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Perfis pró-Flávio no Brasil e no exterior expuseram eleitores de Lula e incentivaram denúncias

Essas ações ocorreram durante e após o primeiro turno das eleições brasileiras, realizado em 4 de outubro. 

10/10/2026 08h24
Por: Karoliny Dias Fonte: Folhapress
Foto: Agencia Brasil
Foto: Agencia Brasil

Perfis de apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) no Brasil e no exterior mobilizaram usuários nas redes sociais para identificar, expor e incentivar denúncias contra eleitores do presidente Lula (PT) que vivem em outros países. Essas ações ocorreram durante e após o primeiro turno das eleições brasileiras, realizado em 4 de outubro. 

A ofensiva atingiu brasileiros na Coreia do Sul, Japão, Bélgica e Polônia, com a divulgação de dados pessoais, tentativas de localizar residências e locais de trabalho e ameaças de denúncia e deportação. 

Na Polônia, duas brasileiras se tornaram alvo de ataques após a circulação de fotografias em que manifestavam apoio a Lula. O caso envolveu o eurodeputado Dominik Tarczy?ski, aliado da família Bolsonaro, que pediu ajuda para identificar as mulheres e defendeu sua deportação sob o argumento de que estariam promovendo o comunismo. 

As duas procuraram a embaixada do Brasil em Varsóvia, segundo o Itamaraty. Em resposta à reportagem, o ministério afirmou que a representação diplomática se colocou à disposição para prestar assistência consular, caso solicitada. 

A ofensiva ocorreu em meio à aproximação entre apoiadores de Flávio Bolsonaro e grupos conservadores estrangeiros, especialmente da Coreia do Sul. Não há evidências de que a campanha do senador tenha coordenado os ataques. 

No dia da votação, um usuário do X lançou a campanha "De volta para minha terra", convocando brasileiros no exterior a denunciar compatriotas que teriam votado em Lula. A conta é associada à "Bolha da Resenha", rede de perfis geralmente anônimos ligada a ataques virtuais, misoginia e divulgação de conteúdo falso e extremista. 

A iniciativa ganhou adesão de outros usuários. Um deles defendeu localizar a residência e o trabalho de eleitores do PT para alertar empregadores, vizinhos e autoridades. Na Coreia do Sul, outro perfil expôs informações que permitiam identificar uma brasileira, além da imagem de um aparente documento pessoal. 

No Japão, uma conta afirmou ter denunciado eleitores de Lula ao Comitê Nacional de Segurança Pública e mencionou a possibilidade de acionar autoridades migratórias para impedir sua permanência no país. Na Bélgica, uma publicação sobre uma brasileira apoiadora do presidente foi encaminhada ao responsável pela campanha, ampliando o alcance da busca. 

Ataques na Polônia 

O episódio de maior repercussão ocorreu na Polônia, onde fotografias de duas brasileiras, aparentemente publicadas por elas após a votação, passaram a circular com mensagens em inglês que as associavam ao comunismo. As imagens foram reproduzidas por perfis como o do influenciador Mario Nawfal, que acumula milhões de seguidores no X e publica comentários sobre política internacional e temas conservadores. 

Na noite de 4 de outubro, um brasileiro marcou Tarczy?ski em uma publicação de Nawfal sobre uma das eleitoras. Horas depois, o eurodeputado defendeu a deportação das mulheres em uma postagem no Instagram: "Vou cuidar delas. Sejam como a Polônia". 

"Eu mesmo vou ajudá-la a fazer as malas antes da deportação dela. Promover o comunismo na Polônia é constitucionalmente proibido", escreveu o parlamentar em outra publicação. 

A Constituição polonesa proíbe partidos e organizações que adotem práticas totalitárias associadas ao nazismo, fascismo e comunismo. O Código Penal também criminaliza a promoção pública de regimes totalitários. As imagens divulgadas, porém, mostram as brasileiras fazendo gesto de apoio a Lula e usando símbolos do PT, sem evidências de defesa de um regime totalitário. 

Na manhã seguinte, Tarczy?ski reproduziu as fotografias no X e pediu que informações sobre as mulheres fossem enviadas com urgência por mensagem privada. O brasileiro responsável pela campanha "De volta para minha terra" participou da identificação de uma delas e divulgou dados sobre sua identidade e trajetória profissional. "Seja bem-vinda de volta ao Brasil", escreveu. 

O eurodeputado já mantinha relações públicas com a família Bolsonaro. Em setembro, posou com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro em Miami, chamou-o de "meu querido amigo" e pediu votos para Flávio. Nas semanas seguintes, reiterou seu apoio ao senador e, no próprio dia da eleição, compartilhou conteúdo do ex-deputado brasileiro. 

Não há evidências de que Eduardo tenha participado da identificação das mulheres ou encaminhado suas fotografias ao político polonês. 

Apoio internacional 

A campanha de exposição de eleitores de Lula ocorreu em um ambiente de aproximação entre apoiadores de Flávio Bolsonaro e setores da direita estrangeira. Antes do primeiro turno, o usuário brasileiro que lançou a iniciativa "De volta para minha terra" já divulgava manifestações de apoio ao candidato do PL vindas da Coreia do Sul. 

Entre elas estavam publicações de Hwang Kyo-ahn, ex-primeiro-ministro sul-coreano, que declarou apoio a Flávio nos dias 28 e 29 de setembro. O brasileiro comemorou as manifestações e afirmou que seus esforços para apresentar Bolsonaro à Coreia do Sul haviam dado resultado. 

Hwang também havia participado, em junho, de um encontro de grupos conservadores nos Estados Unidos que contou com a presença do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. O ex-primeiro-ministro relatou ter conversado com o ex-deputado brasileiro sobre a situação política do país. 

Não há evidências de que Hwang ou Eduardo tenham participado da campanha de exposição dos eleitores de Lula ou de que os contatos políticos tenham servido para organizar as denúncias.

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