O crescimento acelerado de Feira de Santana, a expansão de loteamentos irregulares, as ligações clandestinas e o aumento do consumo de água durante o período de calor foram apontados pela Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) como alguns dos principais fatores que contribuem para as interrupções e dificuldades no abastecimento de água em Feira de Santana e municípios da região.
Os problemas foram discutidos durante uma audiência pública realizada na manhã desta quinta-feira (5), na Câmara Municipal de Feira de Santana. A reunião teve como objetivo esclarecer as causas das interrupções no fornecimento de água, discutir as dificuldades enfrentadas pela população e buscar medidas emergenciais para solucionar os problemas. A iniciativa foi proposta pelos vereadores integrantes da Comissão de Obras, Urbanismo, Infraestrutura Municipal, Agricultura e Meio Ambiente da Casa Legislativa.
Durante a audiência, o gerente regional da Embasa, Raimundo Neto, e o superintendente da empresa na região Norte, Felipe Madureira, apresentaram esclarecimentos sobre a situação do abastecimento, os investimentos em andamento, as dificuldades operacionais e as medidas adotadas para melhorar a distribuição de água, principalmente nas comunidades da zona rural.
Ao explicar os motivos das dificuldades no abastecimento, Raimundo Neto destacou que o problema não está relacionado à falta de água na barragem de Pedra do Cavalo, mas à capacidade de tratamento e distribuição do sistema, que precisa ser ampliada para acompanhar o crescimento da demanda.
Segundo o gerente regional, a estação de tratamento de água localizada em Conceição da Feira já atingiu seu limite de produção, mesmo com a capacidade de operar acima do volume originalmente previsto. A unidade, que possui capacidade nominal de 1.500 litros por segundo, já chegou a produzir aproximadamente 1.900 litros por segundo. Entretanto, esse volume não tem sido suficiente para atender a determinadas áreas, especialmente durante o verão. “Não diria que é um problema técnico, nem de falta de água. A barragem de Pedra do Cavalo tem volume suficiente. Contudo, precisamos concluir a ampliação da Estação de Tratamento de Água, que já atingiu seu limite de produção. Embora tenha capacidade de 1.500 litros por segundo, já conseguimos chegar a algo em torno de 1.900 litros por segundo. Nessa época do verão, esse volume é insuficiente para algumas áreas de abastecimento, principalmente na zona rural”, explicou.
Raimundo ressaltou que a maior parte das reclamações relacionadas à falta de água está concentrada na zona rural, incluindo as sedes dos distritos de Feira de Santana. Entre as localidades mencionadas estão a região de Matinhas, Maria Quitéria e outras comunidades da Zona Norte e da Zona Sul do município.
O gerente também chamou a atenção para o fato de que as dificuldades não se restringem a Feira de Santana. Segundo ele, reclamações sobre o abastecimento também são registradas em outros municípios da região, como Santo Estêvão, São Gonçalo do Campo, Santa Bárbara e Anguera, além de localidades como Flores de Santana, Coração de Maria, Conceição do Jacuípe e outras áreas atendidas pelo sistema regional.
Outro fator apresentado pela Embasa foi a elevação das temperaturas e o aumento expressivo do consumo de água durante os períodos mais quentes do ano. Raimundo Neto observou que, mesmo durante o inverno, a região registrou temperaturas elevadas, com condições semelhantes às da primavera e do verão. Atualmente, segundo ele, há dias em que a sensação térmica ultrapassa os 40 graus, o que aumenta a procura por água e pressiona o sistema de abastecimento.
O gerente explicou ainda que, com o esgotamento de outras fontes de água utilizadas pelas comunidades rurais, como as aguadas, que estão secando, os moradores passam a recorrer à rede da Embasa para atender a diferentes necessidades. “Além do clima, que neste ano apresentou temperaturas elevadas mesmo durante o período de inverno, temos agora temperaturas com sensação térmica que ultrapassa os 40 graus. Com o esgotamento de outras fontes de abastecimento, como as aguadas, que estão secando, as pessoas passam a utilizar a água da Embasa para todas as finalidades, e não apenas para o consumo humano, que foi a finalidade para a qual o sistema deveria ser construído”, destacou.
Ele acrescentou que o aumento da utilização da água para outras atividades, além do consumo doméstico, contribui para ampliar a pressão sobre o sistema, principalmente nas comunidades rurais.
As ligações clandestinas, conhecidas popularmente como “gatos”, e os usos não autorizados da rede de abastecimento também foram apontados como problemas que dificultam o fornecimento regular de água. De acordo com Raimundo Neto, a expansão territorial da zona rural de Feira de Santana, a dispersão das comunidades e a existência de loteamentos irregulares tornam mais complexa a operação do sistema. A situação é agravada pelas ligações irregulares e pelo uso da água para atividades que não estavam previstas na finalidade original das redes de abastecimento.
O superintendente da Embasa na região Norte, Felipe Madureira, também destacou a ocorrência de desvios na rede de distribuição para abastecer animais e atender atividades agrícolas. “Estamos ampliando a estação de tratamento, como o gerente regional colocou, e também fazemos o monitoramento de toda a rede de distribuição, de toda a malha existente dentro da sede de Feira de Santana e também de toda a área rural. Temos algumas dificuldades nessa época do verão, até porque o consumo aumenta bastante. Na zona rural, existem algumas situações de desvios da rede de água para abastecimento de animais e para a agricultura. Então, também temos essa dificuldade”, afirmou.
Felipe ressaltou que a empresa vem acompanhando o desenvolvimento do município e realizando intervenções para ampliar a capacidade de atendimento e melhorar os serviços prestados à população.
Além das questões relacionadas ao consumo elevado, às ligações clandestinas e à capacidade de tratamento, Raimundo Neto mencionou problemas no fornecimento de energia elétrica como outro fator que interfere no abastecimento em algumas localidades. Segundo ele, em Santo Estêvão são registradas interrupções frequentes no fornecimento de energia pela Neoenergia Coelba. O gerente também citou ocorrências semelhantes em outras áreas da região.
A situação pode comprometer o funcionamento dos equipamentos utilizados no sistema de abastecimento, especialmente em períodos de maior demanda.
Diante das dificuldades, a Embasa informou que tem adotado medidas emergenciais para minimizar os impactos causados pelas interrupções no fornecimento de água. Entre as ações estão o atendimento por meio de carros-pipa, melhorias operacionais no sistema e intensificação do combate às irregularidades nas ligações.
Raimundo Neto também explicou que existe um diálogo entre a empresa e a Prefeitura de Feira de Santana para organizar o atendimento às comunidades que enfrentam problemas de abastecimento.
Segundo ele, a Embasa possui critérios para disponibilizar carros-pipa. A empresa pode realizar o atendimento nas localidades onde existe uma ligação ativa de abastecimento. Quando o imóvel não possui rede disponível no logradouro ou está com a ligação suspensa por falta de pagamento, a situação precisa ser tratada de outra maneira. “Tivemos um diálogo com a Prefeitura Municipal de Feira de Santana no sentido de esclarecer que a Embasa só pode fornecer carros-pipa onde existe uma ligação ativa. Muitas pessoas que fazem reclamações pelos canais de imprensa ou procuram a Prefeitura não têm rede da Embasa no seu logradouro ou estão com a ligação cortada e buscam uma negociação para conseguir o fornecimento de água por carro-pipa”, explicou.
Ele acrescentou que, nos casos em que a ligação está suspensa, a Prefeitura busca realizar o atendimento emergencial à população.
O gerente regional também chamou a atenção para a situação do distrito de Maria Quitéria, onde, segundo ele, mais de 50% das ligações estão cortadas. Raimundo afirmou que parte dessas ligações é religada indevidamente, o que dificulta o controle da distribuição e a organização do atendimento emergencial. “Existem regiões, como o distrito de Maria Quitéria, em que mais de 50% das ligações estão cortadas e são religadas indevidamente. Nessa situação, quando acontece o desabastecimento, essas ligações não podem ser contempladas pelo fornecimento de água por meio de carros-pipa da Embasa”, ressaltou.
Questionado sobre quando os problemas de abastecimento deverão ser solucionados, Raimundo Neto informou que a previsão para a conclusão da obra de ampliação da capacidade de produção de água é o final de dezembro de 2026. Ele destacou que a informação já havia sido apresentada anteriormente pelo presidente da Embasa e que a empresa também está executando uma série de melhorias na zona rural e no sistema de distribuição, com o objetivo de resolver problemas pontuais.
O gerente avaliou que, apesar das dificuldades provocadas pelo calor e pelo consumo elevado, a situação do abastecimento na sede de Feira de Santana e nas sedes dos municípios da região está relativamente equilibrada, embora possam ocorrer baixas pressões em determinados momentos. “A conclusão da obra de ampliação da produção de água está prevista para o final de dezembro de 2026. Estamos fazendo também uma série de melhorias na zona rural e na distribuição para resolver essas questões pontuais. Na sede, mesmo com as pressões baixas em razão do alto consumo e do calor, a situação em Feira de Santana e nos municípios está mais ou menos equalizada”, afirmou.
Planejamento estadual considera estiagem e possível crise hídrica
Felipe Madureira informou que a Embasa também participa de um planejamento conjunto com o Governo do Estado para enfrentar os desafios relacionados ao abastecimento de água, especialmente diante das previsões climáticas e da possibilidade de estiagem. Segundo o superintendente, as discussões estão sendo realizadas por meio de um grupo de trabalho que envolve a Casa Civil do Governo do Estado, a Embasa e a Secretaria de Recursos Hídricos.
O planejamento considera o histórico de consumo, principalmente durante o verão, além das previsões relacionadas ao fenômeno climático El Niño e seus possíveis impactos sobre as condições hídricas da Bahia. “Estamos tratando diretamente com um grupo de trabalho na Casa Civil, envolvendo o Governo do Estado, a Embasa e a Secretaria de Recursos Hídricos. Estamos fazendo todo um planejamento com base também nas previsões e no histórico que temos de consumo, principalmente nessa época de verão. Agora, com o El Niño, estamos planejando como enfrentar esse período de estiagem e de crise hídrica que podemos ter no estado, principalmente na região do semiárido”, explicou.
O superintendente reforçou que os investimentos e as obras estão em andamento e que a expectativa é melhorar a capacidade de atendimento do sistema com a conclusão da ampliação da estação de tratamento. Ao detalhar o cronograma da obra, Felipe Madureira informou que a previsão é iniciar os testes da estrutura ampliada ainda no final de novembro. Em dezembro, a unidade deverá entrar em operação com a nova capacidade, permitindo que os resultados sejam percebidos a partir de janeiro de 2027.
O período é considerado estratégico pela Embasa, uma vez que janeiro costuma registrar um dos maiores índices de consumo de água, conforme o histórico da empresa. “Já vamos entrar em fase de testes com essa obra no final deste mês de novembro. Em dezembro, colocaremos o sistema em carga, para que o resultado venha justamente em janeiro, que é o período de maior consumo que temos no nosso histórico”, afirmou.
Felipe também reiterou que a empresa vem monitorando a rede de distribuição, acompanhando a expansão urbana de Feira de Santana e realizando intervenções para ampliar o atendimento tanto na sede quanto na zona rural.
A expectativa apresentada pelos representantes da Embasa durante a audiência pública é que a ampliação da Estação de Tratamento de Água, associada às melhorias operacionais, ao monitoramento da rede e ao combate às ligações clandestinas, contribua para reduzir as dificuldades no abastecimento enfrentadas pela população de Feira de Santana e dos demais municípios atendidos pelo sistema.