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Feira de Santana Emprego e renda

Qualificação e falta de experiência dificultam contratação em Feira de Santana, aponta diretor da Casa do Trabalhador

Magno Felzemburgh afirma que o município oferece mais de 200 vagas de emprego por dia e destaca a necessidade de aproximar empresas e trabalhadores; resistência de parte dos jovens ao mercado formal e dificuldades relacionadas aos benefícios sociais também foram abordadas.

13/10/2026 18h41
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Foto: Gabriel Calazans
Foto: Gabriel Calazans

Conseguir um emprego formal tem sido um desafio para muitos trabalhadores, enquanto empresas enfrentam dificuldades para preencher vagas em diferentes setores da economia. Em Feira de Santana, a situação ocorre mesmo diante de uma oferta diária superior a 200 oportunidades de trabalho. Segundo o diretor da Casa do Trabalhador, Magno Felzemburgh, a falta de qualificação profissional e de experiência comprovada em carteira estão entre os principais obstáculos para aproximar candidatos e empregadores. O assunto foi discutido em entrevista, na qual ele também abordou o aquecimento da economia local, as alternativas de capacitação gratuita e a necessidade de ajustes nas políticas públicas de assistência social.

De acordo com Magno, o município apresenta um cenário favorável à geração de empregos, com oportunidades distribuídas entre os setores de serviços, comércio, indústria e construção civil. Ele destacou que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) referentes a agosto apontaram saldo positivo na geração de empregos em todos esses segmentos. “Temos uma média bastante relevante de ofertas de trabalho na Casa do Trabalhador. Na maioria das vezes, são sempre mais de 200 vagas sendo oferecidas por dia. Feira de Santana apresentou, nos dados do Caged de agosto, um saldo positivo em todos os setores da economia”, afirmou.

Apesar do volume de oportunidades, o diretor observa que existe um descompasso entre as exigências das empresas e o perfil de parte dos candidatos. Segundo ele, muitos empregadores procuram profissionais que tenham formação específica para a função e experiência comprovada em carteira, o que dificulta principalmente a entrada de quem está tentando conseguir o primeiro emprego. “Existe uma espécie de nó nesse processo, que é a qualificação. As empresas exigem que o trabalhador tenha qualificação na área e, em determinadas situações, experiência comprovada em carteira. Isso acaba gerando um empecilho”, explicou.

Diante da dificuldade de encontrar profissionais que atendam a todos os requisitos, algumas empresas têm adotado alternativas para ampliar o número de candidatos disponíveis. Conforme Magno, uma das mudanças observadas é a contratação de trabalhadores sem experiência, com a oferta de capacitação dentro das próprias organizações.

O diretor afirmou que a Casa do Trabalhador procura intermediar esse processo, apresentando às empresas candidatos que possuem qualificação, mas ainda não tiveram a oportunidade de adquirir experiência profissional formal. “A gente tenta contornar essa situação demonstrando que o trabalhador tem qualificação, mas não tem experiência. Procuramos fazer com que a empresa aceite entrevistá-lo. Muitas empresas, não só da nossa região, mas de todo o Brasil, estão percebendo essa dificuldade e passando a contratar trabalhadores sem experiência, oferecendo a qualificação dentro da própria empresa”, disse.

Para Magno, essa flexibilização representa uma tentativa de conciliar a necessidade das empresas de preencher seus postos de trabalho com a realidade de quem busca uma oportunidade para ingressar no mercado formal. “De um lado, a empresa precisa do trabalhador. Do outro, temos o trabalhador que quer entrar no mercado, quer trabalhar, mas não tem qualificação ou experiência em carteira. Já percebemos que os dois lados estão buscando um meio-termo”, avaliou.

O diretor também relacionou a dificuldade de contratação ao crescimento da atividade econômica do município. Segundo ele, a presença de empreendimentos de diferentes segmentos aumenta a procura por profissionais e torna mais difícil encontrar mão de obra para determinadas funções.

Na construção civil, por exemplo, a execução de obras e a construção de unidades habitacionais ampliam a demanda por pedreiros. Já nos setores de comércio e serviços, a dificuldade pode atingir funções como contramestre de oficina, mecânico, padeiro e operador de caixa de supermercado. “Quando você tem muitos empreendimentos em obras e construção de casas habitacionais, aparece a dificuldade de encontrar pedreiros. Quando existe uma rede forte de farmácias, supermercados e oficinas, você também encontra dificuldades para contratar profissionais, como contramestres de oficina, mecânicos, padeiros e até operadores de caixa”, exemplificou.

Magno ressaltou que Feira de Santana possui uma estrutura comercial expressiva, com grandes redes de supermercados e estabelecimentos de diferentes segmentos. Na avaliação dele, a quantidade de empreendimentos em funcionamento contribui para a disputa por trabalhadores. “Feira de Santana é uma cidade bem aquecida nas atividades de serviços, comércio, indústria e construção civil. Temos grandes redes de supermercados e uma atividade econômica forte. Isso acaba gerando uma demanda muito grande por profissionais”, afirmou.

Além da qualificação e da experiência, Magno apontou outros fatores que, na avaliação dele, interferem na contratação. Entre eles, está a preferência de parte dos trabalhadores por atividades remuneradas por diária ou pela prestação de serviços, em vez de um vínculo formal com carteira assinada. Segundo o diretor, há situações em que trabalhadores optam por esse modelo de atividade por considerarem mais vantajosa a combinação entre a renda obtida com serviços eventuais e os benefícios sociais recebidos por integrantes da família. Ele ponderou que essa dinâmica também precisa ser considerada na análise das dificuldades enfrentadas pelas empresas.

A Casa do Trabalhador, conforme explicou, atua na intermediação de oportunidades com vínculo formal, o que limita o atendimento a pessoas que procuram exclusivamente trabalhos por diária ou outras modalidades informais. Magno também chamou a atenção para o comportamento de parte da geração mais jovem diante das exigências do emprego tradicional. De acordo com ele, alguns jovens buscam maior flexibilidade de horários e demonstram resistência a rotinas que incluem o trabalho aos sábados e o cumprimento de jornadas estabelecidas pelas empresas. “A geração jovem vem com essa perspectiva de flexibilidade de horários e de dias da semana, mas nem sempre encontra isso no mercado tradicional. Não é possível, por exemplo, simplesmente dizer que não quer trabalhar aos sábados, porque a rotina da empresa precisa ser cumprida”, declarou.

Para o diretor, essa mudança de expectativa em relação ao trabalho formal representa mais um desafio para os empregadores. Ele observou que, mesmo diante de eventuais mudanças na legislação sobre a jornada de trabalho, determinadas atividades continuarão exigindo profissionais em horários específicos.

Apesar das dificuldades, Magno destacou que existem oportunidades gratuitas de capacitação profissional para quem deseja melhorar o currículo e ampliar as chances de contratação. Segundo ele, a Casa do Trabalhador promove ações de qualificação todos os meses, além de contar com iniciativas e parcerias voltadas à formação dos trabalhadores. O diretor também mencionou a existência de cursos on-line e presenciais oferecidos por instituições do Sistema S, como o Serviço Social do Comércio (Sesc), o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e o Serviço Social do Transporte e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest Senat).

Outra alternativa citada foi o programa Trabalhador 4.0, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego, que disponibiliza capacitações gratuitas. Magno também mencionou iniciativas de apoio ao empreendedorismo, como o Capacita para Empreender, associado ao Cedeso. “Existem várias formas de fazer uma qualificação gratuita, tanto on-line quanto presencial. A modalidade on-line é uma das mais acessíveis. Hoje, o trabalhador tem um leque de oportunidades para se capacitar”, ressaltou.

Na avaliação do diretor, a qualificação pode ajudar o candidato a demonstrar que está preparado para exercer determinada função, mesmo quando ainda não possui experiência registrada em carteira. Por isso, ele considera importante que os trabalhadores aproveitem as oportunidades disponíveis para adquirir conhecimentos e competências profissionais.

A relação entre os programas de transferência de renda e a formalização do emprego também foi discutida durante a entrevista. Para Magno, as políticas públicas de assistência social são necessárias, mas precisam ser ajustadas à realidade econômica das famílias, de modo que o acesso aos benefícios não seja apontado como um fator de desestímulo à contratação formal.

Ele argumentou que o salário mínimo, diante do custo de vida e dos preços dos alimentos, muitas vezes não é suficiente para cobrir as despesas de uma família. Como exemplo, citou o preço do feijão, que, segundo ele, pode chegar a R$ 10 por quilo. “A política pública precisa ser ajustada à realidade social, porque o salário mínimo não dá para a pessoa sobreviver com tranquilidade. O custo dos alimentos está muito alto. Você encontra um quilo de feijão por R$ 10. Chegamos a uma situação muito difícil para o trabalhador”, declarou.

Magno afirmou que, em determinadas situações, o trabalhador pode considerar financeiramente mais vantajoso combinar a renda de serviços por diária com os benefícios sociais recebidos pela família do que aceitar um emprego formal. Ele citou, como exemplo, a possibilidade de alcançar uma renda mensal de R$ 4 mil nessa combinação, embora não tenha apresentado dados que permitam dimensionar a frequência desse comportamento.

Na opinião do diretor, a solução não deve ser a retirada da assistência social, mas o aperfeiçoamento dos programas, com atenção às famílias que precisam de apoio para manter os filhos na escola e garantir condições dignas de vida. “Se a mãe tem um filho na escola pública, ela precisa receber um dinheiro do governo para ajudar, independentemente de trabalhar ou não, porque não existe condição de manter uma família com um salário mínimo nas circunstâncias atuais. É preciso encontrar um meio-termo que seja justo”, defendeu.

Ele também sugeriu que as políticas de assistência considerem a realidade dos pais que trabalham, de forma a contribuir para a manutenção das famílias e, ao mesmo tempo, favorecer a formalização das relações de trabalho.

Ao concluir a análise, Magno destacou que o vínculo formal oferece garantias importantes que podem ser perdidas quando o trabalhador permanece na informalidade. Entre os direitos mencionados estão a contribuição para a Previdência Social, a possibilidade de aposentadoria, o auxílio por incapacidade temporária, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o seguro-desemprego, desde que cumpridos os requisitos legais de cada benefício.

Para ele, a dificuldade de contratação precisa ser enfrentada com ações que aproximem empresas e candidatos, ampliem o acesso à qualificação e promovam condições mais favoráveis à formalização. “Enquanto isso, o mercado fica sem normalizar essa situação, e o trabalhador fica sem pagar o INSS, sem aposentadoria, sem auxílio-doença, sem FGTS e sem seguro-desemprego. Não há benefício para a sociedade quando o trabalhador não tem a carteira assinada”, concluiu.

O cenário apresentado pelo diretor da Casa do Trabalhador evidencia um desafio que envolve diferentes aspectos do mercado de trabalho: embora Feira de Santana mantenha uma oferta expressiva de vagas, a qualificação profissional, a experiência exigida pelos empregadores, as expectativas dos candidatos e as condições econômicas das famílias continuam influenciando o preenchimento das oportunidades disponíveis.

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