Feira de Santana Reforma
Sapateiros de Feira de Santana celebram reforma da praça e preservam tradição que atravessa gerações
Profissionais foram instalados provisoriamente no estacionamento durante as obras iniciadas pela Prefeitura; trabalhadores destacam importância do espaço para a continuidade de um ofício tradicional na cidade.
22/09/2026 13h15
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News

A reforma da Praça dos Sapateiros, no centro de Feira de Santana, foi iniciada pela Prefeitura Municipal no dia 14 de julho. Durante o período das obras, pouco mais de 20 profissionais que trabalham no local foram instalados provisoriamente no estacionamento, onde deverão permanecer nos próximos meses. Para quem vive diariamente da atividade, a intervenção representa não apenas uma mudança na estrutura física do espaço, mas também a possibilidade de preservar um ofício tradicional que faz parte da história comercial da cidade.

Entre os trabalhadores está Paulo Araújo Beirão, conhecido como Paulo Sapateiro. Ele conta que chegou a Feira de Santana na década de 1960 e construiu grande parte de sua trajetória profissional no local onde hoje funciona a Praça dos Sapateiros. “Eu cheguei aqui em 1963. Na época, a feira era aqui. Comprei um lugarzinho e fiquei trabalhando. Depois, o prefeito Zé Ronaldo me deu a permissão para trabalhar aqui”, relembrou.

Paulo Sapateiro - Foto: Boca de Forno News

Com décadas dedicadas à profissão, Paulo acompanhou as transformações do comércio e a chegada de novas tecnologias e produtos industrializados. Apesar das mudanças, segundo ele, a atividade continua tendo espaço entre os consumidores. “Não mudou nada. O que mudou é que agora o prefeito fez uma ligação com a gente e estamos na paz. Deus abençoou para que cada um possa trabalhar no seu lugar”, afirmou.

Para Paulo, a reforma representa uma conquista para os profissionais que dependem do espaço para trabalhar. Ele também destaca a importância do diálogo entre os trabalhadores e o poder público. “Graças a Deus que ele fez uma opção com a gente e tentou ajudar. E está ajudando, porque todo mundo vai ficar no seu lugar, trabalhando. Para mim é um conforto especial, uma lembrança que a gente tem do prefeito, do vereador, do deputado, de ver essas condições públicas”, declarou.

A história de Paulo também é marcada pelo aprendizado adquirido ao longo dos anos. Ele lembra que, quando começou na atividade, ainda não tinha experiência com os serviços realizados pelos profissionais da área. “Quando eu cheguei aqui, eu não sabia dar um prego no sapato. Aí fui procurando os colegas, conversando com eles e aprendendo. Graças a Deus, todo mundo aqui é sapateiro. Não tem um melhor do que o outro. Todo mundo é informado no sapato, mas existe dedicação ao trabalho”, contou.

Lenilson Santos - Foto: Boca de Forno News

Ao longo de mais de quatro décadas atuando diretamente com o ofício, Paulo também viu a profissão ser passada para pessoas mais jovens. Um exemplo é Lenilson Silva Santos, que trabalha com ele há quatro anos. Lenilson tinha 13 anos quando começou a se interessar pela profissão. Na época, morava em Salvador e posteriormente veio para Feira de Santana, onde conheceu Paulo. “É uma profissão que nem todo jovem quer. Eu tinha 13 anos de idade, quando morava em Salvador. Depois vim para Feira, conheci ele, e ele abriu as portas para mim, dando espaço para trabalhar. Estamos juntos há quatro anos”, relatou.

Segundo Lenilson, parte do aprendizado veio justamente da convivência diária com os profissionais mais experientes da praça. “Quando vim para cá, eu sabia poucas coisas. A maioria do que aprendi foi aqui com ele”, explicou.

Para o jovem sapateiro, continuar exercendo a atividade também significa contribuir para que a tradição não desapareça. “É importante manter a profissão viva, uma profissão antiga, a profissão de sapateiro. Espero que, daí por diante, ela siga sempre”, afirmou.

Carlos Júnior - Foto: Boca de Forno News

Outro profissional que encontrou na atividade uma forma de sustento foi Carlos Marcos Oliveira Júnior, conhecido como Binha Sapateiro. Filho de Paulo, ele também passou a trabalhar no local e aprendeu o ofício com o pai.

Antes de se tornar sapateiro, Binha trabalhava carregando mercadorias no centro da cidade. A proximidade com Paulo acabou abrindo caminho para que ele ingressasse na profissão. “Eu trabalhava no centro pegando carrego e pegava o carrego do seu Paulo. Nessa época, pedi a ele para trabalhar com ele. Lá no centro não estava dando muito certo e, nesse período, ele me deu a oportunidade. Fui aprendendo e hoje estou aqui”, contou.

A atividade, segundo Binha, continua sendo importante para o sustento dos trabalhadores que atuam na praça. “Aqui é onde a gente tira o pão de cada dia. Todos os dias. Não só eu, mas os amigos também. Dá para levar o pão para casa, faturar uma grana tranquila e viver também”, afirmou.

Com a reforma do espaço, a expectativa dos profissionais é de que as condições de trabalho sejam melhoradas. Binha lembra que algumas necessidades estruturais já foram atendidas. “Melhorou muito a questão dos banheiros, porque a gente tinha dificuldade, e também o ponto de luz. Essa modernização agora vai ficar legal”, avaliou.

O sapateiro também defende a união entre os profissionais e espera que a nova estrutura contribua para fortalecer a atividade. “Esperamos que a praça venha melhorar a cada dia e que a gente possa se unir mais. A gente precisa de união”, disse.

Tradição que resiste ao tempo

Mesmo com a industrialização dos calçados e as mudanças nos hábitos de consumo, os profissionais afirmam que o serviço de conserto continua sendo procurado em Feira de Santana. Para eles, a Praça dos Sapateiros representa mais do que um local de trabalho: é também um espaço de convivência, aprendizado e preservação de uma atividade que atravessa gerações.

Paulo Sapateiro, que passou décadas trabalhando no local, vê na presença dos mais jovens uma forma de garantir a continuidade do ofício. “Tem esse menino que já está comigo há quatro anos. Eu tenho que ajudar ele, tenho que fazer alguma coisa que ajude. Amanhã ou depois, ele também vai ter que ajudar outro”, afirmou.

A reforma, portanto, é acompanhada pelos trabalhadores como uma oportunidade de melhorar as condições de trabalho sem romper com a história construída no espaço ao longo dos anos. Entre ferramentas, couro, solas, linhas e máquinas, os sapateiros seguem mantendo viva uma atividade tradicional no centro de Feira de Santana.