O Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro, é uma data marcada pela saudade, pelas lembranças e pelas homenagens às pessoas que já partiram. Para a Igreja Católica, porém, o momento vai além da recordação da morte: representa também um período de oração, memória agradecida e renovação da esperança na vida eterna. A data convida os fiéis a refletirem sobre a ressurreição, a misericórdia de Deus e a continuidade da comunhão entre aqueles que permanecem na vida terrena e os que já faleceram.
Em entrevista ao Portal Boca de Forno News, o arcebispo da Arquidiocese de Feira de Santana, Dom Zanoni Demettino Castro, explicou o significado religioso da celebração e destacou que a fé cristã não elimina a dor da separação, mas oferece uma perspectiva de esperança para aqueles que enfrentam a perda de familiares e amigos. “Hoje, a Igreja nos convida a recordar com muito carinho, com saudade, mas, sobretudo, com esperança, todos aqueles que partiram desta vida. Recordamos nossos pais, nossas mães, nossos familiares, amigos e tantas pessoas que marcaram nossa caminhada. Compreendemos que a saudade é uma expressão do amor. Sentimos falta daqueles que amamos porque suas vidas continuam presentes em nossa memória e em nosso coração”, afirmou.
Segundo Dom Zanoni, a fé não significa deixar de sentir a ausência de quem morreu, mas encontrar na esperança da ressurreição uma maneira de compreender e enfrentar essa separação. “A fé não elimina toda a separação, mas ilumina essa dor com a esperança da ressurreição”, ressaltou.
Durante a entrevista, o arcebispo também explicou a origem da celebração dos fiéis falecidos, destacando que a tradição de rezar pelos mortos acompanha a história do cristianismo desde os seus primeiros séculos. De acordo com Dom Zanoni, os primeiros cristãos já realizavam orações e celebrações eucarísticas em memória daqueles que haviam falecido, confiando suas vidas à misericórdia de Deus. “A comemoração de todos os fiéis defuntos é uma tradição muito antiga da Igreja. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os fiéis rezavam por seus mortos. Faz parte dessa tradição celebrar a Eucaristia em sua memória e confiar a vida dos falecidos à misericórdia de Deus”, explicou.
O religioso lembrou ainda a contribuição de Santo Odilon, abade do mosteiro beneditino de Cluny, na França, para a consolidação da data. Segundo ele, foi por volta do ano 998 que o religioso estabeleceu o dia 2 de novembro como uma jornada especial de oração pelos falecidos em sua comunidade monástica. Com o passar do tempo, a celebração se difundiu por toda a Igreja Católica.
Dom Zanoni destacou que o Dia de Finados está diretamente relacionado à solenidade de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro, ou, em algumas localidades, no domingo próximo à data. Em Feira de Santana, conforme informou o arcebispo, a celebração de Todos os Santos será realizada na comunidade da Queimadinha, na Paróquia de Todos os Santos.
Ele explicou que as duas datas possuem significados próprios, mas estão ligadas pela compreensão católica da comunhão dos santos. “Primeiro, contemplamos a festa de Todos os Santos, todos aqueles que já estão na glória de Deus, plenamente na sua bondade. No Dia de Finados, rezamos por todos os fiéis falecidos e os confiamos à bondade e à misericórdia divina. São duas celebrações que expressam a mesma verdade: a comunhão dos santos”, afirmou.
Ao explicar a relação entre o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, Dom Zanoni ressaltou que a Igreja Católica compreende a existência de uma ligação espiritual entre os fiéis que estão na vida terrena, aqueles que já alcançaram a glória de Deus e os que ainda passam pelo processo de purificação. “Em Cristo, estamos unidos àqueles que já chegaram à casa do Pai e também àqueles que aguardam a plena purificação. Por isso, o Dia de Finados não é simplesmente um dia de tristeza ou da lembrança da morte. É, sobretudo, um dia de memória agradecida, de oração e de esperança”, declarou.
O arcebispo também abordou a crença católica no purgatório, explicando que essa compreensão está relacionada ao processo de purificação necessário para estar plenamente junto de Deus. “A Igreja Católica acredita no purgatório. É a compreensão de que, para estar junto de Deus, é preciso ter uma vida pura. Esse é o caminho de purificação pelo qual passam os falecidos”, explicou.
Para Dom Zanoni, a celebração das duas datas recorda que a morte não representa o rompimento definitivo da comunhão entre os cristãos. “São os que já estão nos altares, diante de Deus, e aqueles que estão se preparando, se purificando. Nesses dois dias, celebramos a comunhão dos santos, daqueles que estão a caminho e daqueles que já estão na glória de Deus”, acrescentou.
A visita aos cemitérios, o oferecimento de flores e as orações pelos falecidos também fazem parte das manifestações tradicionais do Dia de Finados. Sobre esses costumes, Dom Zanoni destacou que são expressões históricas, culturais e religiosas da ligação dos vivos com aqueles que os antecederam.
Segundo o arcebispo, visitar os túmulos é uma maneira de preservar a memória, recordar a trajetória das pessoas queridas e manifestar gratidão pelas experiências compartilhadas. “Essa tradição faz parte da nossa história e da nossa cultura. Desde os primeiros momentos, existe essa comunhão, essa ligação com aqueles que nos antecederam na morte e que acreditamos que já participam da glória de Deus. É fazer memória, uma memória agradecida da vida dessas pessoas, compreendendo que todos somos, em Cristo, um só corpo”, afirmou.
Dom Zanoni ressaltou que, durante o Dia de Finados, as celebrações acontecem nas igrejas e nos cemitérios de Feira de Santana, reunindo pessoas que procuram prestar homenagens aos familiares e amigos falecidos.
Ele reforçou que a data deve ser compreendida não apenas como um momento de tristeza, mas também como uma oportunidade de agradecer pelas vidas que fizeram parte da história de cada pessoa e renovar a confiança na promessa cristã da ressurreição. “Estaremos aqui em Feira de Santana, em todos os cemitérios e nas igrejas, celebrando essa memória de que Deus dá a última palavra. A morte não é o fim. Apesar da tristeza, encontramos sentido na comunhão com Deus”, declarou.
Ao falar sobre a vida eterna e os ensinamentos da Igreja Católica a respeito da ressurreição, o arcebispo explicou que a existência humana possui limites na dimensão terrena, mas encontra sua plenitude em Deus.
Para ele, compreender a vida a partir da fé também significa rever a maneira como as pessoas se relacionam com os bens materiais, a riqueza e o poder. “Nossa vida tem um limite. Nós nascemos, nos desenvolvemos e morremos, mas ela não tem um sentido em si mesma. Nossa vida é mortal, mas é imortal em Deus. Nós temos a plenitude da vida”, afirmou.
Nesse contexto, Dom Zanoni defendeu que a perspectiva da eternidade deve influenciar as escolhas e atitudes das pessoas durante a vida. “Precisamos viver de modo diferente, sem nos apegarmos às coisas, à riqueza, ao dinheiro e ao poder, mas buscando essa comunhão. Celebrar o Dia de Finados é celebrar a nossa plenitude, a salvação em Cristo Jesus”, destacou.
A mensagem, segundo ele, é de que a vida terrena não deve ser compreendida apenas a partir das conquistas materiais, mas pelo compromisso com Deus e com o próximo.
Questionado sobre como a fé pode fortalecer as pessoas que enfrentam a perda de alguém com quem conviviam diariamente, Dom Zanoni destacou que a compreensão cristã da existência ajuda a reconhecer as limitações da vida humana e a encontrar sentido mesmo diante da dor.
O arcebispo explicou que a fé está relacionada à consciência de pertencimento à Igreja e à comunhão com Cristo. Para ele, a vida cristã também precisa estar comprometida com a construção do Reino de Deus, que se manifesta por meio da justiça, da defesa da vida e da atenção às pessoas mais vulneráveis. “A compreensão da fé não é simplesmente um sentimento. É a resposta que damos a partir dessa pertença, dessa consciência do que é a vida. A vida tem suas limitações, nós não somos eternos aqui. Mas precisamos compreender que nosso sentido está na comunhão com o Corpo de Cristo, com toda a Igreja”, afirmou.
Dom Zanoni lembrou que a missão anunciada por Jesus está relacionada à promoção da dignidade humana e à transformação da sociedade. Nesse sentido, citou a passagem bíblica em que Cristo apresenta sua missão de anunciar a Boa Nova aos pobres, libertar os cativos e promover a cura dos doentes. “A Igreja anuncia aquilo que Jesus pregou: o Reino de Deus, que já está realizado aqui, mas ainda não em sua plenitude. Isso acontece na busca pela justiça, na luta pela vida e na defesa dos pobres. Jesus disse: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, a libertação dos cativos e a cura dos doentes’”, recordou.
Para o arcebispo, a preocupação com a vida e a defesa da justiça fazem parte do projeto de Deus. Ele também mencionou a esperança de um novo céu e uma nova terra, em que a violência e a morte não terão a palavra final. “A preocupação com a vida e a defesa da justiça fazem parte do projeto de Deus: um novo céu e uma nova terra, onde o lobo e o cordeiro comerão juntos. A violência não tem a última palavra, nem a morte”, declarou.
Dom Zanoni ressaltou ainda que a salvação não é resultado exclusivo do esforço humano, mas um dom de Deus. Por isso, mesmo diante da perda, a fé permite reconhecer que a existência possui um sentido maior. “A fé é aceitar e compreender que a salvação vem de Deus e que não é apenas um esforço humano. É saber e perceber que, apesar da dor, a nossa vida tem sentido”, acrescentou.
Durante a conversa, o arcebispo também chamou atenção para a importância de retomar os ensinamentos de Jesus diante dos desafios vividos pela sociedade. Ele citou passagens do Evangelho que orientam o amor ao próximo, inclusive aos inimigos, e a oração por aqueles que perseguem os cristãos.
Dom Zanoni lembrou ainda a afirmação de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida”, destacando que a preocupação com o outro é um dos critérios fundamentais da salvação. Segundo ele, a transmissão da fé entre as gerações deve acontecer não apenas por meio das palavras, mas principalmente pelo exemplo e pelo testemunho. “Os pais devem passar essa tradição. E isso não acontece somente pela palavra, mas, sobretudo, pelo testemunho. Por isso, é tão valioso para nós o testemunho dos santos. Santo é aquele que testemunhou Jesus, o caminho da verdade e da justiça”, afirmou.
O religioso avaliou que, atualmente, as pessoas precisam encontrar exemplos concretos de compromisso com os valores cristãos, em vez de apenas receber discursos ou verdades impostas. “Hoje, o mundo não aceita mais qualquer palavra ou verdades impostas. Aceita, sim, o testemunho. Por isso, precisamos perceber como é valioso o testemunho de tantos homens e mulheres em defesa da vida, da justiça e da fraternidade”, ressaltou.
Ao final da entrevista, Dom Zanoni deixou uma mensagem de conforto e esperança às famílias que enfrentam a saudade e a ausência de pessoas queridas neste Dia de Finados.
Inspirado na passagem do Evangelho que fala sobre manter as lâmpadas acesas, o arcebispo destacou a importância de preservar a capacidade de amar, mesmo diante das dificuldades, da tristeza e das perdas.
Para ele, o egoísmo, a indiferença e o desânimo não podem apagar a esperança nem impedir que as pessoas continuem exercitando o amor e a solidariedade. “O Evangelho fala de manter as lâmpadas acesas. Isso significa não deixar que a indiferença, o egoísmo e o desânimo apaguem em nós a capacidade de amar. Que possamos compreender que a última palavra sobre a existência humana não pertence à morte, mas ao Deus da vida”, concluiu.
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