A arborização de Feira de Santana está muito abaixo do que seria considerado adequado para uma cidade com mais de 650 mil habitantes. A avaliação é do geógrafo, professor e ex-vereador Marialvo Barreto, que chama atenção para o déficit de aproximadamente 550 mil árvores na zona urbana do município. Segundo ele, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda uma árvore por habitante na área urbana.
Em entrevista ao Portal Boca de Forno News, da Sociedade, Marialvo afirmou que Feira de Santana possui atualmente cerca de 100 mil árvores na zona urbana. Desse total, aproximadamente 25 mil estariam localizadas em quintais de residências, enquanto cerca de 75 mil estão distribuídas pelas ruas e praças. “Feira de Santana não tem. Eu estou muito feliz em saber que o governo federal vai mandar dois milhões de reais para cá para essa questão da arborização. É recomendado pela Organização Mundial de Saúde uma árvore por habitante na zona urbana. Feira de Santana não tem isso”, afirmou.
De acordo com o professor, considerando a população atual do município e a quantidade estimada de árvores existentes, ainda seria necessário plantar cerca de 550 mil mudas para que a cidade pudesse melhorar as condições ambientais e amenizar os efeitos das altas temperaturas.
Marialvo Barreto relaciona o crescimento das áreas asfaltadas e a retirada de árvores ao aumento da temperatura no centro da cidade. Segundo ele, houve situações em que árvores foram retiradas propositalmente para melhorar a fachada de estabelecimentos comerciais, contribuindo para a perda de cobertura vegetal. “Feira de Santana tem cerca de cem mil árvores na zona urbana. Sendo que, dessas, 25 mil são de quintais de casas. Nas ruas e nas praças só tem 75 mil. Então, falta plantar em Feira de Santana ainda por volta de 550 mil árvores para poder a cidade amenizar mais as condições do tempo”, explicou.
O professor, que vive em Feira de Santana há quase 50 anos, também recordou como era a arborização de algumas das principais ruas da cidade quando chegou ao município.“Eu moro em Feira há quase 50 anos. Quando eu cheguei em Feira, essas ruas aí, Castro Alves, Barão de Cotegipe, eram bastante arborizadas, tinham muita amendoeira. Hoje você passa pelas ruas e as calçadas estão sem arborização. Só está tendo arborização no canteiro da Getúlio e em algumas praças”, relatou.
Para Marialvo, a ausência de árvores se torna ainda mais preocupante em períodos de temperaturas elevadas e de estiagem. Ele explicou que a presença do asfalto, por si só, já contribui para o aumento da temperatura. “Na área que você coloca asfalto, já aumenta naturalmente cerca de quatro graus. E você ainda não arboriza. Então, isso significa que causa um mal-estar, diminui a qualidade de vida dentro da cidade, aumenta a temperatura e cria uma sensação de angústia”, afirmou.
Segundo o professor, a falta de arborização interfere diretamente na qualidade de vida da população, principalmente em uma cidade localizada em uma área do semiárido sujeita a períodos de seca. Ao comentar as condições climáticas enfrentadas pela região, Marialvo destacou a influência do fenômeno El Niño e afirmou que seus efeitos já eram percebidos desde março. “Num ano como esse, chama atenção mais que é o El Niño. Eu vi muita gente falando: ‘El Niño, a partir de agora, o El Niño aqui para a nossa região’. Ele já está dado desde o mês de março. Aqui não teve safra agrícola na região de Feira. Já foi o El Niño”, declarou.
O professor também explicou que a região de Feira de Santana possui características climáticas próprias e, segundo ele, ainda é uma área pouco estudada em relação ao comportamento das chuvas. “A região de Feira de Santana e essa parte aqui entre Feira e Sergipe é uma parte do semiárido extremamente mal estudada, que pega a área do semiárido de chuva de inverno, que depende da chuva das chamadas ondas de leste do Atlântico Leste. Diferente do Ceará e da Paraíba, que dependem do sistema de norte, da Massa Equatorial Atlântica”, explicou.
Para Marialvo, justamente por estar em uma área sujeita a secas periódicas, Feira de Santana precisa investir de forma mais intensa na arborização urbana. "Então, essa região pena muito. E uma cidade, quando ela vai ficando pelada, sem árvore, a tendência é a temperatura aumentar. Então, a cidade que está no semiárido, como está Feira de Santana, numa área sujeita a essas secas periódicas, ela tem que ter uma arborização bastante adequada para que a qualidade de vida dentro da zona urbana seja bastante melhor do que está hoje”, afirmou.
Durante a entrevista, Marialvo Barreto comentou também o anúncio de recursos federais no valor de R$ 2 milhões para a área de arborização em Feira de Santana. Segundo ele, o dinheiro deverá ser utilizado para ações de arborização urbana, parques e jardins, conforme informações divulgadas pelo secretário municipal responsável pela área.
O professor, no entanto, defende que o investimento também contemple diretamente as calçadas da cidade. “Eu não tive acesso ainda ao projeto todo, mas tive acesso ao que o secretário divulgou. E essa parte que o secretário divulgou é justamente para fazer arborização urbana, parque e jardins. Mas eu entendo assim: Feira tem que fazer um esforço enorme para arborizar também as calçadas. Não é possível que a cidade só tenha área verde em praça e nos canteiros das avenidas”, disse.
Segundo ele, muitas calçadas de Feira de Santana estão completamente desprovidas de árvores, mesmo em locais onde haveria espaço para o plantio. “As calçadas estão desarborizadas. Tem muita rua da cidade que você olha e não vê uma árvore na rua”, destacou.
Outro problema apontado pelo professor é a resistência de alguns moradores à presença de árvores nas calçadas. Marialvo afirmou que existe até uma categoria que ele chama de “florafóbicos”, formada por pessoas que não querem plantas nas proximidades de suas residências. “Está surgindo também uma categoria chamada de ‘florafóbico’: gente que não quer uma planta na calçada de sua casa de jeito nenhum. Eu já tive vizinho assim, de fazer uma parede na calçada, colocar uma folha para ir para a varanda. São os florafóbicos, os inimigos da arborização, mas tem, certo? Que corta árvore, que não aceita plantar uma árvore na calçada”, relatou.
Marialvo contou ainda que já ouviu de moradores o argumento de que árvores poderiam facilitar a ação de criminosos. “Eu tenho árvore na minha calçada e já vi gente pedir para cortar porque ‘essa árvore aí serve para esconder marginal’. Ora, às vezes, marginais muito mais nobres se instalam do que às vezes têm mais na rua. Então, tem gente que tem esse medo das árvores, que eu nunca entendi”, afirmou.
Para o professor, esse tipo de resistência contribui para que determinadas ruas da cidade permaneçam completamente sem cobertura vegetal. “A cidade está ficando assim. Uma cidade tem ruas inteiras que você olha e não vê uma árvore na rua”, disse.
Marialvo Barreto ressaltou, porém, que nem todas as ruas possuem condições para receber árvores. Segundo ele, existem locais em que a largura das calçadas ou das próprias vias impede o plantio, sendo necessário considerar as características de cada espaço antes de escolher a espécie adequada. Ele citou como exemplo o conjunto Feira IX, onde, segundo sua avaliação, algumas ruas são muito estreitas para receber árvores. “Algumas são por erro, como casas de bairro, como o caso do Feira IX, que é tão estreito que não dá para botar as árvores. Tem que usar só as pracinhas. Mas tem muita rua da cidade que tem condição de ter árvore”, explicou.
Para o professor, o planejamento deve envolver profissionais especializados, principalmente biólogos, capazes de avaliar as características de cada local e indicar as espécies mais adequadas. “Um biólogo pode escolher as melhores espécies, dependendo da largura da rua, e fazer uma arborização para amenizar a temperatura dentro do sítio urbano”, afirmou.
Questionado sobre quais espécies poderiam ser plantadas pelos moradores nas calçadas, Marialvo explicou que não existe uma única árvore adequada para todos os espaços. A escolha deve levar em consideração a largura da calçada, da rua e outras características do local. “Isso depende muito da largura da calçada e da largura da rua. Você tem ruas estreitas em que é melhor plantar um arbusto, uma murta, um pé de resedá, uma coisa assim. E, no lugar que a calçada for mais larga, pode caber até pé de oiti. Salvador, na Avenida Sete, é cheia de oitizeiro. E dá certo”, explicou.
Segundo ele, outros fatores também precisam ser avaliados antes do plantio, como a possibilidade de alagamento e as características da infraestrutura existente. “Cada lugar, um biólogo que trabalha com a prefeitura vai escolher as melhores espécies para serem colocadas. Porque vai depender desse curso: se é rua, se é rua que alaga, se é rua estreita, se é calçada que alaga, se é calçada estreita. Essas variáveis qualquer um que for plantar tem que considerar na escolha das espécies”, destacou.
Marialvo ressaltou ainda que atualmente existe mais conhecimento sobre as espécies adequadas para a arborização urbana. “As escolhas das espécies são muito difíceis, não. Hoje se tem muito mais conhecimento nas plantas do que no passado. Se você baixar até na internet ‘plantas boas para a rua’, vai aparecer. Mas aqui, por exemplo, recomendo muito para essas ruas estreitas murta, o resedá, que, além de dar flor, não cresce exorbitantemente e não tem problema com encanação de água. Então, cada lugar se escolhe a planta adequada”, afirmou.
Além da atuação do poder público, o professor defende a participação dos próprios moradores no processo de arborização da cidade. Segundo ele, existem diferentes formas de conseguir mudas, inclusive por meio de doações e da produção de mudas em projetos comunitários. “Isso tem na agricultura, tem muitas mudas, muita gente doa. Aqui na Matinha eu tenho um projeto em que a gente doa frutíferas para a comunidade da Matinha”, contou.
Marialvo também mantém uma produção própria de mudas em sua chácara. “Eu faço aqui, em média, de três a quatro mil mudas por ano, aqui na chácara, onde a gente doa para a comunidade aqui da minha região”, afirmou.
Segundo ele, moradores também podem procurar floriculturas para adquirir mudas, já que muitas das espécies indicadas para arborização urbana possuem custo acessível. “Nas floriculturas tem mudas à venda e essas mudas dessas plantas não são muito caras. É muito bom ir buscar. E também as pessoas podem fazer as mudas, que são mudas fáceis de fazer”, explicou.
Com a chegada dos recursos anunciados para a arborização, Marialvo acredita que a própria Prefeitura poderá ampliar a oferta de mudas e atender aos moradores interessados em plantar nas calçadas. “Com investimento agora que o governo vai jogar, certamente a prefeitura vai ter essas mudas e as pessoas podem solicitar também à prefeitura. ‘Eu desejo uma árvore na minha calçada’. Já que vem o recurso, a prefeitura pode levar essa árvore e plantar. E essa vai ter muito mais sucesso se ela for plantada pelo desejo do morador”, defendeu.
Ao retomar a estimativa sobre a quantidade de árvores existentes em Feira de Santana, Marialvo reforçou que o déficit de arborização é elevado. “Falta plantar na cidade cerca de 550 mil mudas de planta. Esse é o déficit, porque recomenda uma por habitante. Se ela já passou de 650 mil e Feira só tem 100 mil árvores na área urbana, então faltam 550 mil. É um número muito elevado. É um município, uma cidade pouco arborizada ainda”, afirmou.
Na avaliação do professor, o cenário se torna ainda mais preocupante diante das temperaturas elevadas registradas na cidade e das características climáticas da região.
Questionado sobre a arborização da Avenida Getúlio Vargas, uma das áreas mais arborizadas de Feira de Santana, Marialvo reconheceu a importância do local, mas afirmou que a avenida também perdeu parte de sua cobertura vegetal ao longo dos anos.“Ela é bem arborizada, mas eu me lembro que a última grande arborização daqui foi feita no governo de João Durval, por Amarildo ocupando a secretaria”, recordou.
Segundo ele, a implantação do BRT e de outros equipamentos urbanos modificou a área verde da avenida. “A Getúlio Vargas perdeu árvore com esse BRT e com outros equipamentos. Toda vez que constrói um equipamento no canteiro da Getúlio, a prefeitura diminui um pedaço da área verde da Getúlio Vargas. Ela perdeu área”, afirmou.
O professor lembrou que algumas das mudas retiradas do local durante as intervenções foram transplantadas para outros pontos, mas disse não saber qual foi o índice de sobrevivência dessas plantas. “Algumas mudas tiradas dali do BRT levaram para alguns outros lugares. Eu não sei qual foi o índice das que viveram. Porque fizeram um transplante dessas plantas, eu não sei o índice”, declarou.
Apesar das perdas, Marialvo considera que a Getúlio Vargas permanece entre os locais mais arborizados do município. “A Getúlio é seguramente, junto com a Maria Quitéria, as duas avenidas com a melhor arborização dentro de Feira de Santana. E a Fraga Maia”, destacou.
Ao final da entrevista, Marialvo Barreto reforçou que a arborização da cidade não depende apenas das ações do poder público e fez um apelo aos moradores de Feira de Santana. “Eu agradeço e faço um apelo ao maior morador de Feira: plante uma árvore na calçada da sua casa. Além de ficar bonita, valoriza a casa e traz mais conforto para o morador”, concluiu.