Após uma trajetória marcada pelo combate à violência contra a mulher, pela defesa dos direitos das vítimas e pela atuação junto a adolescentes em conflito com a lei, a delegada de Polícia Civil Maria Clécia Vasconcelos encerrou oficialmente sua carreira na Polícia Civil da Bahia. A aposentadoria, porém, representa apenas o fim de um ciclo institucional. Aos colegas, amigos e à sociedade, ela deixa uma mensagem de gratidão, fé e a certeza de que continuará servindo à população por meio da advocacia, da docência e dos projetos sociais.
Natural de Maceió (AL), Clécia Vasconcelos ingressou na carreira policial ainda jovem, inspirada pelo pai e pelo avô. Formada em Direito, iniciou sua trajetória em delegacias do interior da Bahia até se tornar uma das delegadas mais conhecidas do estado, especialmente pelo trabalho desenvolvido à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Feira de Santana.
Mais recentemente, assumiu a Delegacia para o Adolescente Infrator (DAI), onde passou a vivenciar uma realidade ainda mais complexa, envolvendo violência juvenil, drogas e desestruturação familiar.
Durante entrevista concedida ao Portal Boca de Forno News após a aposentadoria, Clécia afirmou que ainda não conseguiu vivenciar plenamente essa nova etapa da vida. “Não deu para viver nada ainda”, disse.
Segundo ela, a rotina continuará intensa. “Estou dando sequência à minha agenda. Continuo dando aula na faculdade e agora é um novo ciclo. Vou me dedicar à advocacia, continuar me dedicando aos projetos sociais que eu gosto muito e me sentindo uma pessoa muito, muito abençoada em fechar esse ciclo".
Ao ser questionada sobre o legado que deixa para Feira de Santana e para a Polícia Civil, Clécia preferiu não falar em legado pessoal.
Demonstrando humildade, afirmou que quem deve avaliar seu trabalho é a população. “Não me acho no direito de dizer que deixo um legado".
Ela fez questão de agradecer ao município que a acolheu ao longo da carreira e destacou o carinho que sempre recebeu da sociedade feirense. “Agradeço muito a Feira de Santana por esse acolhimento que continua. Minha passagem me fez aprender uma coisa: muitos se apropriam da pauta, da mídia e de tudo mais. Poucos se apropriam da causa".
Segundo ela, o reconhecimento verdadeiro nasce quando o trabalho é realizado com sinceridade. “Quando a gente faz as coisas com o coração, isso ecoa. O povo sente a verdade e aí gera essa identidade".
Um dos trechos mais marcantes da entrevista foi quando Clécia falou sobre a mudança da Delegacia da Mulher para a Delegacia para o Adolescente Infrator.
Ela explicou que, inicialmente, acreditava que estava apenas mudando de unidade policial, mas logo percebeu que enfrentaria uma realidade muito mais dolorosa. “Lá na Deam eu trabalhava com a mulher vítima de violência doméstica e violência sexual. Quando cheguei à DAI encontrei essa mesma mulher sofrendo porque o filho estava envolvido com drogas, porque o filho tinha sido assassinado, porque o filho entrou para uma facção ou porque ela já não conseguia mais mantê-lo dentro de casa".
Segundo a delegada, foi nesse momento que compreendeu a dimensão da violência que atinge toda a estrutura familiar. “Enquanto você trabalha com a mulher vítima de violência, tenta fortalecê-la para romper o ciclo e dizer: ‘eu vou embora, não quero mais viver com esse agressor’. Mas como dizer isso para um adolescente que é abusado dentro de casa? Eu não posso dizer para ele simplesmente sair de casa".
Ela definiu a experiência na DAI como uma das mais difíceis de sua carreira. “Eu dizia: ‘Meu Deus, isso aqui é muito complexo. Aqui existe ainda mais sofrimento’".
Mesmo diante das dificuldades, afirmou que sempre encontrou força na fé. “Eu louvo e agradeço a Deus porque até aqui Ele tem nos ajudado. Quando colocamos nossa vida nas mãos de Deus, até aquilo que parece errado acaba fazendo sentido".
Durante a entrevista, Clécia também fez uma profunda reflexão sobre o crescimento da violência, especialmente contra mulheres e adolescentes. Ela destacou que o aumento dos casos de feminicídio, da violência sexual, dos homicídios de jovens e até dos ataques virtuais demonstra que a sociedade enfrenta um problema estrutural.
Segundo ela, o avanço das redes sociais trouxe benefícios, mas também desafios inéditos. “As redes sociais são um caminho sem volta, mas precisam ser utilizadas com responsabilidade. É necessário fiscalização e educação".
Outro ponto destacado foi o crescimento do consumo de drogas. “Hoje vivemos o fenômeno do uso de entorpecentes. As drogas estão corroendo famílias, lares e relações".
Na avaliação da delegada aposentada, a sociedade precisa voltar a discutir valores. “Parece um discurso antigo, mas precisamos retomar os valores da família. A família é a base da sociedade. Precisamos resgatar aquilo que fortalece a dignidade da pessoa humana".
Questionada sobre o aumento da criminalidade mesmo diante de penas cada vez mais rigorosas, Clécia fez críticas ao que chamou de “uso simbólico do Direito Penal”.
Ela afirmou que simplesmente aumentar penas não resolve o problema da violência. “Não sou adepta do endurecimento das leis. Veja o feminicídio: aumentaram as penas, hoje é um dos crimes com punição mais severa. Diminuiu? Não. Aumentou".
A delegada também comentou o debate sobre redução da maioridade penal. “O grande questionamento é: isso vai resolver?”
Para ela, é preciso compreender quem é esse adolescente que chega ao crime. “Qual é o perfil desse jovem? De onde ele veio? O que aconteceu antes?”
Segundo Clécia, o Brasil precisa investir muito mais em prevenção do que apenas em repressão. “Precisamos de políticas públicas e de uma política criminal efetiva, não de medidas populistas ou de discursos eleitoreiros. Enquanto isso, os índices continuam alarmantes e a sociedade segue pedindo socorro".
Ela ressaltou que a segurança pública não pode ser responsabilidade apenas das polícias. “Esse não é um problema só da polícia. É um problema de toda a sociedade".
Ao recordar os momentos mais marcantes da carreira, Clécia emocionou-se ao lembrar de uma mãe que perdeu o filho. Ela contou que participava de um projeto social em um bairro de Feira de Santana quando uma mulher se aproximou e disse: “Doutora, a senhora fez o levantamento cadavérico do meu filho".
A lembrança imediatamente a transportou para a cena. Ela recordou que a mãe estava ajoelhada, ensanguentada, abraçada ao corpo do filho morto.
Naquele momento, alguns policiais pediam o isolamento da área, mas Clécia decidiu permitir que aquela mãe tivesse o direito de se despedir. “Eu disse: esse momento é dela".
Segundo ela, alguém chegou a questionar: “A senhora está defendendo bandido?” A resposta veio de forma firme. “Não. Estou defendendo o direito dessa mãe chorar o filho dela".
Ao lembrar da cena durante a entrevista, a delegada não conteve a emoção.
A experiência na DAI também transformou sua visão sobre os jovens envolvidos na criminalidade. Segundo Clécia, grande parte desses adolescentes cresceu em ambientes de extrema vulnerabilidade. “Muitos foram criados pela avó. A mãe abandonou. Às vezes nem sabem quem é o pai".
Ela explicou que essas famílias enfrentam dificuldades econômicas e emocionais profundas. “A avó envelhece, adoece. O menino cresce sem alguém que lhe diga o que é certo, que abrace, que oriente".
Nesse contexto, afirma, o tráfico de drogas ocupa esse espaço. “O traficante adota esse adolescente antes da sociedade".
Para a delegada, uma diferença marcante entre adultos e adolescentes envolvidos no crime é a percepção do risco. “O adulto tem medo de morrer e de ser preso. O adolescente não. Ele acha que pode tudo".
Essa realidade, segundo ela, é uma das mais preocupantes da segurança pública atual.
Ao encerrar a entrevista, Clécia fez questão de afirmar que deixa a Polícia Civil sem ressentimentos. “Sou uma mulher que não olha para trás. Sempre sigo em frente".
Ela resumiu sua trajetória com uma frase que, segundo ela, guiou toda sua carreira. “Até aqui o Senhor nos ajudou".
A delegada disse que se considera privilegiada por chegar à aposentadoria ainda ativa, com saúde e novos desafios pela frente. “Só tenho a agradecer. Estou jovem, aposentada, iniciando novos projetos. Isso é uma bênção".
Entre esses projetos estão a advocacia, a continuidade das atividades como professora universitária e o fortalecimento das ações sociais desenvolvidas ao longo dos últimos anos.
Assim, encerra-se um importante capítulo da segurança pública baiana. Mas, para Clécia Vasconcelos, a missão de servir à sociedade continua, apenas em uma nova trincheira.
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