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Uso indiscriminado de corticoides pode causar glaucoma, catarata precoce e até cegueira irreversível, alerta oftalmologista

Especialista alerta que colírios e outros medicamentos à base de corticoides, quando usados sem orientação médica, podem elevar a pressão ocular, causar glaucoma, catarata precoce e provocar perda irreversível da visão.

11/06/2026 17h02
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Hamilton Sampaio - Foto: Boca de Forno News
Hamilton Sampaio - Foto: Boca de Forno News

O uso indiscriminado de colírios e medicamentos à base de corticoides tem preocupado especialistas em oftalmologia devido aos riscos graves que podem comprometer a visão de forma permanente. O alerta foi feito pelo médico oftalmologista Hamilton Sampaio, que defende uma regulamentação mais rígida para a venda desses medicamentos no Brasil.

Segundo o especialista, os corticoides, quando utilizados sem acompanhamento médico, podem aumentar a pressão intraocular e desencadear o glaucoma, uma doença silenciosa que provoca lesões irreversíveis no nervo óptico e pode levar à cegueira.

“Esses colírios podem causar cegueira e essa cegueira pode ser irreversível. O glaucoma lesa o nervo óptico, aumenta a pressão ocular e, muitas vezes, o paciente não sente absolutamente nada até que a doença esteja avançada”, alertou.

Atualmente presidente da Sociedade Norte e Nordeste de Oftalmologia e membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), Hamilton Sampaio revelou que o tema foi recentemente debatido em reunião do conselho, que discute a possibilidade de regulamentar a comercialização dos colírios à base de corticoides.

Para ele, é preocupante que esses medicamentos possam ser adquiridos sem receita médica em muitas farmácias. “O Brasil já regulamentou a venda de antibióticos, que hoje só podem ser comercializados mediante prescrição médica. Defendemos que o mesmo aconteça com os colírios à base de corticoides”, afirmou.

De acordo com o oftalmologista, o perigo está justamente na sensação imediata de melhora que o medicamento proporciona. Pessoas com coceira, irritação ocular, alergias ou inflamações costumam recorrer à automedicação e, ao perceberem alívio dos sintomas, mantêm o uso por períodos prolongados. “O colírio realmente melhora a irritação e a coceira temporariamente. O problema é que muitos pacientes continuam utilizando por conta própria durante meses. Quando chegam ao consultório, em alguns casos já apresentam glaucoma avançado”, explicou.

O médico ressalta que a evolução da doença pode ocorrer rapidamente e atingir pessoas de qualquer faixa etária.

Ao contrário do que muitos imaginam, o glaucoma induzido por corticoides não afeta apenas idosos. Hamilton Sampaio destaca que crianças, adolescentes, jovens e adultos podem desenvolver a doença.

Ele cita casos de pacientes que utilizavam colírios para aliviar irritações causadas por problemas como o pterígio, popularmente conhecido como “carne no olho”, e acabaram sofrendo danos importantes na visão. “Qualquer pessoa pode desenvolver glaucoma pelo uso inadequado de corticoides. Já atendemos pacientes jovens que procuraram ajuda quando a lesão no nervo óptico já estava bastante avançada”, relatou.

Um dos pontos mais preocupantes do glaucoma é que os danos provocados ao nervo óptico são permanentes. Segundo o especialista, quando o paciente recebe o diagnóstico tardiamente, é possível apenas impedir a progressão da doença, mas não recuperar a visão já perdida.

“Se o paciente chega com 80% do nervo óptico comprometido, conseguimos preservar os 20% restantes, mas não recuperar aquilo que já foi perdido. As fibras nervosas lesadas não se regeneram”, explicou.

Embora pesquisas envolvendo genética e terapias celulares apontem possibilidades futuras, atualmente não existe tratamento capaz de restaurar fibras nervosas destruídas pelo glaucoma.

Hamilton Sampaio destaca que o glaucoma é considerado uma doença silenciosa porque, na fase inicial, não provoca sintomas perceptíveis. A doença começa comprometendo a visão periférica e apenas em estágios mais avançados afeta a visão central.

Por esse motivo, o médico reforça a importância dos exames oftalmológicos regulares, especialmente para pessoas com histórico familiar da doença ou que já apresentaram alterações suspeitas em avaliações anteriores. “O paciente não pode esperar sentir sintomas. Quando eles aparecem, geralmente a doença já está em estágio avançado”, alertou.

O especialista orienta que pessoas que apresentam irritação, alergias ou desconfortos oculares procurem um oftalmologista antes de iniciar qualquer tratamento.

Ele lembra que existem medicamentos adequados para diversas condições oculares que não contêm corticoides e que, quando o uso dessas substâncias é realmente necessário, o acompanhamento médico garante a dose correta, o tempo adequado de tratamento e a retirada gradual do medicamento. “O corticoide tem sua utilidade e pode ser necessário em vários casos, inclusive em crianças com alergias oculares importantes. O problema não é o medicamento, mas o uso sem orientação especializada”, explicou.

Além do glaucoma, o uso prolongado de corticoides pode provocar catarata precoce. Hamilton Sampaio relatou já ter operado pacientes adolescentes que desenvolveram catarata após utilizarem medicamentos à base de corticoides.

Segundo ele, o risco não está apenas nos colírios. “Sprays nasais para rinite, comprimidos, pomadas e outras medicações que contenham corticoide também podem causar glaucoma e catarata quando utilizados sem o devido acompanhamento médico”, afirmou.

De acordo com o oftalmologista, uma catarata que normalmente surgiria por volta dos 60 anos pode aparecer muito antes em pessoas expostas ao uso inadequado dessas substâncias.

O médico destacou ainda que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% dos casos de cegueira são preveníveis quando diagnosticados e tratados precocemente. Entre as principais causas estão o glaucoma, a catarata e as doenças da retina.

Para conscientizar a população, entidades oftalmológicas promovem campanhas educativas durante todo o ano. Hamilton Sampaio citou ações recentes realizadas em Feira de Santana, incluindo eventos de orientação e a campanha Maio Verde, dedicada ao combate ao glaucoma.

O especialista recomenda que o cuidado com a saúde ocular comece ainda nos primeiros dias de vida, com a realização do teste do olhinho.

Na infância, caso não haja alterações, as consultas podem ocorrer em intervalos de dois a três anos. Já na fase adulta, a orientação é realizar avaliação oftalmológica completa pelo menos uma vez ao ano. “A consulta não serve apenas para prescrever óculos. É o momento de avaliar a pressão ocular, examinar o fundo do olho e identificar precocemente doenças que podem comprometer a visão”, destacou.

Para reduzir os casos de complicações causadas pela automedicação, Hamilton Sampaio acredita que a conscientização da população é importante, mas considera fundamental uma mudança na legislação brasileira.

“A medida definitiva seria exigir receita médica para a venda de medicamentos à base de corticoides, da mesma forma que acontece hoje com os antibióticos. Isso permitiria um controle muito maior e protegeria a população dos riscos associados ao uso inadequado dessas medicações”, concluiu.

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