Polícia Investigação
“Armeiro” do Crime: entenda investigação contra cabo do Exército suspeito de abastecer facções na Bahia
Militar é investigado por supostamente desviar munições e granadas de treinamentos e negociar o material com integrantes do tráfico. Cabo já está preso por decisão da Justiça Militar.
14/09/2026 08h46 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: g1 Bahia
Áudios revelam cabo do Exército negociando munição de fuzil e granadas com o tráfico na Bahia — Foto: Reprodução/TV Globo

A investigação que apura um suposto esquema de fornecimento de armas e munições para facções criminosas na Bahia chegou a um cabo do Exército apontado como um dos fornecedores do grupo. O caso foi revelado pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (13).

O cabo Deivison dos Santos Ferreira, lotado no Sexto Batalhão de Polícia do Exército, em Salvador, é suspeito de negociar munições, granadas e armas com integrantes do tráfico de drogas. Segundo a investigação da Polícia Civil e do Ministério Público da Bahia (MP-BA), somente para um dos grupos criminosos ele teria vendido cerca de mil munições de fuzil.

O militar já estava preso antes da operação que levou à prisão de 33 suspeitos de integrar a organização criminosa investigada. Ele foi detido por determinação da Justiça Militar e é investigado também pelo desaparecimento de coletes balísticos.

Os advogados do cabo Deivison afirmaram ao Fantástico que ele nega todas as acusações. A defesa também informou que, no momento oportuno, todos os fatos serão esclarecidos e que trabalha para revogar as prisões.

Como o cabo entrou na mira da investigação?

A conexão entre o militar e integrantes do crime organizado foi descoberta a partir da análise de celulares apreendidos em uma operação realizada em abril, em uma casa usada para armazenar e preparar drogas no bairro de Itapuã, em Salvador.

Em um dos aparelhos, os investigadores encontraram conversas atribuídas ao cabo Deivison. Nas mensagens, ele teria oferecido materiais de uso restrito e armamentos a criminosos.

O telefone pertencia a Gabriel Reis Oliveira, apontado pela polícia como responsável pela compra e revenda de armas e drogas para diferentes facções. Segundo a investigação, era ele quem negociava diretamente com o militar.

Inicialmente, Deivison usava apenas um emoji para se identificar nas conversas. No entanto, em meio às negociações, teria enviado dados pessoais, como CPF e uma chave Pix. As informações ajudaram os investigadores a confirmar a identidade do interlocutor.

O que o militar teria vendido?

Investigação aponta que cabo do Exército fornecia armamentos e munições para facções criminosas — Foto: Reprodução/TV Globo

De acordo com a Polícia Civil, o cabo teria negociado cerca de mil munições de fuzil dos calibres 5.56 e 7.62 com um dos grupos criminosos investigados.

Também foram identificadas conversas sobre a negociação de granadas. A quantidade que teria sido desviada ainda não foi determinada pelos investigadores.

As apurações também encontraram mensagens nas quais o militar oferecia pistolas e fuzis a integrantes da organização criminosa. Neste caso, porém, ainda não há confirmação de que as armas tenham sido desviadas do Exército.

Como teria funcionado o suposto desvio?

Investigação aponta que cabo do Exército fornecia armamentos e munições para facções criminosas — Foto: Reprodução/TV Globo

Uma das principais linhas da investigação é a de que parte das munições e granadas teria sido desviada durante treinamentos militares.

A suspeita é de que materiais utilizados nos exercícios que deveriam retornar ao paiol da unidade não teriam sido devolvidos ao estoque oficial.

Os investigadores também apuram a possibilidade de que registros de controle tenham sido alterados para esconder diferenças entre a quantidade de material registrada e o estoque efetivamente existente.

Em mensagens analisadas pela polícia, o cabo teria mencionado treinamentos realizados em Paulo Afonso, no norte da Bahia, e indicado que poderia conseguir mais material depois de uma dessas atividades.

Cabo já estava preso quando operação foi deflagrada

Áudios revelam cabo do Exército negociando munição de fuzil e granadas com o tráfico na Bahia — Foto: Reprodução/TV Globo

Uma operação realizada nesta semana, com participação de cerca de 250 agentes, prendeu 33 pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa investigada.

Foram 27 prisões em Salvador e na região metropolitana, duas no interior da Bahia, três em Sergipe e uma em São Paulo.

Entre os alvos estava o cabo Deivison. No entanto, ele já estava preso desde o mês anterior por determinação da Justiça Militar.

Em nota ao Fantástico, o Comando da Sexta Região Militar informou que o militar está preso preventivamente em uma investigação relacionada ao desaparecimento de coletes balísticos. Segundo o Exército, ele continuará custodiado em uma unidade militar e à disposição da Justiça.

Outros militares podem estar envolvidos?

Essa é uma das questões que ainda estão sendo investigadas. Durante a análise das conversas, os investigadores encontraram referências feitas pelo cabo a outras pessoas que poderiam estar envolvidas no fornecimento de granadas e munições.

A Polícia Civil, no entanto, afirma que ainda é cedo para afirmar que outros militares participavam do suposto esquema. A possibilidade não foi descartada e continua sendo apurada.

Além de identificar eventuais outros envolvidos, a investigação busca esclarecer a origem de todo o material negociado pelo cabo e descobrir exatamente como os armamentos e munições teriam saído do controle oficial.