Alex Naldo - Foto: Boca de Forno News
A Casa do Samba de Santo Amaro da Purificação, um dos principais espaços de preservação e valorização do samba de roda no Recôncavo baiano, começa a dar os primeiros passos para recuperar as atividades após um longo período de abandono e deterioração. Enquanto aguarda a elaboração do projeto de restauração do imóvel, sambadores e sambadeiras iniciaram uma mobilização para realizar a limpeza do espaço e buscar parcerias que permitam a retomada gradual das atividades culturais.
Presidente da Associação dos Sambadores e Sambadeiras da Bahia e atual coordenador geral da Casa do Samba, Alex Naldo explicou que o Governo Federal destinou recursos para a elaboração do projeto de restauração. Segundo ele, o recurso foi destinado ao Governo do Estado e o processo passou pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac).
De acordo com Alex, uma empresa de Santa Catarina venceu a licitação e deverá elaborar o projeto que servirá de base para a captação dos recursos necessários à execução da obra. “Sabemos que é um processo complicado, principalmente pela questão dos recursos. Mas, graças a Deus, o Governo Federal destinou um valor para a elaboração do projeto. Esse recurso foi destinado ao Governo do Estado e está sendo administrado pelo Ipac. O processo passou pelo Iphan e pelo Ipac, foi realizada a licitação e uma empresa de Santa Catarina venceu. Agora, estamos aguardando o início da elaboração do projeto para, a partir daí, correr atrás dos recursos para começar realmente a restauração".
Alex Naldo destacou ainda que o poder público já reconhece a necessidade de uma intervenção urgente no imóvel. Ele lembrou que, durante a reinauguração do Teatro Dona Canô, o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, relacionou a deterioração da Casa do Samba ao problema enfrentado pelo teatro, especialmente pela presença de cupins. "Já temos consciência de que é necessária, com urgência, a restauração desse patrimônio”, afirmou.
Além dos danos provocados pelo tempo e pela falta de manutenção, Alex chamou atenção para a presença de cupins e para a situação das árvores existentes no entorno da Casa do Samba. Segundo ele, a associação também busca diálogo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente para realizar podas, já que os galhos oferecem riscos para quem circula pelo local.
O presidente da associação ressaltou, porém, que a responsabilidade pela atual situação do espaço não pode ser atribuída exclusivamente a uma instituição. "Não podemos jogar a responsabilidade em ninguém. Todos têm um pouco da sua parte de culpa para que a Casa do Samba chegasse à situação em que está hoje. Não podemos colocar toda a responsabilidade na Secretaria de Cultura ou no município. Cada um tem a sua parcela de responsabilidade".
Para Alex, a recuperação da Casa do Samba interessa não apenas a Santo Amaro, mas a todo o estado. A entidade mantém contato com grupos de diferentes municípios do Recôncavo e de outras regiões da Bahia. “Esse espaço cultural não é só de Santo Amaro, é da Bahia toda. Nós temos acesso a 29 municípios e a cerca de 110 grupos. Então, Santo Amaro ganha, mas a Bahia ganha ainda mais".
Um dos episódios que mais preocupa os representantes da Casa do Samba é o desaparecimento de parte significativa do patrimônio existente no imóvel durante o período em que o espaço permaneceu fechado.
Segundo Alex Naldo, quando a Casa do Samba teve as atividades interrompidas por problemas estruturais, todo o acervo permaneceu dentro do prédio. Com o passar do tempo, pessoas invadiram o imóvel e levaram equipamentos e materiais.
Jane, Mestre Valmir e Alex Naldo - Foto: Boca de Forno News
Entre os bens perdidos estava uma estrutura de gravação que, segundo ele, era utilizada por artistas e grupos de samba para registrar discos e CDs. “Quando a Casa foi fechada devido ao problema estrutural, ela foi fechada com todo o patrimônio dentro: gravadora, acervo cultural e toda a estrutura. Infelizmente, algumas pessoas acharam que tinham o direito de arrombar, degradar e levar tudo o que havia aqui. Nós tínhamos uma gravadora que era uma referência em termos de gravação de discos e CDs de artistas e sambadores. Infelizmente, levaram tudo. Vamos ter que recomeçar praticamente do zero.”
O dirigente informou que foram registradas ocorrências e que, em algumas ocasiões, as portas chegaram a ser novamente fechadas após invasões, mas os arrombamentos voltaram a acontecer.
Alex Naldo também esclareceu um dos principais motivos que, segundo ele, impediram a manutenção das atividades no espaço durante o período de fechamento: a interrupção do fornecimento de água e energia elétrica. De acordo com o presidente, durante a pandemia, o imóvel ficou sem esses serviços, o que tornou inviável a realização de atividades culturais e a permanência de pessoas na Casa do Samba.
“Durante a pandemia, ficamos sem água e sem energia. Durante o dia ainda era possível passar por aqui, mas à noite não havia condições. Com a pandemia, também não podíamos vir para cá e continuar as atividades. Então, as pessoas invadiram o espaço, levaram tudo o que havia aqui e começaram a degradar o patrimônio".
Para Alex, o esclarecimento é importante porque a queda de parte da estrutura da marquise não teria sido, isoladamente, o motivo para a interrupção das atividades. “Quando caiu aquela parte da marquise, isso não era motivo para fechar totalmente a Casa do Samba. O que inviabilizou o funcionamento foi também a falta de água e energia".
Mesmo sem a restauração estrutural ter começado, a nova coordenação da Casa do Samba decidiu iniciar uma mobilização para recuperar o espaço possível e retomar, gradualmente, as atividades. Um mutirão de limpeza foi realizado com a participação de sambadores e sambadeiras, com apoio de parceiros e da Prefeitura de Santo Amaro.
Alex Naldo afirmou que a intenção é estabelecer uma parceria com as secretarias municipais, especialmente as áreas de Cultura e Gestão Administrativa, para garantir condições mínimas de utilização do espaço durante eventos. “A ideia é que, além de limpar, a gente comece a movimentar novamente as atividades. Ficou muito tempo parado. Eu estou reassumindo a coordenação geral e, junto com meus parceiros, estamos unindo forças para começar a trabalhar".
Segundo ele, a proposta inicial é utilizar o espaço de forma gradual, inclusive com o fornecimento de energia em dias de eventos, por meio de uma parceria com o poder público. "Estamos tentando recuperar o que for possível. Vamos fazer uma limpeza e buscar essa parceria. Precisamos da união de todos, porque sozinhos não conseguimos.”
Mestre Valmir reforça importância cultural
Filho da sambadeira Nicinha do Samba e do mestre Vavá do Maculelê, o mestre Valmir também participou da mobilização e destacou a importância da Casa do Samba para a preservação da cultura de Santo Amaro e do Recôncavo. Para ele, a recuperação do espaço representa a possibilidade de devolver aos mestres, sambadores e sambadeiras um local de convivência e transmissão dos conhecimentos tradicionais.
“Essa cultura é muito viva e ampla, principalmente para Santo Amaro. Com a gestão de Alex Naldo tomando novamente a frente da Casa do Samba, vamos começar a reconstruir esse espaço para chegar ao patamar que ele tinha antes, com todas as suas atividades e trazendo a população para junto de nós".
Valmir defendeu a união entre sambadores, comunidade e poder público para recuperar o patrimônio. “A Casa do Samba jamais deveria estar assim. Independente de qualquer coisa, a Casa do Samba é nossa, é de Santo Amaro. Então, a gente não vai deixar isso se perder. Temos que erguer o que está abaixo".
O mestre também lembrou que o samba produzido no Recôncavo ultrapassa as fronteiras da Bahia e representa uma expressão cultural reconhecida nacional e internacionalmente. “Nós, sambadores e sambadeiras do Recôncavo, levamos o samba para o Brasil e para o mundo. A Casa do Samba não pode ficar perdida no tempo".
A sambadeira Jane, que também participou do mutirão, recordou algumas das atividades que eram realizadas na Casa do Samba antes da interrupção das atividades. Segundo ela, o espaço recebia crianças, adolescentes, idosos e mestres, além de promover encontros e atividades tradicionais, como o caruru da Casa do Samba.
“Aqui a gente realizava atividades com crianças, adolescentes e idosos, além dos encontros de mestres. Tínhamos o caruru da Casa do Samba, que reunia muita gente. Hoje, estamos aqui justamente no mês de setembro olhando para esse patrimônio e tendo que recomeçar".
Para Jane, o momento exige a participação de toda a comunidade ligada ao samba. "Esperamos que, daqui para frente, as coisas aconteçam e que possamos trazer de volta sambadeiras e sambadores. Esse é o nosso espaço de vivência e precisamos que o poder público municipal, estadual e federal olhe para a Casa do Samba".
Recuperação depende da união
Durante a entrevista, os representantes reforçaram que a recuperação da Casa do Samba não deve ser atribuída exclusivamente à associação. A expectativa é que sambadores, sambadeiras, comunidade e os diferentes níveis do poder público participem do processo.
Alex Naldo também destacou a atuação de representantes da Prefeitura de Santo Amaro, citando a secretária Renata Lordeiro e Giovanice, além de outros parceiros que, segundo ele, têm demonstrado disposição para colaborar com a retomada das atividades. “É muito fácil criticar e achar que a responsabilidade é apenas da associação. Precisamos unir forças. Quero parabenizar as secretarias que estão fazendo parceria e as pessoas que estão ajudando. Espero que essa parceria continue e que a gente consiga fazer esse trabalho".
O coordenador defendeu ainda que as informações sobre a Casa do Samba sejam buscadas diretamente com os responsáveis pela instituição, como forma de evitar informações equivocadas. “Quando a gente não sabe tudo, procura quem sabe. Se eu não souber responder, vou chamar alguém para responder. Assim, a gente evita falar algo de que não tem certeza e ajuda a combater as fake news".
A mobilização marca, portanto, uma tentativa de recomeço para um espaço que durante anos foi referência na preservação do samba de roda no Recôncavo. Enquanto o projeto de restauração aguarda os próximos encaminhamentos, sambadores e sambadeiras querem manter viva a Casa do Samba e preparar o terreno para que, no futuro, o patrimônio volte a receber atividades culturais de forma permanente.
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