Donaldo Trump - Foto: Reuters/Evan Vucci/File Photo
A atualidade política apresenta um jogo complexo em que segurança regional, relações entre EUA e Irã, coalizões, apoio popular e posição de Trump estão entrelaçados em emoções contraditórias. As consequências dos ataques ao Irã não se limitam apenas a seu conteúdo, mas incluem também a natureza dos objetivos desejados e a forma como são expressos.
Trump lamentou os ataques, uma manifestação de repercussão pública que se distingue de um simples desejo de evitá-los. Ao mesmo tempo, lamentar não é uma maneira de mudar de escolha política, renunciar aos ataques nem desistir de buscar soluções não bélicas.
Renunciar aos ataques, apesar de toda a carga de sentimentos que uma palavra dessa magnitude pode despertar, é um conceito simples: é deixar de lado o desejo de atacar o Oriente Médio, não retaliar e propor soluções pacíficas e diplomáticas em vez de sancionatórias e militares. Essa escolha, por sua vez, não deve ser confundida com o abandono de objetivos a que decisões anteriores se propunham, mas deve ser feita com a devida prudência, atenta a prazos, condições e garantias de que os danos advindos da renúncia são menores do que os benefícios obtidos.
Renunciar aos ataques significa deixar de executar ou de continuar ações de ataque contra o Irã e, consequentemente, deixar de atuar em resposta a um ataque do Irã, caso ocorra, ou qualquer outra ação militar. Renunciar não implica que o governo dos EUA tenha de abandonar suas escolhas diplomáticas, que ainda preveem um acordo com o governo iraniano, mas que está disposto a não levar adiante um ataque militar. Essa escolha pode ser condicionada a prazos e requisitos, que podem incluir um acordo temporário ou uma moratória em ações de retaliação.
Diferentes conjuntos de ações podem levar a uma renúncia a ataques ao Irã. Duas abordagens centrais se destacam. A primeira é buscar uma solução diplomática para as tensões entre Estados Unidos e Irã: retomar negociações diretas ou mediadas que visem um acordo abrangente e mutuamente aceitável, e/ou abrir canais diretos de diálogo entre os dois países. A segunda abordagem é interromper as ações militares em andamento ou programadas contra o Irã e seus aliados, seja por uma declaração de cessar-fogo, um compromisso de não atacar a infraestrutura do adversário, uma retirada das forças em posição ofensiva, ou uma moratória de ataque a alvos iranianos e àqueles aliados em função da situação no Iraque.
As consequências políticas do lamento de Trump nos ataques ao Irã são duplas. No âmbito interno, um apoio crescente aumenta a legitimidade da decisão e pode mesmo inibir a oposição; no internacional, a pressão dos aliados torna-se um fator com impacto evidente. O que está em jogo é a segurança regional e a continuidade da guerra, mas não a escolha de optar por soluções diplomáticas ou pela continuação da estratégia militar. Renunciar a atitudes que não se deseja adotar não significa abandoná-las: o lamento pode estar embasando um pronunciamento público oficial, um convite ao diálogo ou uma retirada das forças armadas diretamente engajadas na operação.
A análise da situação pede o exame de dados e evidências para avaliar o que pode ocorrer caso Trump opte por renunciar aos ataques. Pesquisa da Reuters/Ipsos, realizada entre 8 e 10 de janeiro, mostra que 62% dos eleitores desaprovam os ataques ao Irã, 71% acreditam que a guerra com esse país não é do interesse nacional e 59% advertem que as tropas devem ser retiradas da região, assim como desejam 52% dos eleitores independentes. Além disso, o ex-presidente Barack Obama declarou que “uma nova guerra no Oriente Médio não é do interesse de ninguém” e que a prioridade deve ser encontrar uma forma de “desescalar” a situação.
Por Alberto Peixoto
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