Bahia Tradição
Caruru de Cosme e Damião mantém viva tradição cultural e religiosa na Bahia
Tradição associada às religiões de matriz africana atravessa gerações, envolve famílias e também representa uma forma de acolhimento e integração da comunidade.
25/09/2026 14h24
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Caruru de São Cosme e Damião é tradição no mês de setembro na Bahia — Foto: Táta Ricardo

O mês de setembro é marcado, na Bahia, por uma tradição que reúne religiosidade, cultura, memória e convivência comunitária: o caruru de Cosme e Damião. Mantido por famílias ao longo de gerações, o costume envolve preparativos, ofertas de alimentos e, em muitas comunidades, a participação de crianças, especialmente no tradicional caruru dos sete meninos.

Para compreender a origem e o significado dessa manifestação, o historiador e professor Vicente Gualberto explica que o costume possui uma forte relação com as religiões de matriz africana e com o processo de formação cultural da Bahia. “É uma tradição tipicamente baiana. Nós não vemos essa manifestação em outros lugares da mesma forma. Ela está diretamente ligada à tradição das religiões de matriz africana, notadamente ao candomblé. É uma coisa muito nossa, baiana, especificamente da região do Recôncavo, que irradiou para o restante da Bahia e, a partir daqui, para outros lugares do Brasil”, explica.

Segundo o historiador, a tradição também está relacionada ao processo de sincretismo religioso ocorrido durante o período colonial brasileiro. Naquele contexto, o catolicismo romano era a religião oficial e manifestações religiosas de origem africana sofriam restrições e perseguições. “Durante o Brasil Colônia, havia uma religião oficial, que era o catolicismo romano. Tudo aquilo que fugia do que a Igreja considerava correto ou lícito podia ser punido. Em alguns casos, havia até a Santa Inquisição atuando no Brasil”, relata.

Nesse cenário, de acordo com Vicente Gualberto, práticas religiosas de origem africana encontraram formas de preservar seus cultos por meio de associações com elementos da tradição católica. “Para que essa tradição não chocasse com a religião oficial, criou-se uma forma sincrética, muito baiana, de associar uma entidade da tradição africana a uma tradição católica. Assim, você associa o caruru a Cosme e Damião”, explica.

O professor destaca ainda a relação existente entre Cosme e Damião e a tradição africana ligada aos Ibejis, associados à figura dos gêmeos. “Dentro da tradição de matriz africana, os Ibejis estão relacionados aos gêmeos. Existe uma cultura muito grande em relação a essa questão entre os povos que vieram da região da Nigéria para a Bahia e trouxeram essa tradição do candomblé”, afirma.

Segundo ele, a associação com os santos católicos possibilitou que determinadas práticas religiosas fossem preservadas ao longo do tempo. “Você cultuava os Ibejis, porém fora do radar da Igreja. Então encontrou uma forma sincrética, muito baiana, que é justamente associar essa entidade a uma tradição católica, como Cosme e Damião. Você associa o caruru a Cosme e Damião e, na realidade, está fazendo uma referência aos Ibejis”, explica.

A tradição, entretanto, acabou ultrapassando os limites dos terreiros e das religiões de matriz africana. Famílias católicas também passaram a realizar carurus, muitas vezes relacionados ao cumprimento de promessas. “Em famílias católicas, criou-se também o costume de se dar o caruru. Nossa tradição criou esse costume. A pessoa faz isso, muitas vezes, como se fosse algo natural, porque essa mistura faz parte da nossa religiosidade”, observa.

O historiador cita como exemplo outras manifestações culturais baianas que também foram incorporadas por pessoas de diferentes religiões. “Eu associaria o caruru à nossa tradição de vestir branco no primeiro dia do ano e colocar flores para Iemanjá. A pessoa faz isso como se fosse uma coisa natural. Isso é muito da nossa religiosidade, que mistura as coisas de uma maneira muito inocente e muito livre”, afirma.

Promessas e o caruru dos sete meninos

De acordo com Vicente Gualberto, também é comum que o caruru seja realizado como forma de agradecimento por uma graça alcançada. “Uma família católica pode dizer: ‘Fiz uma promessa para Cosme e Damião, recebi a graça e vou ofertar um caruru’. E, nesse caso, muitas vezes está ofertando aos Ibejis sem saber”, explica.

Uma das manifestações mais conhecidas é o chamado caruru dos sete meninos. Para o historiador, o número sete possui um significado simbólico e aparece em diferentes tradições religiosas. “O número sete é muito característico de muitas religiões, inclusive das religiões de matriz africana. Daí vem essa tradição de colocar sete crianças”, explica.

Ele ressalta, porém, que tanto o caruru quanto a tradição dos sete meninos são construções culturais desenvolvidas no Brasil. “Na África não existe caruru e também não existe essa tradição das sete crianças. Isso é uma coisa nossa, uma tradição criada aqui”, afirma.

Apesar de Cosme e Damião serem conhecidos como santos católicos e tradicionalmente representados como médicos, o professor destaca que a tradição popular baiana ganhou características próprias. “Eram dois médicos adultos, durante o período romano, que cuidavam das pessoas. A tradição do caruru, entretanto, ganhou aqui uma característica própria, relacionada às crianças e aos gêmeos”, explica.

Embora ainda esteja presente em diferentes comunidades, o caruru tradicional enfrenta mudanças e dificuldades para ser mantido. Segundo o professor, a transformação do perfil religioso das famílias brasileiras contribui para o enfraquecimento da prática entre os católicos. “Isso vem caindo. Nós sabemos que a sociedade brasileira é plural e está em um processo de modificação intenso. Dentro das famílias católicas, essa tradição está desaparecendo muito pelo avanço de outros credos de natureza evangélica”, avalia.

Para ele, o crescimento de diferentes denominações religiosas contribuiu para que algumas famílias que mantinham o costume deixassem de realizar o caruru. “Hoje nós temos um caldeirão imenso de credos que fogem ao ritmo católico, e muitas famílias que tinham a tradição de dar caruru não dão mais”, afirma.

Além da questão religiosa, há também um fator econômico. Realizar um caruru para várias pessoas exige uma estrutura que nem todas as famílias conseguem manter. “Não é uma festa barata. Você abre a sua casa e dá comida a quem chega. E nós sabemos que hoje está difícil, não está fácil. O tempo dos grandes carurus desapareceu”, destaca.

Apesar das dificuldades, Vicente Gualberto ressalta que a tradição não desapareceu completamente. “Não quer dizer que não exista. Você ainda tem pessoas que têm o prazer de abrir a casa e encher a casa para dar o caruru”, afirma.

A própria tradição dos sete meninos, segundo o historiador, encontra obstáculos nos dias atuais. Entre eles está a dificuldade de reunir crianças cujas famílias permitam a participação na celebração. “Existe a tradição dos sete meninos, mas está difícil fazer. Você tem que encontrar sete crianças cujos pais permitam que elas participem de um caruru”, observa.

Para Vicente, em cidades como Feira de Santana, essa prática se tornou ainda mais difícil de manter. “Em comunidades mais humildes, essa dificuldade pode ser menor, mas ela existe. Em Salvador, talvez seja mais fácil. Em Feira de Santana, eu posso dizer que é quase impossível”, afirma.

O historiador, que também vivenciou a tradição dentro da própria família, conta que sua mãe costumava realizar o caruru dos sete meninos como cumprimento de uma promessa. “Quando criança, eu sou de setembro, nasci no dia 18 de setembro, minha mãe tinha essa tradição de fazer um caruru de sete crianças. Não era um caruru gigantesco, mas era para manter uma promessa que ela tinha feito de sete meninos”, relata.

Com o passar dos anos, entretanto, a dificuldade de manter a prática fez com que a tradição fosse interrompida. “Em certo momento, eu continuei essa tradição, mas ficou muito difícil”, conta.

Mesmo diante das transformações, Vicente Gualberto considera importante preservar a manifestação como parte da identidade cultural baiana. “É uma coisa muito nossa, muito bonita, é única. É uma personificação dessa cultura única que nós temos, filha de um caldeirão cultural gigantesco, que é o brasileiro”, afirma.

Para o professor, a importância do caruru vai além da dimensão religiosa. A prática também representa acolhimento, convivência e integração entre as pessoas. “É muito triste ver a tradição desaparecendo. E é bonito, ao mesmo tempo, ver que pessoas, apesar de todas as dificuldades, continuam honrando essa coisa que, além de religiosa, é cultural”, destaca.

Ele lembra ainda que o caruru pode ser realizado também como uma manifestação cultural e comunitária, mesmo quando não há uma motivação religiosa. “Você pode dar um caruru em sua casa sem conotação religiosa nenhuma. Você abre a sua casa, é uma festividade, é uma forma de integrar a comunidade, é uma forma de acolher pessoas com caruru”, conclui.

Assim, entre promessas, religiosidade, culinária e convivência, o caruru de Cosme e Damião permanece como uma das manifestações que ajudam a contar a história da formação cultural da Bahia. Em Feira de Santana, famílias e comunidades que mantêm o costume contribuem para preservar uma tradição que atravessou gerações e que, para além da fé, representa memória e identidade cultural.