A decisão publicada na manhã de ontem pela representação comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) não foi bem recebida pelo setor industrial no Brasil, que teme a retomada do tarifaço "extinto" no início deste ano.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outras entidades devem participar das audiências promovidas pelo USTR, para tentar reverter a decisão até o dia 15 de julho, quando a medida pode entrar em vigor, se aprovada nos EUA.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) informou que já se habilitou junto ao USTR como parte na investigação em curso em conjunto com a CNI e outros representantes setoriais. A entidade fluminense defende que as negociações sejam objetivas em “defesa da indústria, dos investimentos e do importante relacionamento econômico e parceria estratégica entre Brasil e Estados Unidos”.
“Apesar de não ter efeito imediato, esta nova decisão contribui para o agravamento do cenário de imprevisibilidade e incerteza no relacionamento entre Brasil e EUA, impactando na geração de investimentos, empregos e renda em ambos os países”, avalia o presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano.
Entidades apostam na diplomacia
Na mesma linha, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) destacou que mantém o compromisso em colaborar com as autoridades brasileiras e norte-americanas no sentido de reverter a decisão e que, para isso, seguirá empenhada na “diplomacia empresarial”.
“A diplomacia empresarial cumpriu um papel relevante na negociação das exclusões de uma lista de produtos até aqui. Neste momento, no entanto, é fundamental uma atuação rápida e firme do governo brasileiro para evitar a confirmação de prejuízos graves às exportações do país antes da decisão final, esperada para julho”, destaca Paulo Skaf, presidente da Fiesp.
Já a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) manifesta preocupação com os efeitos adversos da medida, e lembra que os EUA são um dos principais destinos das exportações nacionais e estaduais, o que envolve bens industriais e produtos do agro, como carne bovina, café e suco de laranja.
“A Fiemg defende que o governo brasileiro mantenha atuação firme, técnica e diplomática junto às autoridades norte-americanas, com o objetivo de evitar a entrada em vigor da tarifa, ampliar a lista de produtos isentos e preservar a competitividade das empresas brasileiras no mercado dos Estados Unidos”, comenta, em nota, a entidade.
Tarifa amplia preocupação com risco político e custo de capital no Brasil, dizem especialistas
Lista de isenções reduz impacto direto sobre setores estratégicos, mas mercado teme aumento da incerteza e maior exigência de retorno para investir no país
A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros tem gerado mais preocupação no mercado financeiro do que nos setores diretamente atingidos pela medida. Embora a lista de exceções inclua itens relevantes para a pauta exportadora brasileira, como café, aeronaves, fertilizantes e terras raras, especialistas avaliam que o principal efeito pode ocorrer na percepção de risco sobre o Brasil.
Para agentes do mercado, a discussão ultrapassa o campo comercial e passa a influenciar variáveis como câmbio, custo de capital e apetite de investidores estrangeiros. A avaliação é que, em momentos de incerteza internacional, o capital tende a buscar ambientes considerados mais previsíveis e seguros.
Segundo Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a tensão comercial com os Estados Unidos deve ser acompanhada como um fator de risco macroeconômico relevante, mesmo que os efeitos concretos ainda dependam das negociações em andamento. Ele destaca que o mercado observa principalmente os reflexos sobre a percepção de risco do país e o impacto no custo de captação de recursos.
Nesse cenário, investidores tendem a ser mais seletivos, priorizando ativos com governança sólida, transparência, segurança jurídica e mecanismos consistentes de mitigação de riscos. Para Araújo, esse movimento pode beneficiar operações estruturadas de crédito, especialmente fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) com controles robustos e monitoramento adequado dos recebíveis.
A preocupação também alcança o ambiente tributário e regulatório. Para a advogada tributarista Mary Elbe Queiroz, presidente do Cenapret, a tarifa norte-americana transforma um risco comercial em um desafio adicional para o planejamento financeiro das empresas brasileiras. Exportadores e companhias inseridas em cadeias globais poderão ser obrigados a revisar preços, contratos, margens de lucro, créditos tributários e estratégias de fluxo de caixa.
Ela alerta ainda para o risco de uma reação fiscal improvisada por parte do governo. Na avaliação da especialista, setores afetados podem pressionar por compensações, incentivos ou regimes especiais para preservar competitividade. Caso essas medidas sejam adotadas sem planejamento adequado, o resultado pode ser o aumento da litigiosidade e da insegurança jurídica, justamente em um momento de transição decorrente da reforma tributária.
A leitura do mercado é semelhante. Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, afirma que a proposta não deve ser encarada apenas como um episódio de disputa política. Segundo ele, a medida adiciona uma nova camada de incerteza sobre o fluxo comercial, o comportamento do câmbio e a disposição de investidores estrangeiros em manter exposição ao Brasil.
Mesmo diante de uma lista ampla de exceções, Assis avalia que o mercado costuma precificar os riscos antes mesmo da implementação efetiva de medidas tarifárias. O fator ganha relevância porque as discussões envolvem temas considerados sensíveis nas relações bilaterais, como Pix, etanol, propriedade intelectual, desmatamento e acordos tarifários.
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