Mais de 70 mil processos relacionados à violência contra a mulher foram identificados na Bahia em menos de quatro anos. O levantamento do Escavador reúne 70.608 registros públicos entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, envolvendo violência doméstica, violência psicológica e lesões, entre outros assuntos ligados à Lei Maria da Penha. No Brasil, foram encontrados 659.337 processos no período.
A Bahia concentra 10,7% dos registros nacionais e quase 40% dos identificados no Nordeste. Os números antecedem o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, neste sábado, 10, e colocam em discussão as dificuldades para denunciar agressões e garantir proteção às vítimas.
A pesquisa considera apenas processos públicos, classificados conforme os assuntos definidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com coleta em 28 de setembro. Como o sigilo e a classificação variam entre tribunais, os resultados não permitem apontar quais estados têm maior incidência de violência. Os processos também não equivalem necessariamente ao número de mulheres atingidas.
Ações
Para a advogada Dalila Pinheiro, coordenadora jurídica do Escavador, o volume de ações precisa ser observado junto às barreiras que impedem muitas vítimas de buscar ajuda.
“Muitas mulheres, por exemplo, podem ter medo de denunciar o agressor, receio de romper o vínculo familiar que envolve os filhos, ou até não saber onde buscar ajuda. Em outros casos, a vítima pode sofrer ameaças ou acreditar que a situação não vai mudar”, explica.
No país, o levantamento identificou cerca de 182 mil processos em 2023, 179 mil em 2024 e 168 mil em 2025. Neste ano, até 28 de setembro, foram aproximadamente 130 mil, uma média próxima de 480 por dia, ou um a cada três minutos.
A redução dos registros entre 2023 e 2025, contudo, não comprova uma diminuição da violência. Além das dificuldades para denunciar, os números dependem das informações disponíveis publicamente. Para Dalila, o enfrentamento exige medidas que alcancem as mulheres antes da chegada ao Judiciário.
“Esse cenário mostra que a violência contra a mulher ainda está muito presente na realidade brasileira e que o enfrentamento precisa acontecer antes que o caso chegue ao Judiciário, com informação para reconhecer os sinais de violência, apoio para que a vítima consiga romper o ciclo e uma rede preparada para acolher e proteger”, afirma.
Mobilização
A mobilização que deu origem ao 10 de outubro ocorreu em 1980, quando mulheres se reuniram nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo para protestar contra a violência e cobrar políticas públicas. Passados 46 anos, o acesso à informação, ao acolhimento e à proteção permanece no centro dessa luta.
Mulheres em situação de violência podem buscar orientação e registrar denúncias pelo Ligue 180, gratuito e disponível 24 horas por dia. Em casos de emergência ou risco imediato, o telefone é o 190, da Polícia Militar.