O câncer de próstata é o principal tipo de câncer entre os homens, considerando sua relevância em número de casos, hospitalizações e custos para o sistema de saúde. Durante o Novembro Azul, campanha mundial dedicada à conscientização sobre a doença, o urologista Eduardo Cerqueira chama a atenção para a importância da prevenção, da realização de exames periódicos e, principalmente, do diagnóstico precoce. Segundo o especialista, a doença pode evoluir sem apresentar sintomas nas fases em que ainda existe possibilidade de cura, o que reforça a necessidade de os homens procurarem acompanhamento médico regularmente.
Em entrevista ao Portal Boca de Forno News, Eduardo Cerqueira explicou que o Novembro Azul surgiu justamente diante da grande incidência do câncer de próstata e dos impactos que a doença provoca não apenas na saúde dos homens, mas também na vida de suas famílias e na sociedade. "O câncer de próstata é uma doença extremamente prevalente. É o principal câncer do homem. A incidência dele é menor do que a do câncer de pele, mas, em termos de relevância, número de casos, hospitalizações e gastos do sistema de saúde, acaba sendo o câncer mais importante. Por isso, foi criada uma campanha mundial, o Novembro Azul, para falar sobre esse câncer e esclarecer a população, justamente pela relevância que ele tem na sociedade e nas famílias", destacou.
O urologista explicou que existem diferentes fatores que aumentam a probabilidade de desenvolvimento do câncer de próstata. O histórico familiar é apontado como o mais importante deles, seguido pela idade, já que o risco aumenta à medida que o homem envelhece. Outro fator mencionado pelo especialista é o tabagismo. Ele também chamou a atenção para a exposição ocupacional a derivados de petróleo, principalmente substâncias relacionadas ao benzeno, presentes em solventes e combustíveis.
Nesse contexto, trabalhadores que atuam com asfaltamento e atividades de pintura, tanto automobilística quanto de imóveis, podem estar mais expostos a essas substâncias, o que representa um fator de risco adicional. "Os fatores de risco mais importantes para o câncer de próstata são a história familiar, que é o maior de todos, e a idade. Quanto mais velho o homem, maior a probabilidade de desenvolver a doença. Também temos o tabagismo e a exposição a derivados de petróleo, principalmente os derivados do benzeno, como solventes e combustíveis. Pessoas que trabalham com asfaltamento, pintura automobilística e pintura de imóveis podem ter uma exposição maior a esse tipo de substância, aumentando o risco", explicou.
Sobre a idade indicada para iniciar o acompanhamento preventivo, Eduardo Cerqueira informou que a recomendação da Sociedade Brasileira de Urologia é que os homens procurem avaliação a partir dos 50 anos. Entretanto, para aqueles que apresentam fatores de risco, a orientação é antecipar esse acompanhamento para os 45 anos.
Entre os grupos que necessitam de atenção especial estão os homens afrodescendentes, que apresentam maior predisposição ao desenvolvimento da doença. O médico ressaltou que, na Bahia, onde existe uma significativa miscigenação da população, é importante considerar esse fator na orientação preventiva. "A recomendação da Sociedade Brasileira de Urologia é a partir dos 50 anos para os homens e a partir dos 45 anos para aqueles que apresentam fatores de risco. Um desses fatores é ser afrodescendente. Aqui na nossa região, na Bahia, é muito difícil dizer que alguém não tem ascendência afrodescendente, porque praticamente todo mundo tem algum parente, mais próximo ou mais distante, de origem negra. Isso acaba aumentando a probabilidade e, por isso, recomendamos que os homens façam essa avaliação a partir dos 45 anos", afirmou.
O especialista reforçou que a avaliação periódica é fundamental porque o câncer de próstata pode se desenvolver silenciosamente. Quando a doença ainda está localizada, ou seja, restrita à próstata, geralmente não provoca sintomas. É justamente nessa fase que existe a possibilidade de realizar o tratamento com intenção curativa.
Um dos principais alertas feitos pelo urologista é que a ausência de sintomas não significa que o homem esteja livre da doença. Pelo contrário: quando o câncer está restrito à próstata e ainda pode ser retirado por meio de cirurgia, o paciente geralmente não apresenta qualquer manifestação clínica. Os sintomas costumam aparecer quando o tumor ultrapassa os limites da próstata e começa a atingir outras estruturas do organismo. Caso alcance os ossos, por exemplo, pode provocar dores. Quando invade outras estruturas e vasos, também pode ocasionar complicações, como tromboses.
O médico explicou ainda que tumores com grande volume na região da pelve podem provocar obstruções urinárias. Entretanto, quando esses sinais aparecem, muitas vezes a doença já se encontra em estágio avançado, reduzindo as possibilidades de cura. "Quando a doença é passível de cura, o paciente não tem sintomas. Quando você tem uma doença localizada, totalmente dentro da próstata, que pode ser retirada e deixar o paciente curado, nesse momento ele não apresenta sintomas nem qualquer tipo de queixa", esclareceu.
Ele acrescentou. "Quando a doença começa a sair da próstata, aparecem os sintomas. Se ela invade os ossos, o paciente pode sentir dor. Se invade outras estruturas, pode provocar problemas, como trombose dos vasos. A doença metastática geralmente é a que gera sintomas. Um grande volume de doença na pelve também pode causar obstruções urinárias".
Diante desse cenário, Eduardo Cerqueira destacou que o objetivo é identificar a doença antes que ela provoque manifestações clínicas. "O importante é o paciente fazer a avaliação e buscar o tratamento antes que isso aconteça. Porque, quando aparecem os sintomas, em geral, você já não consegue mais curar o paciente. A possibilidade de cura existe quando a doença está localizada e ainda é assintomática", alertou.
Entre os principais procedimentos utilizados para investigar o câncer de próstata estão o exame de sangue PSA, que mede o antígeno prostático específico, e o toque retal. De acordo com o urologista, esses exames continuam sendo fundamentais para identificar possíveis alterações e levantar a suspeita da doença. Entretanto, ele ressaltou que a medicina avançou e atualmente dispõe de métodos mais modernos que auxiliam na investigação e tornam o diagnóstico mais preciso.
Um desses recursos é a ressonância magnética multiparamétrica da próstata, exame que permite avaliar detalhadamente o órgão e identificar regiões com maior suspeita de câncer. A partir dessas informações, o médico consegue direcionar melhor a realização da biópsia. Outro avanço é a própria evolução das técnicas de biópsia. O especialista citou a biópsia por fusão de imagens e a biópsia transperineal, esta última associada a um menor índice de infecção.
Também destacou o PET, exame de imagem utilizado para identificar a disseminação da doença, inclusive pequenas lesões metastáticas que podem não ser facilmente identificadas por outros métodos. Essa identificação interfere diretamente na escolha do tratamento mais adequado. "A avaliação da próstata ainda tem como base o PSA e o toque retal, para fazer essa investigação e identificar a suspeita do câncer. Mas surgiram vários exames novos e mais modernos que auxiliam no diagnóstico. Temos agora a ressonância multiparamétrica, que faz uma varredura da próstata, indica as áreas com maior suspeita e facilita a realização da biópsia", explicou.
Sobre os avanços na investigação, acrescentou: "A biópsia de próstata também evoluiu. Hoje temos a biópsia por fusão de imagens e a biópsia transperineal, que apresenta um índice menor de infecção. São avanços que vieram para melhorar o diagnóstico e o tratamento".
O médico também chamou a atenção para a importância do PET na identificação da extensão da doença. "Hoje temos também o PET, que é um exame de imagem que acaba identificando até micrometástases, ou seja, quando a doença está presente de uma forma muito pequena, mas que já pode ser identificada. Isso interfere no tipo de tratamento que o paciente vai receber", afirmou.
Uma dúvida frequente entre os homens é se o resultado alterado do PSA representa, obrigatoriamente, um diagnóstico de câncer de próstata. Eduardo Cerqueira esclareceu que não. Segundo ele, o PSA pode apresentar alterações por diferentes motivos, incluindo infecções, aumento do tamanho da próstata e até situações relacionadas às atividades realizadas pelo homem nos dias que antecedem a coleta do sangue.
Entre os exemplos citados estão andar a cavalo, andar de bicicleta e manter relações sexuais muito próximo da realização do exame. Essas situações podem interferir no resultado e provocar alterações nos níveis do PSA. "Um PSA alterado pode acontecer por diversos fatores. Pode ser um câncer, mas também pode ser uma infecção. Se o paciente andou a cavalo, andou de bicicleta ou teve relação sexual muito próximo do exame, isso pode alterar o PSA. Uma próstata muito grande também pode apresentar um resultado alterado sem que seja câncer", esclareceu.
O urologista reforçou que o resultado do exame, isoladamente, não confirma a presença de um tumor. "O PSA só sugere que pode existir um câncer. É necessário fazer outros exames para conseguir determinar se realmente existe a doença", completou.
A biópsia é um procedimento importante para confirmar o diagnóstico do câncer de próstata. Conforme explicou o especialista, sua indicação ocorre principalmente quando os exames iniciais apontam alterações suspeitas. Quando existe uma alteração no PSA ou no toque retal, o médico pode solicitar uma ressonância magnética para investigar melhor a próstata. Caso o exame de imagem identifique uma região com alta probabilidade de presença de câncer, pode ser indicada a realização da biópsia.
Com o auxílio da ressonância, é possível direcionar o procedimento para a área suspeita, aumentando a precisão da investigação. "Quando temos uma suspeita por uma alteração do PSA ou do toque retal, fazemos uma ressonância. Se ela sugere uma área com alta probabilidade da presença do câncer, temos a indicação de realizar a biópsia. Nesse caso, fazemos a biópsia direcionada para aquela região, para conseguir um diagnóstico mais preciso", explicou.
Quando o câncer de próstata é diagnosticado, a escolha do tratamento depende de fatores como a localização, a extensão e as características da doença. Eduardo Cerqueira explicou que a cirurgia é uma das possibilidades, principalmente para pacientes que apresentam tumores localizados. Atualmente, a cirurgia robótica tem ganhado destaque por oferecer melhores resultados em relação às técnicas tradicionais, especialmente no que diz respeito à preservação dos nervos responsáveis pela função erétil e à recuperação do controle urinário.
O médico ressaltou que as indicações cirúrgicas também foram ampliadas. Em situações específicas, pacientes que apresentam doença oligometastática, caracterizada pela existência de poucas lesões fora da próstata, também podem se beneficiar da cirurgia.
Nesses casos, a retirada de uma quantidade significativa da doença pode contribuir para que os tratamentos complementares sejam mais efetivos, favorecendo o controle do câncer e a qualidade de vida. "Hoje temos uma ampliação das indicações da cirurgia. A principal indicação continua sendo para os pacientes com doença localizada. Atualmente, indicamos a cirurgia robótica, que apresenta melhores resultados, com maior preservação nervosa e melhores resultados em relação à incontinência urinária, ao controle da urina e à manutenção da ereção, ou seja, da função erétil", destacou.
O especialista acrescentou que, em determinados casos, a cirurgia também pode ser considerada para pacientes com poucas metástases. "Hoje temos indicações ampliadas. Até pacientes com doença que chamamos de oligometastática, ou seja, que apresentam poucas lesões fora da próstata, podem ser submetidos à cirurgia. Você retira uma grande quantidade da doença e o tratamento complementar se torna mais efetivo, melhorando a qualidade de vida dos pacientes", explicou.
Ao avaliar a evolução dos tratamentos, Eduardo Cerqueira destacou que a cirurgia robótica tem proporcionado mudanças significativas na recuperação dos pacientes. Entre os principais benefícios estão a recuperação mais rápida da continência urinária e a melhora dos resultados relacionados à preservação da função erétil. Segundo ele, pacientes submetidos anteriormente à cirurgia aberta costumavam levar mais tempo para recuperar o controle da urina.
Com as novas técnicas, a recuperação tem ocorrido de maneira mais precoce, proporcionando melhores condições no período pós-operatório. "O tratamento cirúrgico hoje é muito melhor. Com os avanços da cirurgia robótica, realmente temos visto uma diferença muito grande no pós-operatório dos pacientes, com melhora da continência e uma recuperação muito mais precoce. Antes, na cirurgia aberta, os pacientes demoravam bem mais tempo para recuperar o controle urinário. A recuperação da ereção também melhorou bastante com as novas técnicas de cirurgia robótica", afirmou.
O urologista ressaltou que os avanços não se limitam aos casos em que a doença está localizada. Pacientes com câncer de próstata avançado e metástases também passaram a contar com alternativas terapêuticas mais eficazes. De acordo com ele, tratamentos que antes apresentavam dificuldades de controle, especialmente em casos considerados resistentes às terapias convencionais, atualmente podem proporcionar resultados expressivos.
O especialista fez uma comparação com o cenário de 2013 e 2014, quando determinadas formas avançadas da doença eram mais difíceis de tratar. Atualmente, existem opções terapêuticas capazes de controlar o câncer de maneira significativa, mesmo quando o paciente apresenta uma carga tumoral inicial elevada. "Não é só para a doença localizada. Também temos avanços para a doença avançada. Aquele paciente que apresenta metástases do câncer de próstata hoje conta com tratamentos que proporcionam um controle realmente excepcional. Em 2013 e 2014, tínhamos doenças que eram difíceis de tratar. Atualmente, temos tratamentos para situações consideradas refratárias aos tratamentos convencionais mais simples, conseguindo controlar a doença de uma forma muito forte", ressaltou.
Segundo Eduardo Cerqueira, os resultados permitem que muitos pacientes recuperem atividades cotidianas, tenham redução das dores e mantenham funções importantes, como a capacidade de urinar normalmente, mesmo diante de uma carga tumoral inicial elevada. "Hoje conseguimos fazer com que o paciente volte a ter suas atividades, fique sem dor e urine normalmente, mesmo quando apresenta uma carga tumoral inicial alta", completou.
Ao final da entrevista, o urologista reforçou que o Novembro Azul é uma oportunidade importante para ampliar a divulgação de informações, estimular a conscientização e fazer com que os homens prestem mais atenção à própria saúde. Entretanto, destacou que os cuidados não devem ficar restritos ao mês de novembro. A orientação é que cada homem estabeleça um período do ano para realizar seus exames de rotina e manter o acompanhamento médico, não apenas em relação à próstata, mas também a outras áreas importantes da saúde, como a cardiovascular.
Para Eduardo Cerqueira, a saúde deve ser tratada como uma prioridade, pois é a condição fundamental para que as pessoas possam trabalhar, desenvolver suas atividades e buscar seus objetivos. "O mês de novembro é voltado para o esclarecimento, para focar no assunto e fazer as pessoas lembrarem. Mas temos que cuidar da nossa saúde o ano inteiro. Todo mundo precisa reservar aquele período do ano e dizer: este é o meu período de fazer meu check-up da próstata, do coração. Temos que nos cuidar, porque percebemos que o ativo mais importante de todos nós é a nossa saúde", afirmou.
O médico concluiu destacando que a informação e a conscientização são fundamentais para estimular os homens a procurarem atendimento e adotarem uma postura preventiva. "Com saúde, a gente consegue trabalhar e correr atrás de todo o resto. Sem saúde, tudo fica difícil. Então, é sempre bom levar essa informação e tocar nesse assunto, porque precisamos nos cuidar", concluiu.
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