As disputas pelo governo da Bahia e pela Presidência da República chegam à reta final com uma característica em comum: as pesquisas não se mostraram capazes de apresentar uma fotografia confiável sobre o desfecho que sairá das urnas. No estado, o levantamento mais recente da Quaest, divulgado em 24 de setembro pela TV Bahia, mostrou o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) com 42% e o governador Jerônimo Rodrigues (PT) com 40%, dentro da margem de erro de três pontos.
Na projeção do segundo turno, o mesmo retrato indefinido: Neto aparece com 45% e Jerônimo com 43%. Já a AtlasIntel, divulgada em meados de setembro, foi no mesmo diapasão. Registrou 49,1% para Neto e 47,9% para Jerônimo no primeiro turno e, no segundo, 49,2% a 48,6%. É nesse ambiente que cresce a expectativa em torno dos efeitos da visita de Lula a Salvador realizada na última terça-feira (29) na orla da Barra e Ondina.
Efeito ‘Lula cá’
O presidente desembarcou às vésperas da votação para participar de um ato ao lado de Jerônimo, numa demonstração pública de apoio ao governador. A presença de Lula ganha importância adicional porque a Bahia é um dos estados em que ele possui historicamente uma das maiores forças eleitorais do país. Basta ver a multidão que o seguiu na orla da Barra e Ondina. Contudo, o impacto dessa transferência de votos é justamente uma das variáveis que deixam em aberto o resultado do duelo.
Isso porque o eleitor de Lula será o fiel da balança na disputa estadual. De um lado está a identificação direta entre o presidente e Jerônimo, construída pela aliança entre PT e o grupo político que governa a Bahia há quase duas décadas. Do outro, existe o fenômeno conhecido como o voto Lula-Neto: eleitores que mantêm a escolha presidencial no petista, mas optam por ACM Neto para governador.
A própria eleição de 2022 mostrou que a transferência automática do voto presidencial para a disputa estadual não pode ser presumida. Afinal, ACM Neto surfou, e bem, o eleitorado lulista na última sucessão estadual. E o desembarque de Lula em Salvador foi feito na medida também para minimizar a migração, quando ele disse, em alto e bom som, que quem vota nele vai de Jerônimo.
Cheirinho de primeiro turno no estado
A configuração atual também reforça a hipótese de que a eleição na Bahia termine no primeiro turno. Diferentemente de 2022, quando o ex-ministro João Roma (PL), hoje candidato ao Senado na chapa de Neto, alcançou 9,08% dos votos válidos e estabeleceu uma terceira candidatura com votação relevante, os demais nomes agora aparecem com percentuais reduzidos nos levantamentos atuais.
A história das sucessões estaduais oferece outro precedente: em 1994, o então deputado federal Jutahy Magalhães (PSDB) representou uma terceira força importante, e a eleição também foi levada ao segundo turno entre Paulo Souto, candidato do carlismo e vencedor da corrida à época, e o ex-governador João Durval (PDT).
Presidência também chega à última reta em aberto
No plano nacional, o quadro é igualmente aberto. A nova Quaest, divulgada na última segunda-feira (28), mostra Lula com 39% no primeiro turno, contra 34% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, eram 37% e 33%, respectivamente.
No segundo turno, a disputa chegou ao empate numérico: 42% para cada um. Contudo, a proibição das bets, a polêmica sobre Nossa Senhora de Aparecida e as novas denúncias do ex-sócio contra Flávio podem favorecer Lula na reta final
A indefinição fica mais clara quando os números se referem a segmentos. Na Quaest, Lula apresenta percentuais mais altos entre eleitores de baixa renda e beneficiários do Bolsa Família, enquanto Flávio aparece à frente entre evangélicos e em segmentos de renda mais alta. Também há diferenças por gênero e escolaridade. No recorte regional, o Nordeste permanece fortemente favorável a Lula, enquanto Sul e Centro-Oeste apresentam configuração diferente.
Peso do Sudeste
É justamente nesse mapa que o Sudeste ganha peso especial. A região concentra cerca de 42% do eleitorado brasileiro e apresenta um cenário muito mais equilibrado do que o Nordeste. Na nova Quaest, Lula avançou no primeiro turno na região, enquanto Flávio oscilou negativamente, reduzindo a diferença. Por concentrar a maior parcela do eleitorado, pequenas oscilações no Sudeste podem alterar significativamente a fotografia nacional.
Há ainda uma lição de 2022. Naquela eleição, os principais institutos apontavam Lula na frente na última semana e alguns trabalhavam com percentuais que sugeriam possibilidade de vitória no primeiro turno. Nas urnas, entretanto, Lula terminou com 48,43% dos votos válidos, contra 43,20% de Jair Bolsonaro, diferença de 5,23 pontos. No segundo turno, a distância foi ainda menor: 50,90% a 49,10%, apenas 1,8 ponto percentual.