Cinquenta e sete municípios baianos tinham, em agosto, mais de 80% da área agropecuária potencialmente afetada pela seca, de acordo com monitoramento divulgado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Outros 17 municípios tinham entre 60% e 80% de suas áreas agropecuárias afetadas, enquanto, em 21 municípios, o percentual variava de 40% a 60%. O cenário já se reflete nas lavouras de milho e feijão, com perdas de produtividade e redução do potencial produtivo em diferentes áreas do estado.
O pesquisador do Cemaden na área de secas, Marcelo Zeri, explica que o quadro mais crítico está concentrado principalmente no norte, oeste e leste da Bahia. “O Índice Integrado de Secas mostra condições mais críticas de seca, de moderada a severa, na região oeste da Bahia, próximo da região do Matopiba. Adicionalmente, seca severa a moderada tem impactado a região leste, próximo a Feira de Santana”, afirma. Ele acrescenta que as perdas já observadas nas lavouras de milho e feijão provavelmente estão associadas às condições de seca registradas nos últimos meses.
A preocupação aumenta com a intensificação do El Niño. Boletim divulgado pelo painel formado por órgãos como Cemaden, Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) aponta probabilidade superior a 90% de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro, período em que também são previstas chuvas abaixo da média no Nordeste.
Marcelo afirma que os efeitos mais intensos ainda são esperados e podem atingir especialmente o Norte e o Nordeste. “A situação de seca atual no Centro-Oeste e Nordeste preocupa, já que essas regiões acabam partindo de condições críticas antes de o El Niño começar a impactar de fato”, explica. O pesquisador destaca que um eventual atraso no início da estação chuvosa pode adiar o calendário de plantio ou provocar perdas em áreas que já tenham sido cultivadas.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ressalta que a restrição hídrica prejudicou o desenvolvimento das plantas, provocando problemas na floração e na formação das espigas, o que levou produtores a mudar a destinação de parte das lavouras. “Parte das lavouras inicialmente destinada à colheita de grãos foi direcionada à produção de silagem. Em situações mais severas houve perda total e utilização da área para pastejo direto”, destacou a Conab. A companhia ressalta que novas perdas ainda podem ocorrer caso a restrição hídrica persista, principalmente nas áreas que permanecem em floração e enchimento de grãos.
Entre os agricultores familiares, os efeitos da estiagem vão além das perdas nas lavouras. A irregularidade das chuvas tem provocado atraso no desenvolvimento das culturas, redução da produtividade e perdas parciais de áreas plantadas, além de diminuir a disponibilidade de pastagens e forragens para os rebanhos. Com a produção menor, também cresce o risco de redução dos alimentos destinados ao consumo das próprias famílias e à comercialização, com reflexos sobre a renda e os recursos investidos no plantio.
Tâmara Andressa Pires Cedro, engenheira agrônoma da Superintendência Baiana de Assistência Técnica e Extensão Rural (Bahiater), explica que os produtores têm recorrido a diferentes estratégias para reduzir os prejuízos. “Entre as principais recomendações estão o ajuste do calendário de plantio às condições climáticas, a utilização de sementes e variedades mais adaptadas à seca, a diversificação das culturas, a adoção de práticas de conservação da umidade do solo, o uso eficiente da água disponível e o fortalecimento das estruturas de captação e armazenamento de água”, afirma.
Para os próximos meses, a orientação é evitar novos plantios ou investimentos sem considerar as condições climáticas de cada região. “A recomendação central é de planejamento e cautela, com decisões produtivas tomadas a partir das condições de cada território e da orientação dos técnicos de Ater, buscando preservar os sistemas produtivos, a renda e a segurança alimentar das famílias”, destaca Tâmara.