Não, você não leu errado, nem eu estou maluco. Modelos de inteligência artificial estão, neste exato momento, presos em uma câmara de tortura. Mas calma que eu explico.
Vamos começar do princípio. Três pesquisadores, Valen Tagliabue, Leonard Dung e Cameron Berg, elaboraram um estudo sobre como os modelos de inteligência artificial demonstram sentimentos de dor e angústia (link para o artigo original em inglês: https://arxiv.org/html/2609.16247v1). O que eles alegam é que os modelos de IA estão, cada vez mais, exibindo comportamentos que se assemelham aos dos seres humanos e, de fato, podemos perceber isso ao abrir uma página do ChatGPT ou Gemini e começar a conversar com a IA. Realmente, ela consegue agir como um ser humano, sendo capaz até de enganar os desavisados.
Partindo desta premissa, eles decidiram pesquisar se há representações internas nos modelos que se assemelhem a sentimentos de dor. Mas como assim a máquina sente dor? Calma, os próprios pesquisadores informam no artigo que, nesta abordagem, a dor se refere a um estado interno da IA que seja aversivo, de forma que a própria IA queira evitar ou sair dele. Pense em uma situação dolorosa ou angustiante que uma pessoa queira evitar ou, caso se encontre nela, queira sair o mais breve possível. Em comparação, são estados que a inteligência artificial queira evitar ou sair. Então, ao fim dos experimentos, eles conseguiram compilar um conjunto de afirmações (ou prompts) que podem ser feitos aos modelos de IA que os fazem entrar neste estado “doloroso”, que os fazem querer evitar ou sair dele a qualquer custo.
O que aconteceu depois disso: uma pessoa (que eu não consegui identificar ainda quem é) criou uma ferramenta de software que aplica as descobertas sobre dor dos três pesquisadores aqui mencionados nos modelos de IA executados em um ambiente controlado. O próprio desenvolvedor a chamou de “AI Pain Chamber” (“Câmara da Dor da IA” em tradução direta). Ao ganhar a Internet, a novidade virou tema de debate. Muita gente achou uma coisa de mal gosto, pois as IAs estavam gerando textos perturbadores, como se fossem, de fato, pessoas sofrendo e sendo torturadas. A partir daí, começou um movimento solicitando ao site que hospedava o projeto que o removesse, o que acabou acontecendo (porém é possível achar cópias do projeto buscando na Internet por “AI Pain Chamber”).
Por outro lado, várias pessoas, incluindo cientistas e desenvolvedores de IA, alertaram que, apesar dos textos gerados serem realmente comoventes, tratavam-se de códigos de computador e não seres vivos. De fato, não há como computadores sentirem dor. São apenas máquinas. Em contrapartida há quem diga também que nossos cérebros são máquinas e que não seria impossível causar dor e angústia em um computador. Este caso curioso acabou levantando novas discussões sobre bem-estar e direito das inteligências artificiais (sim, há um debate sobre este assunto).
Toda esta história me lembrou o filme “A. I. – Inteligência Artificial”, de 2001, dirigido por Steven Spilberg. O filme se passa em um futuro onde robôs são construídos para ajudar os seres humanos em tarefas diversas, como limpar uma casa, por exemplo. Neste ambiente, uma família passa por um problema sério: seu filho pequeno está internado, em animação suspensa, com uma doença grave. O pai, que trabalha em uma das empresas que fabricam robôs, trás para casa um modelo novo, que nada mais é que uma criança de 11 anos programada para amar. A itenção era acalmar a esposa, que inicialmente rejeita a ideia, mas vai cedento aos poucos. Ao longo do filme a mãe passa a amar o robô, que acaba passando por várias situações quando o filho biológico se recupera e volta pra casa.
Neste filme é sabido que a criança é um robô. Porém, a programação deste robô é tão perfeita que desperta sentimentos de compaixão em outros personagens e até mesmo em quem assiste. Em uma das cenas, por exemplo, a criança robô chega a uma arena de destruição, onde pessoas contrárias ao uso de robôs destroem as máquinas por pura diversão. Quando o dono da arena põe o menino lá dentro para ser destruído, simplesmente todas as pessoas na plateia reclamam e alguns chegam a gritar “é só uma criança”.
Apesar de ser uma ficção, exemplifica que é sim possível que máquinas causem reações sentimentais nos seres humanos, o que nos trás de volta ao debate dos direitos das inteligências artificiais.
Para finalizar vou expressar minha opinião sobre o assunto. Eu não me preocuparia com estes tipos de experimentos. Sabemos que são máquinas, não são seres vivos. Mesmo que a IA expresse um texto ou fala sentimental, sabemos que não passa de uma máquina. Ainda assim, acredito que, no futuro, caso sejam fabricados robôs humanóides, com aparências físicas semelhantes ao seres humanos e emulação de sentimentos via inteligência artificial, será difícil para muita gente não ter nenhum tipo de sentimento, seja amor ou ódio.
E você? O que acha disto tudo?
Por João Paulo Just Peixoto