Polícia Golpes
Golpes com IA: delegado alerta para novos riscos na biometria e ensina como se proteger
Delegado explica como criminosos usam inteligência artificial para burlar sistemas e aplicar golpes.
19/09/2026 08h08
Por: Karoliny Dias Fonte: A Tarde
Foto: Magnific

Durante muito tempo, bastava uma senha para proteger uma conta. Porém, ao longo dos anos, com o avanço das tecnologias, elas se mostraram insuficientes. Com isso, os códigos enviados via SMS, utilizados como forma de autenticação em dois fatores, e a biometria digital passaram a ser adotados.

Mais recentemente, o reconhecimento facial chegou para reforçar a segurança em diversas transações. E neste contexto, o que antes servia apenas para identificar uma pessoa, passou a funcionar também como uma espécie de chave de acesso.

O problema é que, com a mesma velocidade com que as instituições bancárias e as empresas passaram a reforçar seus mecanismos de segurança, os criminosos também encontraram novas formas de burlá-los.

Agora, o desafio tem um novo elemento: a inteligência artificial - conjunto de tecnologias que tem sido usado na prática de golpes com imagens de vítimas.

“É um golpe que existe há muito tempo, ele só está evoluindo. A biometria é uma etapa de segurança que o criminoso precisa passar. Eles fazem isso de diversas formas. Antigamente bastava ele ter uma foto sua e anexar. Nossos dados estão na rede, está tudo na internet, muito fácil o acesso”, explica o delegado Felipe Dias, titular da Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (CRCC).

Segundo o titular, diante das fraudes, as instituições passaram não mais aceitar qualquer fotografia e começaram a exigir que as capturas fossem feitas no ato do atendimento, por meio da câmera frontal, mediante vídeos. Ainda assim, não têm conseguido evitar que alguns clientes se tornem vítimas.

"A partir do momento em que você [bancos/ empresas] exige que o vídeo seja feito pela câmera frontal do telefone, aí já fica muito difícil o cara conseguir burlar. Mas, consegue. Ele pode criar um vídeo seu no computador e botar a câmera frontal de frente para o computador. Dá para fazer? Dá. Mas, assim, a segurança do banco já está ficando cada vez mais mais mais resistente", afirma o titular.

“Essa é a fase atual: a dos deepfakes [mídias criadas com IA que alteram ou geram rostos, vozes e vídeos para simular acontecimentos falsos como se fossem reais]. Nesse processo de gravação de vídeo, em que a pessoa precisa aproximar, afastar e virar o rosto para um lado e para o outro, eles conseguem fazer essa movimentação por meio da inteligência artificial. Hoje, está muito fácil utilizar IA para isso. Eles pegam o rosto de frente e simulam a pessoa olhando para um lado, para o outro, para cima e para baixo”, completa Dias.

Mudanças e adaptabilidade

O delegado explica que, se, por um lado, os bancos vêm investindo em medidas para evitar os golpes, por outro, os criminosos vêm se aperfeiçoando cada dia mais. "É uma briga dos dois lados. Da segurança dos bancos, principalmente instituição financeira, que perde muito dinheiro para fraude, aí tem que investir muito dinheiro na segurança, mas o criminoso também vai se se adaptando", aponta o titular.

Para Felipe Dias, o golpe nunca é praticado de forma isolada. Ele é elaborado e executado em etapas. O delegado explica que, embora os golpistas também ajam presencialmente, a maioria dos registros recebidos em sua unidade policial está relacionada a abordagens realizadas por meios digitais.

" Então, a gente pega um golpe muito comum, que é o golpe do falso gerente. Só que ele é um golpe preparatório para outros golpes. A pessoa recebe uma ligação de alguém se passando pelo seu gerente, que diz ter uma transação suspeita e tem que verificar, fazer prova de vida e atualização cadastral. Eles induzem a vítima a clicar em algum link ou a espelhar a tela do próprio telefone. E aí eles ligam em vídeo e a pessoa transmite a própria imagem", esclarece.

Cuidados para não se tornar vítima

Diante do aumento dos crimes cibernéticos, do aperfeiçoamento das fraudes e das possíveis vulnerabilidades tecnológicas, o titular faz um alerta e orienta a população sobre como se proteger.

"Primeiro, é nunca fornecer dado pessoal, tanto fisicamente, quanto de forma virtual. Se alguém está entrando em contato com você por algum motivo, se for realmente seu gerente, ela já tem o seu dado. Então, assim, nunca forneça dados pessoais, sua imagem acaba sendo um dado pessoal. Nenhum comércio eletrônico pede para tirar uma foto sua. É melhor ser mais prevenido e depois resolver qualquer outra coisa, do que acabar tendo os dados utilizados na criação de uma conta, criação de uma pessoa jurídica [CNPJ]", recomenda o delegado.

Ele também aconselha que, quando possível, as transações bancárias sejam realizadas por meio do Pix, pois, em caso de golpe, é mais fácil tentar recuperar o valor subtraído.

"Quando a pessoa é vítima de uma fraude, a primeira coisa que ela quer é bloquear e recuperar o dinheiro que perdeu. E para você recuperar o seu valor, a forma mais rápida é pela instituição bancária. Eu recomendo nunca fazer TED, DOC ou pagar boleto. Faça Pix. Precisa pagar alguma coisa? Pague por Pix. Por quê? O Banco Central tem uma ferramenta de bloqueio de valores e estorno, que é o MED [Mecanismo Especial de Devolução]”, complementa.

O delegado também explica que o MED é restrito às transações realizadas por Pix. Em operações feitas por outros meios, como TED ou boleto, a possibilidade de restituição dependerá da instituição financeira. E, neste contexto, ele destaca que, caso o banco não realize o estorno, o consumidor só poderá reaver os valores por meio judicial, caso seja constatado que houve falha nos mecanismos de segurança da instituição.

A outra via é através da investigação policial, no entanto, assim como na esfera judicial, demanda tempo.

"A polícia como uma unidade de investigação criminal, o foco dela, claro que faz parte da função dela. Mas, assim: o trabalho é diferente. Então vai recuperar o valor, vai ter que haver toda uma investigação de eletrônica, que é uma investigação por natureza demorada, demora aí meses e anos, às vezes", pontua o titular.

Importância do registro policial

Felipe Dias afirma que, embora existam vários meios de se apurar o crime, o registro do boletim de ocorrência é considerado importante. Além de formalizar o caso, a ocorrência vai reunir informações que podem auxiliar outras investigações.

"Por menor que seja a ocorrência, é interessante registrar. Porque ela vai fornecer um telefone que entrou em contato, fornecer um nome e aí isso vai gerando uma rede de inteligência. A gente vai identificando vários boletins que envolvam o mesmo telefone, o mesmo e-mail, a mesma chave Pix", finaliza o titular.