos de dois anos, e 35 das 100 cadeiras do Senado, renovado em terços a cada dois anos.
Também serão eleitos governadores em 36 dos 50 estados, além de parlamentares estaduais e autoridades locais.
Por que as midterms são importantes?
As eleições determinam a composição do Congresso e, consequentemente, a capacidade do presidente de aprovar leis e implementar parte de sua agenda.
Trump iniciou o segundo mandato com maioria republicana nas duas Casas; perdê-la dificultaria projetos do governo, como os de impostos, imigração e gastos federais.
O Congresso fiscaliza o Executivo, convoca autoridades e conduz investigações; uma oposição majoritária ampliaria o escrutínio da Casa Branca.
Historicamente, as eleições de meio de mandato também funcionam como uma avaliação dos primeiros dois anos de governo do presidente.
Como está dividido o Congresso hoje?
Os republicanos chegam às eleições controlando as duas Casas, mas com uma vantagem estreita na Câmara dos Representantes.
No Senado, o partido de Trump tem 53 das 100 cadeiras, ante 47 da bancada democrata, incluindo dois independentes alinhados ao partido.
Na Câmara, a composição é ainda mais apertada. Há 218 republicanos, 214 democratas, um independente alinhado aos republicanos e duas vagas abertas.
Em uma Câmara completa, 218 votos garantem maioria. No Senado, são 51 cadeiras, mas o vice-presidente do país também preside a Casa e pode desempatar votações.
O que acontece se os democratas conquistarem a Câmara?
O controle democrata dividiria o poder em Washington e permitiria bloquear projetos republicanos, dificultar negociações orçamentárias e ampliar investigações.
A oposição também comandaria comissões, com poder para realizar audiências, solicitar documentos e convocar autoridades.
A Câmara pode aprovar acusações de impeachment, mas a destituição exige condenação por dois terços do Senado. O controle de apenas uma Casa, portanto, já seria suficiente para alterar a dinâmica de negociação entre o Congresso e a Casa Branca.
E se os democratas conquistarem o Senado?
Além de aprovar leis, o Senado confirma indicações presidenciais para altos cargos, embaixadas e tribunais federais, incluindo a Suprema Corte.
Uma maioria democrata poderia dificultar nomeações de Trump, controlar a agenda legislativa e ampliar a fiscalização do Executivo.
Muitas matérias exigem 60 votos para superar o "filibuster", que prolonga o debate e pode impedir votações. Assim, o controle das duas Casas não garante toda a agenda presidencial.
Como funciona a votação nos EUA?
Ao contrário do Brasil, os americanos podem votar de forma antecipada, pelo correio ou presencialmente, conforme as regras estaduais.
A votação antecipada de 2026 bateu recorde: segundo o Election Lab, da Universidade da Flórida, mais de 53 milhões haviam votado até domingo (1º), ante 45,9 milhões em 2022; cerca de 30 milhões presencialmente e 24 milhões pelo correio.
As urnas serão abertas nesta terça-feira (3) para os eleitores que ainda não votaram. A apuração pode levar dias, especialmente em disputas apertadas e locais com grande volume de votos pelo correio.
Qual é o cenário eleitoral de 2026?
A disputa acontece em meio à baixa aprovação de Trump e à insatisfação de parte do eleitorado com a economia. Os republicanos enfrentam o desafio de preservar suas maiorias no Congresso, enquanto os democratas procuram transformar a insatisfação com o governo em ganhos legislativos.
Pesquisa do Pew Research Center publicada em outubro apontou maior engajamento democrata e a economia como principal preocupação. Historicamente, o partido do presidente perde cadeiras nas midterms.
A campanha também foi marcada por sinais de que Trump pode não aceitar eventual derrota. Ao longo do ano, defendeu que os republicanos assumissem o controle da votação em pelo menos 15 localidades e afirmou que o partido deveria "nacionalizar" o processo eleitoral.
Em março, Trump assinou decreto para endurecer regras do voto pelo correio e criar listas federais de eleitores, medida contestada na Justiça. Seu governo também pressionou estados por registros eleitorais.
Na reta final, Trump anunciou recompensa de US$ 1 milhão por denúncias de fraudes que levem à prisão e condenação. Também condicionou o reconhecimento dos resultados à avaliação de votação honesta.
Organizações de direitos civis temem que agentes do ICE perto de locais de votação intimidem eleitores. O Departamento de Justiça informou que agentes do ICE e do FBI não serão monitores eleitorais.
Quais estados merecem atenção?
As disputas pelo Senado em Texas, Maine, Ohio, Iowa, Michigan, Alasca e Kansas estão entre as mais acirradas das eleições de 2026, segundo o Cook Political Report, instituto especializado em análise eleitoral americana.
O Texas é o centro das atenções nessas eleições. Se o candidato democrata James Talarico conseguir vencer a corrida contra o republicano Ken Paxton, conseguirá um feito histórico.
Reduto conservador, o Texas vota em republicanos nas presidenciais desde 1980. A vitória de Talarico encerraria o jejum de 38 anos sem senador democrata e ajudaria o partido a tentar retomar o Senado.
Na Carolina do Norte e na Geórgia, também acompanhadas pelos analistas eleitorais, os democratas apresentam vantagem nas avaliações do Cook Political Report.
O que mais importa para os eleitores?
A economia aparece no centro das preocupações. Segundo pesquisa do Pew Research Center realizada de 28 de setembro a 4 de outubro, 84% dos eleitores registrados consideram o tema muito importante para a decisão de voto.
Em seguida aparecem o futuro da democracia, citado por 73%, a saúde, com 68%, e a educação, com 62%.
A imigração, tema central do governo Trump, é muito importante para 59% dos entrevistados, com diferenças entre os partidos.
O tema é muito importante para 72% dos eleitores republicanos e para 53% dos democratas. Custo de vida, saúde e política externa também ganharam espaço.
O que está em jogo nas eleições estaduais?
Além do Congresso, os eleitores escolherão governadores em 36 estados e renovarão Legislativos estaduais, com impacto em educação, segurança, impostos, saúde e na organização eleitoral.
Ao contrário do Brasil, os EUA não possuem uma autoridade eleitoral nacional responsável por administrar todas as votações. As regras de registro, votação antecipada, apuração e certificação variam conforme o estado.
Quando os eleitos assumem os cargos?
Os novos congressistas assumem em janeiro de 2027. A eleição pode alterar a relação de Trump com o Legislativo e sua capacidade de implementar a agenda nos dois anos seguintes.
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