Feira de Santana deixou de figurar entre as dez cidades mais violentas da Bahia, em um cenário marcado pela redução dos índices de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs). O resultado é apontado pelo coordenador regional da Polícia Civil, Yves Correia, como fruto de um trabalho integrado entre as diferentes forças de segurança que atuam no município e na região.
Segundo o coordenador, a redução da violência deve ser comemorada, mas sem que as forças de segurança percam o foco ou diminuam o ritmo das ações. Para ele, os números positivos são consequência de um trabalho contínuo envolvendo Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e guardas municipais. “Sem dúvidas, o trabalho da Polícia Civil é logicamente realizado em conjunto com a Polícia Militar, Polícia Federal, PRF, guardas municipais. Ninguém faz nada absolutamente sozinho”, destacou Yves Correia.
O coordenador ressaltou que a queda dos índices de violência vem sendo observada de forma progressiva e que Feira de Santana apresentou, em 2025, uma das reduções mais expressivas dos últimos anos.
De acordo com Yves, a cidade registrou uma redução superior a 30% nos índices de CVLIs em 2025, resultado que, segundo ele, não era alcançado havia quase duas décadas. “Nós temos uma redução excepcional, incrível em 2025. Vocês acompanharam da imprensa, uma redução de mais de 30%. Uma redução que não ocorria aí há mais de 19 anos”, afirmou.
Para o coordenador, o resultado alcançado no ano passado também serve como referência para o trabalho desenvolvido atualmente. Segundo ele, no primeiro semestre deste ano, Feira de Santana conseguiu manter a tendência de queda, reduzindo ainda mais os índices em relação ao resultado já positivo registrado em 2025. “Então, nesse primeiro semestre, vemos a redução da redução, ou seja, a redução desse recorde que foi o ano passado. É importante que a gente siga nesse trabalho consistente para que Feira de Santana consiga cada vez mais ter dias melhores”, explicou.
Yves Correia enfatizou que a segurança pública depende da atuação conjunta das instituições. Segundo ele, o combate à criminalidade não pode ser atribuído a uma única força policial, já que diferentes órgãos desempenham funções complementares na prevenção, investigação e repressão aos crimes. Nesse contexto, a Polícia Civil atua especialmente na investigação dos crimes, no trabalho de inteligência e na identificação de grupos e indivíduos envolvidos com atividades criminosas.
O coordenador defendeu que a manutenção dos resultados positivos exige continuidade. Para ele, a redução dos índices deve ser celebrada, mas também acompanhada de serenidade e responsabilidade para evitar que eventuais avanços provoquem uma acomodação das forças de segurança.
Prevenção
Além da repressão ao crime, a Polícia Civil também desenvolve ações de médio e longo prazo voltadas à prevenção, principalmente junto a crianças e adolescentes. Segundo Yves Correia, uma das preocupações é impedir que jovens sejam atraídos por organizações criminosas e pelo tráfico de drogas. Para isso, as unidades policiais de Feira de Santana têm desenvolvido ações educativas e palestras em escolas.
“A médio e longo prazo, o nosso trabalho é feito com essa parte de inteligência e, ao mesmo tempo, não só a questão da inteligência, mas buscando um olhar para as escolas, para palestras, enfim, para de algum modo resgatar esses jovens que estão sendo cooptados por esses traficantes que levam eles para a criminalidade”, afirmou.
O coordenador destacou que esse tipo de atuação não produz necessariamente resultados imediatos, mas é fundamental para evitar que crianças e adolescentes sejam incorporados ao ambiente da criminalidade. De acordo com ele, as ações vêm sendo realizadas de forma constante pelas unidades da Polícia Civil em Feira de Santana, com a realização de palestras e atividades educativas nas escolas.
Para Yves, investir na prevenção significa atuar sobre uma das origens do problema da violência, buscando oferecer aos jovens alternativas antes que eles sejam atraídos pelo crime.
Participação de adolescentes
Outro ponto abordado pelo coordenador foi a participação de adolescentes em ocorrências relacionadas à criminalidade. Yves Correia reconheceu que há registros de menores envolvidos com atividades ilícitas e explicou que a legislação brasileira estabelece tratamento jurídico específico para esses casos. Segundo ele, tecnicamente, adolescentes não cometem crimes, mas atos infracionais análogos a crimes, conforme as regras previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O coordenador explicou ainda que o fato de o adolescente ser menor de idade não significa ausência de responsabilização. Dependendo da situação e da gravidade do ato praticado, podem ser aplicadas medidas previstas na legislação, incluindo internação, medidas em meio aberto e advertência. “Há uma responsabilização dele já, por ser menor. Pode haver uma internação, pode haver uma medida em liberdade ou de advertência”, explicou.
Para Yves, o desafio das forças de segurança e das demais instituições envolvidas é justamente impedir que esses adolescentes permaneçam no ambiente criminal. "Fazemos esse trabalho constante, monitorando esses menores, as crianças e adolescentes, para que de algum modo resgate eles desse mundo criminal e traga eles para a ordem, para a escola, para que eles sejam no futuro sementes do bem e não sementes do mal”, afirmou.
Drogas e criminalidade
Na avaliação do coordenador, o envolvimento com drogas também aparece como uma preocupação importante quando se trata da participação de adolescentes em atos infracionais. Segundo Yves, em alguns casos, o jovem começa como usuário de drogas e posteriormente passa a atuar na comercialização dos entorpecentes, aumentando sua exposição ao ambiente criminoso.
Por isso, a Polícia Civil procura trabalhar não apenas na investigação e repressão, mas também na prevenção, buscando identificar situações de vulnerabilidade e aproximar os jovens da escola e de outras alternativas capazes de afastá-los da criminalidade.
Redução da maioridade penal
Durante a entrevista, Yves Correia também foi questionado sobre a discussão em torno da redução da maioridade penal no Brasil e se essa medida poderia ser uma solução para o envolvimento de adolescentes com crimes.
O coordenador afirmou que o tema é complexo e envolve divergências jurídicas e doutrinárias. Para ele, não é possível tratar a redução da maioridade penal como uma solução isolada para o problema da violência. “Me parece que isso aí é uma discussão bem doutrinária, tem muita divergência”, avaliou.
Yves também citou experiências internacionais para defender que o debate precisa ser aprofundado antes de se apontar a redução da maioridade penal como resposta definitiva para a criminalidade.
Segundo ele, existem países que adotaram mudanças relacionadas à responsabilização penal de adolescentes, mas isso não significa necessariamente que tenham conseguido reduzir os índices de criminalidade. “Diversos outros países houve essa redução, diminuição da maioridade penal e, no entanto, não necessariamente houve a regressão criminal”, afirmou.
Na avaliação do coordenador regional da Polícia Civil, antes de mudanças estruturais na legislação, é necessário garantir a aplicação efetiva das leis que já existem. “É importante que essa discussão seja muito mais aprofundada para que a gente consiga pelo menos aplicar as leis que a gente tem, que sem dúvidas vai dar resultado”, declarou.
Avaliação
Ao avaliar o cenário da segurança pública em Feira de Santana, Yves Correia reforçou que os números positivos representam uma conquista importante, mas não significam que o problema esteja resolvido.
A retirada da cidade da lista das dez mais violentas e a redução expressiva dos CVLIs são vistas como sinais de que as estratégias adotadas pelas forças de segurança vêm apresentando resultados.
Ao mesmo tempo, o coordenador defende que a cidade mantenha o trabalho de inteligência, investigação e prevenção, com integração entre as instituições e atenção especial às áreas mais vulneráveis.
Para ele, a segurança pública precisa ser tratada como um processo permanente, que envolve tanto a repressão aos criminosos quanto a prevenção e a criação de oportunidades para crianças e adolescentes. “É importante que a gente siga nesse trabalho consistente para que Feira de Santana consiga cada vez mais ter dias melhores”, concluiu Yves Correia.