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Caravana Verger leva fotografias históricas e cultura popular à Praça do Lambe-Lambe em Feira de Santana
Exposição da Fundação Pierre Verger reúne registros da cultura nordestina e reforça a importância da fotografia na preservação da memória; mostra segue até domingo (6).
02/09/2026 15h41
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Foto: Boca de Forno News

A Caravana Verger está movimentando a Praça do Lambe-Lambe, em Feira de Santana, com uma exposição que reúne fotografias históricas ligadas à cultura popular nordestina e aos caminhos percorridos pelo fotógrafo e antropólogo francês Pierre Verger pelo Brasil. A iniciativa é realizada pela Fundação Pierre Verger e busca aproximar o público de registros que ajudam a preservar a memória, os costumes e os modos de vida de diferentes comunidades.

Uma das responsáveis pela exposição, Débora Almeida, explica que a Caravana Verger foi criada com o propósito de levar essas imagens para diferentes lugares, permitindo que as pessoas tenham contato com registros históricos e, ao mesmo tempo, reconheçam elementos presentes em suas próprias trajetórias. “O principal objetivo é trazer imagens que reflitam a cultura popular e a sua história. A história da cultura popular, dos movimentos, das pessoas, sobretudo nos largos, não é de hoje. É de muito lá atrás”, destacou.

Segundo Débora, a trajetória de Pierre Verger tem uma relação direta com os locais representados na exposição. Francês, Verger chegou ao Brasil e percorreu diferentes cidades, registrando manifestações culturais, pessoas e cenas do cotidiano. “Ele desembarcou aqui no Brasil, era parisiense, chegou aqui e fez esses trânsitos todos por essas cidades que estão aqui na exposição. Ele passou por Recife, Caruaru, Canudos, Feira de Santana. Temos aqui duas obras que foram curadas pela Fundação Pierre Verger”, explicou.

A relação do fotógrafo com o Brasil ultrapassou o simples ato de registrar imagens. Verger se envolveu com as comunidades e buscou compreender de perto os costumes e as manifestações culturais. “Ele se apaixonou pelo Brasil e, sobretudo, por Salvador, pelos fazeres, pelas manualidades, pela vida cotidiana das pessoas na rua. Isso mobilizou muito ele efetivamente”, afirmou Débora.

A escolha de Feira de Santana para receber a exposição também está relacionada à própria história da cidade. Conhecida como um importante ponto de passagem e encontro de pessoas, Feira reúne características que dialogam diretamente com a trajetória de Verger. “Além de ele ter passado por aqui e feito registros de Campo do Gado, Feira de Santana é uma cidade conhecida por trânsito. Aqui cotidianamente atravessam pessoas de diversos locais, inclusive de outros países”, explicou Débora.

Débora Almeida - Foto: Boca de Forno News

Para ela, a cidade representa justamente esse cruzamento de caminhos, não apenas pelo fluxo de pessoas, mas também pelas relações construídas ao longo do tempo. “Além de ser o maior entroncamento rodoviário do Norte e Nordeste, o trânsito de pessoas no centro da cidade é muito grande. E o trânsito de afetos também acontece nesse palco”, ressaltou.

Nesse contexto, a Praça do Lambe-Lambe foi considerada um espaço emblemático para receber a exposição. O local possui uma relação histórica com a fotografia em Feira de Santana e mantém a presença de profissionais que atuam há décadas na área. “A Praça do Lambe-Lambe é muito emblemática por isso. Além dos fotógrafos que trabalham aqui há décadas, tem a feira livre acontecendo próximo, tem um centro comercial. Então, uma coisa conecta com alguém, uma coisa conecta outros caminhos que levam a Feira de Santana”, afirmou.

As imagens apresentadas na exposição possuem forte relação com a cultura popular. De acordo com Débora, Pierre Verger não se limitava a observar as pessoas à distância. O fotógrafo buscava proximidade e convivência. “Ele buscava proximidade e contato, porque não se satisfazia em só observar e fotografar. Ele imergiu na cultura popular, convivia cotidianamente com as pessoas. Ele chegava com a sua câmera e se aproximava”, contou.

Essa proximidade pode ser percebida em diversas fotografias, nas quais as pessoas retratadas aparecem olhando diretamente para a câmera. “É visível em muitas fotos na exposição que boa parte das pessoas olha diretamente para a câmera. Há esse contato visível, que traz uma sensação de proximidade quando você está acompanhando a exposição e você se sente observado também”, explicou.

Mesmo com apenas duas imagens diretamente relacionadas a Feira de Santana, a exposição consegue estabelecer uma conexão com a memória dos moradores da cidade. “Feira de Santana aparece na exposição com duas imagens, que representam a ancestralidade rural, sertaneja. A figura do vaqueiro, do tropeiro. Antes, tipo em trânsito; hoje, tipo em residência. Essa figura é muito forte e não pode ser esquecida”, destacou Débora.

Ela também ressalta que manifestações presentes em outras fotografias podem despertar lembranças nos feirenses. “Apesar de termos apenas duas fotos de Feira de Santana, muitas das fotos trazem memórias afetivas da cidade. Quando você fala de capoeira, quando você fala de religiões de matriz africana, quando você fala de manualidades, do artesanato, você também traz memórias que são comuns a vários locais”, afirmou.

Caravana percorre diferentes cidades

Foto: Boca de Forno News

A Caravana Verger começou em Salvador, onde funciona a Fundação Pierre Verger, espaço dedicado à preservação da memória do fotógrafo e à realização de atividades culturais.

De acordo com Débora Almeida, a exposição já passou pelo Subúrbio Ferroviário de Salvador e por Cachoeira, durante a Festa da Boa Morte. Depois de Feira de Santana, a programação seguirá para outras localidades. “Ela começou em Salvador, onde funciona a Fundação Pierre Verger, que é um espaço de preservação da memória do fotógrafo e também uma fundação onde acontecem oficinas, apresentações e exposições”, explicou.

A mostra também passou pelo Acervo da Laje, espaço dedicado à preservação da cultura e da memória periférica em Salvador. “Começou lá, foi para Cachoeira, na Festa da Boa Morte, veio para cá, vai para Lagoinha, daqui vai entrar para Alagoas, volta para a Bahia e o destino final é Brasília”, informou.

Em Feira de Santana, a exposição permanece aberta ao público até este domingo, dia 6 de setembro, na Praça do Lambe-Lambe.

Para Débora, mais do que apresentar fotografias antigas, a proposta é fazer com que o público pare por alguns minutos e reconheça, nas imagens, elementos da própria história. “Trazer essa exposição para cá é uma forma também de trazer a conexão afetiva dos moradores da cidade com essa praça. Muita gente passa aqui e passa rápido. Quando essas fotos estão aqui nessa praça, elas convidam as pessoas a parar um pouco, que seja para observar, lembrar um pouco da sua história, de cada cidade”, concluiu.

Praça do Lambe-Lambe 

José Alves - Foto: Boca de Forno News

A realização da exposição na Praça do Lambe-Lambe também chama atenção para os fotógrafos que ajudaram a construir a história da cidade. Entre eles está José Alves, que trabalha no local há 52 anos.

Aos 74 anos, José Alves conta que chegou do sertão e construiu praticamente toda a sua trajetória profissional ligada à fotografia em Feira de Santana. “Estou completando 52 anos. Eu vim do sertão e, aos 74 anos, graças a Deus, esse tempo todo minha vida toda foi aqui no Lambe-Lambe”, contou.

A paixão pela fotografia começou ainda na juventude. José lembra que teve o primeiro contato mais significativo com uma câmera durante o período do alistamento militar, quando precisou tirar uma fotografia em preto e branco para documentação. “Foi quando eu vi a fotografia na época do alistamento. Eu não conhecia a fotografia, via a máquina, mas não sabia qual era o significado dela. Até no alistamento foi que eu caí na real da foto preta e branca, na hora para documento”, relatou.

O episódio despertou uma paixão que mudaria completamente sua vida. “Foi aí que me inspirei. Eu abandonei cavalo, gado, tudo logo imediato. No dia que me alistei, comprei logo a máquina escondido do meu pai e vim simbora”, lembrou.

Ao longo de mais de cinco décadas, José acompanhou as transformações da fotografia e também atuou como repórter fotográfico. Ele passou pelo jornal Feira Hoje e pela revista Panorama, antes de seguir carreira independente. “Realmente mudou muita coisa, porque hoje, graças a Deus, tudo que eu tenho, tudo, tudo foi através da fotografia. Fotografia profissional, eventos, casamentos e jornalismo. Foi quando eu saí do Lambe-Lambe e fui para o jornalismo, repórter fotográfico da revista Panorama”, afirmou.

Segundo José, a fotografia também o levou a registrar personagens importantes da história de Feira de Santana. “Eu tenho algumas histórias. Uma delas, muitas fotografias que eu tirei de personagens como Tico Pinto, Zé Falcão, Oscar Marques, Cobé Martins. Cheguei a tirar foto deles três por quatro para documento”, contou.

Para o fotógrafo, a presença da exposição na Praça do Lambe-Lambe representa também uma oportunidade de aproximar as novas gerações da fotografia tradicional. “A importância dessa exposição é principalmente a foto preta e branca, que a juventude hoje não conhece mais. A foto preta e branca ainda é a riqueza da fotografia, seja ela três por quatro, vinte por vinte e cinco, o que for. A foto preta e branca ainda chama atenção da cultura”, destacou.

Além das fotografias feitas na Praça do Lambe-Lambe, José Alves também carrega na memória episódios marcantes vividos durante a atuação como repórter fotográfico.

Um dos momentos lembrados por ele foi a cobertura de uma ocorrência em um presídio durante o período junino. “Do açude ao presídio, para mim foi o maior São João e o maior medo. Foi naquele dia que eu achava que não ia voltar para casa, mas, graças a Deus, estava na mão de Deus e deu tudo certo”, relatou.

Outro episódio que marcou profundamente sua trajetória profissional foi a cobertura do sequestro de Leonardo Parelha, ocorrido no Hotel Samburá, em Feira de Santana. “Na época, aquilo comoveu Feira de Santana e a Bahia toda. Leonardo Parelha, no Hotel Samburá. Naquele dia eu fiquei de plantão à noite, eu e Washington Nery, revezando um com o outro para pegar os melhores momentos de quando ele saía com a menina e a arma apontada”, contou.

Segundo José, aquela cobertura permanece como uma das histórias mais marcantes de sua carreira. “Para mim foi uma das histórias mais marcantes na minha profissão de jornalismo, de repórter fotográfico. Foi aquele dia desse sequestro de Leonardo Parelha”, afirmou.

Acolhimento e cultura brasileira

Elder Vogelsberg - Foto: Boca de Forno News

A exposição também despertou a atenção de visitantes que passaram pela Praça do Lambe-Lambe. Entre eles está Elder Vogelsberg, norte-americano que acompanha a mostra durante sua passagem por Feira de Santana.

Mesmo sem conhecer anteriormente o trabalho de Pierre Verger, Elder disse ter se interessado pelas histórias contidas nas fotografias. “Eu gostei muito da história que tem aqui. Todas as imagens são muito boas”, afirmou.

Entre as fotografias que chamaram sua atenção inicialmente, ele destacou uma imagem relacionada a uma igreja católica. “Gostei muito da igreja católica. Acho que tem uma história muito importante ali”, comentou.

Elder também destacou a experiência de conhecer a cultura brasileira e o acolhimento encontrado durante sua passagem pelo país. “A cultura aqui é muito boa. As pessoas são muito amigáveis e ajudam a gente se tiver problemas. É muito legal”, disse.

O visitante contou ainda que está no Brasil como missionário e que tem se identificado com a forma como as pessoas se relacionam. “Estamos aqui há um ano como missionários e gostamos muito do povo daqui. É um povo que pode abraçar a tudo isso. É uma história linda”, afirmou.