Cultura Crônica da semana
Os Protestantes e a intolerância religiosa
Por Alberto Peixoto
10/10/2026 08h36 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Alberto Peixoto

Foto: Alerj

A intolerância religiosa é o preconceito ou discriminação que alguém tem contra outra religião e seus adeptos ou membros. O preconceito, por sua vez, ocorre quando uma pessoa ou um grupo de pessoas não respeita os direitos de um outro grupo em razão de suas diferenças. A intolerância religiosa é o medo ou aversão a quem é de outra religião, e se expressa na violência física ou verbal e na discriminação em instituições de ensino, trabalho e serviços públicos. Sua consequência é a não aceitação do outro e a dificuldade para conviver em um ambiente democrático.    

Para intensificar a intolerância religiosa, surgem os protestantes, que integram uma das vertentes mais radicais da Reforma Religiosa, que, a partir de 1517, se espalhou pela Europa. Os protestantes estão divididos em muitas denominações, como luteranos, calvinistas e anglicanos. Algumas destas igrejas surgiram em função da reforma de práticas e costumes que se afastavam dos ensinamentos de Jesus Cristo e da Bíblia.

A intolerância individual, que se expressa no preconceito ou na hostilidade de uma única pessoa em relação a outra, é bem mais fácil de compreender, e a maior parte dos exemplos dados apresenta esse tipo de intolerância. Contudo, é importante ter em mente que a intolerância também pode ser institucional ou estrutural.

A primeira refere-se à discriminação que um determinado grupo religioso sofre em instituições, como no trabalho e na escola, e a segunda diz respeito à desvantagem que esse grupo encontra na sociedade como um todo, ou seja, à soma de discriminações que o grupo enfrenta em diferentes instituições.

Uma representação simples dessas formas de intolerância é o seguinte: a pessoa que insulta o colega de outra religião exerce uma hostilidade individual; a escola que não cuida de um ambiente respeitoso para todas as religiões está sendo intolerante em relação a um grupo religioso; e a sociedade que, no geral, não respeita a religião do colega está, no conjunto, sendo estruturalmente intolerante em relação a esse grupo religioso.

As guerras de religião que marcaram a Europa cristã por quase um século e os séculos de perseguição dos seguidores de outras religiões, como as religiões afro-brasileiras e o catolicismo, resultaram em uma forte mudança na reflexão acerca da relação entre religião e Estado. A laicidade, princípio que estabelece a separação entre a religião e a política, chegou a ser considerada pelos pensadores ocidentais como um necessário antídoto contra a intolerância religiosa.

Contudo, a quantidade de discriminação religiosa, preconceito e ódio nos últimos anos mostra que a laicidade não foi suficiente. Além disso, muitos estudiosos e políticos começaram a perceber que a laicidade, se não acompanhada pela tolerância, se transforma em indiferença religiosa ou até mesmo em hostilidade para com as comunidades religiosas.

A intolerância religiosa provoca medo em indivíduos e comunidades. A presença de uma religião em um país ou região pode gerar, entre os indivíduos que pertencem a outra religião, o desejo de afastamento, discriminação ou até mesmo perseguição. Como consequência do medo gerado, ocorre a migração de pessoas para outros lugares, bem como a diminuição da participação das vítimas nos cultos e a perda de direitos. O medo pode levar pessoas a não expressarem a sua religião de maneira aberta ou mesmo na sua privacidade. Nas situações de discriminação, a função do Estado deveria ser a de proteger as vítimas, mas muitas vezes o próprio Estado discrimina uma religião ou grupo.

Assim, a intolerância é um fenômeno complexo que não se resume à perseguição mais visceral. O Judiciário brasileiro, por exemplo, tem sido responsável por várias decisões que favorecem o culto e a expressão religiosa de maneira geral, mas não consegue evitar que as igrejas, cada vez mais presentes no espaço público, sejam frequentemente alvo de piadas, caricaturas e representações negativas. Estereótipos de moda e um humor que, no fundo, sempre tem como alvo as religiões.

Por Alberto Peixoto