Feira de Santana Mortandade em açude
Mortandade de peixes em açude na zona rural de Feira de Santana acende alerta para mudanças climáticas e alterações na qualidade da água
Ambientalista João Dias aponta redução do volume de água, alta densidade de peixes e temperaturas elevadas como possíveis causas do fenômeno registrado no distrito de Ipuaçu. Especialista também recomenda medidas para preservar os corpos hídricos e evitar novos episódios.
03/11/2026 18h12
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
João Dias - Foto: Reprodução

A mortandade de peixes registrada em um açude no distrito de Ipuaçu, na zona rural de Feira de Santana, acendeu um alerta para os impactos das mudanças climáticas e das alterações na qualidade da água sobre os ecossistemas aquáticos. Entre as possíveis causas do episódio estão a redução do volume de água, o aumento da temperatura, a diminuição da concentração de oxigênio e possíveis alterações em outros parâmetros físico-químicos do corpo hídrico.

Para explicar os fatores que podem ter contribuído para a morte dos peixes e apontar medidas que podem ser adotadas para evitar novas ocorrências, a reportagem do Portal Boca de Forno News ouviu o ambientalista João Dias. Segundo ele, a hipótese mais provável está relacionada à diminuição da quantidade de água no açude, que pode ter provocado uma concentração elevada de peixes em um espaço cada vez menor.

De acordo com João Dias, a diminuição do volume de água é um dos principais fatores que podem explicar a mortandade registrada no açude de Ipuaçu. Com a redução do espaço disponível, a quantidade de peixes pode ter se tornado excessiva em relação ao volume de água existente, situação conhecida tecnicamente como alta densidade. "A causa mais provável da mortandade de peixes aqui no açude de Ipuaçu é a diminuição da água do corpo hídrico. É provável que haja muitos peixes para pouca água, o que chamamos tecnicamente de alta densidade", explicou.

O ambientalista destacou que é possível realizar uma avaliação técnica para verificar se essa hipótese corresponde à realidade do açude. Para isso, seria necessária uma visita ao local, com a realização de uma atividade de captura dos peixes utilizando equipamentos apropriados. "É possível comprovar tecnicamente essa situação se fizermos uma visita ao corpo hídrico e pescarmos com uma rede ou uma tarrafa", afirmou João Dias.

Além da redução do volume de água, o ambientalista chamou a atenção para a influência das temperaturas elevadas. Segundo ele, o calor pode intensificar as condições desfavoráveis à sobrevivência dos peixes, especialmente em regiões semiáridas, onde os períodos de estiagem e a diminuição dos recursos hídricos representam desafios para os ambientes aquáticos.

João Dias relacionou o cenário às condições climáticas associadas ao fenômeno El Niño. Ele mencionou que a temperatura do Oceano Pacífico Equatorial estaria 2,7 graus acima do normal, situação que, segundo sua avaliação, também tem reflexos nas condições climáticas do Brasil. "Não é apenas o calor e a redução da água que fazem com que os peixes morram. O Oceano Pacífico Equatorial está com a temperatura 2,7 graus acima do normal. Esse fenômeno é conhecido como El Niño e também está acontecendo no Brasil. O calor aumenta a temperatura e ajuda a modificar outros parâmetros da água", explicou.

Para esclarecer a vulnerabilidade dos peixes às mudanças de temperatura, o ambientalista fez uma comparação entre o funcionamento do organismo humano e o dos animais aquáticos.

Segundo ele, os seres humanos são endotérmicos, ou seja, produzem calor internamente e conseguem regular a própria temperatura corporal. Já os peixes são ectotérmicos e dependem da temperatura do ambiente externo para regular a temperatura do organismo. "Isso tem a ver com o fato de que nós somos endotérmicos. Isso significa que o ser humano gera calor dentro de si mesmo, pelo próprio organismo. Já os peixes são ectotérmicos, ou seja, dependem do calor externo", explicou.

João Dias ressaltou que os peixes encontrados nas regiões tropicais do Brasil estão adaptados a determinadas condições de temperatura da água. Conforme destacou, a faixa considerada adequada para esses animais fica entre 26 e 29 graus Celsius. Quando a temperatura ultrapassa esses limites, os peixes podem apresentar desconforto e até morrer. "Os nossos peixes aqui do Brasil, de países tropicais, vivem em uma temperatura entre 26 e 29 graus. Passando disso, os peixes ficam desconfortáveis e podem até morrer", alertou.

O ambientalista também destacou que a temperatura não é o único parâmetro que precisa ser observado. Alterações no pH, que indica o nível de acidez ou alcalinidade da água, e na turbidez, relacionada à quantidade de partículas em suspensão, também podem comprometer a sobrevivência dos animais. "A água também tem outros parâmetros que, se forem afetados, como o pH e a turbidez, podem matar os peixes", acrescentou.

Ao falar sobre as providências que podem ser adotadas neste primeiro momento, João Dias defendeu a participação dos produtores rurais e proprietários de fazendas na conservação dos açudes e demais corpos hídricos.

Uma das medidas apontadas por ele é a arborização das áreas no entorno dos reservatórios. A presença de árvores ajuda a reduzir a incidência direta da luz solar sobre a água e, consequentemente, pode contribuir para diminuir o aquecimento do ambiente aquático. "É necessário que os produtores rurais e os fazendeiros arborizem em torno do corpo hídrico. A arborização é importante para diminuir a incidência da luz solar sobre a água", orientou.

Outra recomendação é a manutenção das macrófitas aquáticas, plantas que vivem em ambientes de água doce e desempenham funções importantes no equilíbrio dos ecossistemas. O ambientalista citou o golfo e a baronesa, além de outras espécies de macrófitas, como vegetações que devem ser preservadas nos corpos hídricos.

Segundo João Dias, essas plantas contribuem para ajudar a controlar a temperatura da água, especialmente em períodos de calor intenso. "Também é necessário manter as macrófitas no corpo hídrico. O golfo, a baronesa e outras macrófitas são essenciais para ajudar a controlar a temperatura da água, principalmente porque estamos enfrentando esse fenômeno climático e vivemos aqui no semiárido", destacou.

Além da arborização e da preservação da vegetação aquática, o ambientalista apontou a necessidade de controlar a quantidade de peixes nos açudes. A medida busca evitar a superpopulação e a concentração excessiva de animais em volumes reduzidos de água, condição que pode comprometer o equilíbrio do ambiente. "Outra coisa importante é controlar a quantidade de peixes, o que chamamos de densidade", concluiu.