A alta do diesel tem pressionado os custos do transporte rodoviário de cargas e aumentado a preocupação com as despesas de abastecimento do comércio baiano. Em setembro, o preço médio do diesel S10 na Bahia chegou a R$ 7,696 por litro, alta de 2,46% em relação a agosto e de 25,68% na comparação com setembro de 2025, segundo levantamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O aumento ocorre em um cenário de reajustes no combustível e de atualização do piso mínimo do frete, com possíveis reflexos na distribuição de alimentos, bebidas, materiais de construção e outros produtos comercializados em Salvador.
A pressão sobre o setor é destacada pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Estado da Bahia (SETCEB). Em nota oficial, a entidade afirmou que o diesel representa, em média, entre 35% e 50% dos custos totais de uma operação logística, podendo ter peso ainda maior em viagens de longa distância ou operações específicas.
“Diante da impossibilidade técnica de absorver novos reajustes, o SETCEB reforça que o repasse imediato da variação dos combustíveis aos valores de frete não é uma opção comercial, mas uma medida de sobrevivência indispensável para a manutenção das atividades”, declarou a entidade.
O sindicato também destacou que o equilíbrio financeiro dos contratos é necessário para manter a prestação dos serviços e a circulação de mercadorias. Conforme a entidade, quando o preço do combustível sobe e o valor do frete permanece inalterado, as transportadoras enfrentam redução das margens disponíveis para cobrir manutenção, pneus, seguros, pedágios e outras despesas operacionais.
Alta
O movimento de alta continuou em outubro. Segundo levantamento do Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL), divulgado pelo SETCEB, o diesel S10 atingiu média nacional de R$ 7,46 por litro na primeira quinzena do mês, alta de 5,07% em relação ao mesmo período do ano anterior. O diesel comum chegou a R$ 7,20, aumento anual de 6,67%.
Na capital baiana, a pesquisa semanal da ANP referente ao período de 11 a 17 de outubro registrou preço médio de R$ 7,78 por litro para o diesel S10. Os valores variaram de R$ 7,29 a R$ 8,48 nos nove postos pesquisados.
Reajuste
A alta do combustível também levou a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) a atualizar os coeficientes do piso mínimo do frete rodoviário. Conforme comunicado publicado em 30 de setembro, a Portaria SUROC nº 22 atualizou os valores aplicáveis às operações de transporte de cargas, com vigência a partir daquela data.
De acordo com a agência, a revisão foi acionada pelo mecanismo previsto na Lei nº 13.703/2018, que determina a atualização da tabela quando a variação do diesel
ultrapassa 5%. O preço de referência utilizado no cálculo passou a ser de R$ 7,33 por litro do diesel S10, com base na média nacional apurada entre 20 e 26 de setembro.
A mudança não significa que todos os fretes tenham recebido o mesmo percentual de reajuste. O piso mínimo varia conforme o tipo de carga, a configuração do veículo e as características da operação. Os valores efetivamente negociados também dependem dos contratos entre transportadoras e empresas contratantes, respeitadas as exigências legais.
O SETCEB voltou a alertar para a pressão sobre os custos em publicação divulgada no início de outubro. Segundo a entidade, o diesel S10 encerrou setembro com preço médio nacional de R$ 7,16 por litro, após alta acumulada de 7,3% em 30 dias, conforme levantamento do Painel do Transporte, da Mundo Logística. A variação reforçou a preocupação do setor com a necessidade de adequar a remuneração dos serviços à evolução dos custos operacionais.
Efeito pode chegar ao comércio, dizem especialistas
O aumento do combustível pode afetar diferentes etapas da cadeia de abastecimento, especialmente as operações que dependem de viagens frequentes ou percorrem longas distâncias. Alimentos, bebidas, produtos de limpeza e materiais de construção estão entre os segmentos que utilizam intensamente o transporte rodoviário para chegar aos centros de distribuição e aos estabelecimentos comerciais.
O repasse, entretanto, não ocorre automaticamente. O impacto depende da participação do frete no custo final da mercadoria, das condições dos contratos, da distância percorrida e da capacidade das empresas de absorver parte da alta.
Para os comerciantes, o aumento das despesas de entrega pode reduzir as margens de lucro ou exigir renegociações com fornecedores e transportadoras. Já os consumidores podem sentir reflexos caso parte dos custos seja incorporada aos preços finais. A confirmação desse efeito exige, porém, a comparação entre os valores dos fretes e os preços efetivamente praticados no varejo.
A Associação Brasileira de Logística, Transportes e Cargas (ABTC) também acompanha o cenário. Em declaração reproduzida pela entidade, Vander Costa, presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT), chamou atenção para a importância da disponibilidade do combustível para manter as operações. “É melhor ter o combustível, ainda que mais caro, do que correr o risco de faltar diesel para o transporte”, afirmou.
A declaração evidencia outra preocupação do setor: além do preço, a disponibilidade do diesel é determinante para a continuidade das entregas. Uma eventual restrição no abastecimento poderia afetar a circulação de mercadorias, independentemente dos reajustes aplicados aos fretes. Na Bahia, o impacto precisa ser avaliado tanto nas viagens de longa distância quanto na distribuição regional. Salvador concentra centros comerciais e operações logísticas que dependem de fornecedores do interior e de outros estados.