Feira de Santana Direitos trabalhista
Ex-funcionários da Princesinha e 18 de Setembro realizam 5ª Passeata do Calote em Feira de Santana
Trabalhadores cobram, há 11 anos, o pagamento de direitos trabalhistas e criticam omissão da Prefeitura e do sindicato durante o processo.
04/09/2026 15h04 Atualizada há 3 horas atrás
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News

Ex-funcionários das empresas de transporte coletivo Princesinha e 18 de Setembro realizaram, nesta sexta-feira (4), a quinta edição da chamada Passeata do Calote, em Feira de Santana. A manifestação aconteceu nas proximidades do Terminal Central e reúne trabalhadores que afirmam estar há 11 anos à espera do pagamento de direitos trabalhistas reconhecidos judicialmente.

De acordo com Renato Bispo, representante do grupo de ex-funcionários, a manifestação é mais uma tentativa de chamar a atenção para uma situação que, segundo ele, se arrasta há mais de uma década sem uma solução definitiva. “Hoje a gente está na quinta passeata, na nossa quinta manifestação, vindo para a rua lutar por um direito ganho e adquirido há 11 anos. São 11 anos que a gente vem lutando contra esse abandono. Onze anos de calote e em busca de resultados. A gente quer receber aquilo que nós temos direito”, afirmou.

Segundo Renato, apesar dos anos de mobilização e das decisões judiciais favoráveis aos trabalhadores, pouco teria avançado na efetivação dos pagamentos. Ele relata que os processos foram reativados ou ainda estão em processo de reativação, mas os trabalhadores continuam enfrentando dificuldades para localizar bens e responsáveis pelo pagamento. “Até o momento, nada. É como o sindicato fala, como o presidente do sindicato sempre diz: que eles estão correndo atrás, que não acham bens, que não acham sócios. É uma verdade, sim, não se acha nada. Mas o que maltrata a gente aqui é que o próprio sindicato e a própria Prefeitura foram omissos no fato de terem permitido a troca, a substituição de sócios”, declarou.

O ex-funcionário questiona ainda a transferência da frota e as mudanças societárias ocorridas ao longo do processo. Para ele, essas alterações contribuíram para dificultar a localização de patrimônio que pudesse ser utilizado para quitar as dívidas trabalhistas. “Por que permitiu? Porque fez a transferência da frota. Agora é chegar para declarar que aqui não encontra nada. É muito fácil, é muito simples. Mas por que trocou o sócio?”, questionou.

Renato também afirmou que os trabalhadores têm conhecimento de que o proprietário da empresa seria um empresário com grande patrimônio. “A gente sabe que o dono da empresa de verdade é um cara muito rico. A gente sabe que é um empresário a nível nacional. Não era para a gente estar passando por isso aqui”, disse.

Durante a manifestação, os trabalhadores também direcionaram críticas à Prefeitura de Feira de Santana e ao sindicato da categoria. Renato defende que o poder público deveria assumir responsabilidade pelo que considera falhas na condução do processo envolvendo o transporte coletivo e os trabalhadores. “Nós aqui queremos lançar a culpabilidade de tudo isso que a gente está passando. A culpa nós sabemos de quem é. A Prefeitura tem que assumir a culpa dela, porque ela permitiu, foi omissa, e o sindicato mais omisso ainda. Sindicato fechou os olhos para tudo”, afirmou.

Mesmo após 11 anos, Renato garante que os trabalhadores continuam acreditando que poderão receber os valores reconhecidos como devidos. “É como diz o velho ditado: a esperança é a última que morre. Enquanto nós temos direitos, a gente vai lutar por eles. A gente tem esperança, sim, de receber. Eu não sei quem vai pagar, mas a gente pretende receber esse valor. Nós cremos que vamos receber”, declarou.

Renato Bispo - Foto: Boca de Forno News

A demora na solução do caso, segundo Renato, atinge não apenas os trabalhadores que participaram diretamente da paralisação do transporte, mas também seus familiares. Ele estima que aproximadamente 1,1 mil famílias ainda estejam sem receber os valores. “Dizem que cerca de 80 a 100 pessoas já receberam. Foram 1.200 famílias que ficaram sem receber nada. Hoje, vamos dizer que cerca de 1.100 famílias estão sem receber esse valor”, relatou.

O representante dos trabalhadores destaca que, durante os 11 anos de espera, muitas pessoas que tinham direito aos valores morreram sem receber. Entre os afetados, segundo ele, estão viúvas, idosos e pessoas que já não possuem condições de trabalhar. “São pessoas que já morreram. Tem muitas viúvas aqui. Tem muita pessoa idosa que está sem condição de trabalho, passando necessidade. Tem muita gente aqui que está amargando a necessidade”, afirmou.

Questionado sobre a situação jurídica dos trabalhadores, Renato afirma que existem decisões favoráveis e que os processos estão sendo movimentados novamente. “São os nossos ganhos. Nós ganhamos os nossos processos. Os nossos processos estão parados. A gente precisa reativar, já estamos reativando, já reativamos nossos processos, mas, como é o velho discurso disso, não achou nada dos sócios. Então a gente está lutando mesmo para rever isso aí”, explicou.

Para os trabalhadores, o reconhecimento judicial do direito não foi suficiente para solucionar o problema. A principal reivindicação agora é transformar as decisões favoráveis em pagamento efetivo.

“A cidade dormiu com transporte e acordou sem transporte”

Renato também relembrou o dia em que a população de Feira de Santana foi surpreendida pela interrupção do transporte coletivo. Segundo ele, os trabalhadores chegaram às garagens para iniciar a jornada e encontraram os portões fechados.

“Eu saí para trabalhar. Eu trabalhava, chegava na garagem às cinco horas da manhã. Ao chegar às cinco horas da manhã daquele dia 16 de agosto, chegar na garagem e saber que a garagem está fechada. Você não vai, não vai ter carro, não tem combustível. A gente parou. Foi isso. A gente tomou um susto. Todo mundo se juntou sem saber o que realmente estava acontecendo”, relembrou.

Segundo Renato, naquele momento, os trabalhadores receberam do sindicato a promessa de que existiria uma espécie de reserva financeira que garantiria algum tipo de pagamento posteriormente.

“E disso aí, o que foi prometido? Sindicato também bota o sindicato nessa aí, porque o sindicato chegou com a promessa de poupança. ‘Gente, olha, não tem nada, mas é uma poupança que vocês têm, é uma coisa que no futuro vocês vão receber’. Que futuro é esse? Onze anos. Que futuro é esse? Tanta gente já morreu”, criticou.

A passagem do tempo também é apontada por Renato como um dos principais fatores de indignação entre os ex-funcionários.

“Eu estou cheio de cabelo branco. Eu vou esperar mais o quê? Quantos anos eu vou esperar mais? Quanto, quantos anos os colegas aqui vão esperar? A gente não pode esperar mais 11 anos. Faz falta. Está fazendo muita falta esse valor que nós temos”, declarou.

Trabalhadores questionam atuação do sindicato

Renato também fez duras críticas à atuação do sindicato na defesa dos ex-funcionários. Segundo ele, os trabalhadores não se sentem devidamente representados pela entidade e precisam cobrar diretamente providências.

“Rapaz, o sindicato está numa posição confortável, né? Graças a Deus estão bem lá. São todos empresários. Então eles não têm representação da gente, não têm representação de tipo nenhum. A gente que vai, a gente cobra, a gente cutuca, mas posição deles nenhuma. É zero”, afirmou.

A quinta edição da Passeata do Calote, segundo os trabalhadores, representa a continuidade de uma mobilização que já dura mais de uma década. O grupo afirma que continuará realizando manifestações enquanto os direitos reconhecidos judicialmente não forem efetivamente pagos.