Enquanto a Prefeitura de Feira de Santana se prepara para realizar a revitalização da Lagoa Salgada, trabalhadores que atuam no local afirmam estar preocupados com o destino das atividades que garantem o sustento de suas famílias. Segundo os moradores, cerca de dez famílias trabalham com a compra, reforma e comercialização de paletes, além da reciclagem, e receberam um prazo de três dias para retirar os materiais armazenados na área. Sem outro espaço para onde levar os paletes, eles pedem que o município encontre uma alternativa e abra um canal de diálogo com os trabalhadores.
A equipe do Boca de Forno News esteve na Lagoa Salgada e conversou com trabalhadores que relataram as dificuldades enfrentadas diante da intervenção prevista para a região. Entre eles está Fernando da Pureza, conhecido popularmente como Dinho, que afirma ter nascido e crescido no local e ter uma ligação antiga com a atividade desenvolvida na área.
Segundo Dinho, a atividade com paletes já faz parte da realidade de sua família há muitos anos. Ele conta que, após a chegada de condomínios nas proximidades, os trabalhadores passaram a enfrentar reclamações relacionadas à fumaça e buscaram alternativas para continuar trabalhando. "A gente já nasceu e se criou aqui. Somos filhos do dono de olaria. Então, já temos olaria há muitos anos”.
De acordo com o trabalhador, diante das reclamações, o grupo procurou outra forma de sobrevivência e passou a atuar com paletes e reciclagem. "Depois que chegaram os condomínios, começou a reclamação deles, dizendo que a fumaça estava incomodando. E aí, para não ficar batendo de frente, a gente procurou outro meio de sobreviver”.
Dinho relata que os trabalhadores se reuniram e começaram a negociar a atividade com paletes. Segundo ele, posteriormente, a Prefeitura chegou ao local para determinar a retirada dos materiais.
Abordagem da Guarda Municipal
Durante a entrevista, Dinho também fez uma denúncia sobre a forma como, segundo ele, ocorreu a abordagem dos trabalhadores pela Guarda Municipal. Ele afirma que agentes chegaram ao local sob pressão e que um deles teria sacado uma arma durante a ação. "Chegou à Prefeitura agora, nesse momento, acabando com tudo”.
Questionado sobre a maneira como isso teria ocorrido, Dinho respondeu. "De arma na mão, dizendo que ia me prender. Arrastou o revólver. Todo mundo está de testemunha aí”. Ao ser perguntado se a situação envolveu a Guarda Municipal, ele confirmou. "Foi a Guarda Municipal. Chegou botando pressão”.
Ainda segundo o trabalhador, a intenção do grupo não é impedir a revitalização da Lagoa Salgada, mas encontrar uma alternativa para continuar exercendo suas atividades.
Prazo de três dias preocupa trabalhadores
Um dos principais problemas apontados pelos trabalhadores é o prazo estabelecido para a retirada dos paletes e demais materiais. Dinho afirma que a Prefeitura teria dado apenas três dias para que tudo fosse retirado da área. "Três dias. Três dias para tirar tudo”.
O trabalhador explica que o problema não é simplesmente retirar os materiais, mas não ter outro local para armazená-los e continuar trabalhando. "Como você ouviu, não tem como tirar. Não tem onde botar”.
Dinho defende que o município encontre um terreno ou espaço adequado para que a atividade possa continuar. "Eu sugeriria assim: que eles arrumassem um local ou afastassem um terreno para a gente colocar. Para a gente continuar nosso trabalho, nosso dia a dia, para ganhar o pão”.
Segundo ele, aproximadamente dez famílias dependem diretamente da atividade desenvolvida no local. "Tem mais de dez famílias”. Os trabalhadores afirmam que a atividade envolve não apenas a comercialização de paletes, mas também serviços de reforma, carregamento e reciclagem. "Do palete e reciclagem. Aqui é palete e reciclagem”.
Renda das famílias
Dinho explicou ainda como funciona a comercialização dos paletes. Segundo ele, os trabalhadores repassam os materiais para um atravessador, que posteriormente os vende para empresas. "Sempre tem um atravessador. A gente passa para o rapaz, e o rapaz vende para as empresas”.
Ele acrescenta que os trabalhadores também atuam na reforma dos paletes e no carregamento dos veículos. "A gente trabalha na área de reformar, carregar carro”. Durante a reportagem, outros trabalhadores presentes no local também relataram preocupação com a retirada dos materiais.
Alisson Santana Flores confirmou que trabalha com paletes e destacou a dificuldade diante do curto prazo estabelecido para a retirada. Segundo os trabalhadores, além do prazo reduzido, não existe atualmente um local definido para onde os materiais possam ser levados.
Trabalhadores pedem ajuda
Outra moradora ouvida pela reportagem, identificada como Gávea da Suriname, também afirmou trabalhar com paletes e reciclagem. Ela reforçou que os trabalhadores não têm outro espaço para continuar a atividade. "Trabalhamos aqui com o palete e a reciclagem. Então, nós não temos para onde ir. A gente tem que pedir ajuda para ver se eles fazem alguma coisa para ajudar a gente”.
Para ela, o principal pedido ao poder público é que seja apresentada uma solução que permita às famílias continuar trabalhando. "Dê uma solução para ajudar a gente, porque a gente não pode ficar sem trabalhar. A gente vive disso e tem nossas contas”.
A trabalhadora também chamou atenção para a responsabilidade de sustentar os filhos. "A gente tem criança. Como é que a gente vai dar comida às crianças? Como é que vai sobreviver?" A preocupação, segundo os relatos, não está apenas na retirada dos materiais, mas nas consequências econômicas que a interrupção da atividade pode provocar para as famílias que dependem dessa renda.
Grupo não é contra a revitalização da Lagoa
Apesar das dificuldades relatadas, Dinho fez questão de afirmar que os trabalhadores não são contrários ao projeto de revitalização da Lagoa Salgada. Questionado pela reportagem se o grupo é contra a revitalização, ele foi enfático. "De maneira alguma. De maneira alguma”.
Segundo ele, o que os trabalhadores reivindicam é uma alternativa que permita a continuidade da fonte de renda. "A gente quer uma solução que não deixe a gente desamparado”. O pedido, portanto, é para que a Prefeitura estabeleça um diálogo com os trabalhadores e encontre um espaço onde os paletes possam ser armazenados e a atividade possa continuar.
A situação exposta pelos trabalhadores coloca em discussão a necessidade de conciliar a revitalização da área com a preservação das condições de subsistência das famílias que atualmente dependem das atividades desenvolvidas no local.
Os moradores esperam que o município apresente uma solução antes da retirada dos materiais, evitando que as famílias fiquem sem espaço para trabalhar e, consequentemente, sem sua principal fonte de renda.