A adoção das chapas “puro-sangue”, composições encabeçadas por candidatos de um mesmo partido na disputa pelo Governo da Bahia e pelo Senado, foi uma estratégia adotada pela base do governador Jerônimo Rodrigues (PT) nas eleições de 2026. A tática possui um extenso histórico nas eleições baianas e desde 1947 - início do pleito direto para governador - foi usada 26 vezes, somando seis campanhas vitoriosas e 20 derrotadas.
O levantamento foi realizado pelo portal A TARDE a partir de dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para estabelecer o recorte da pesquisa, foram considerados apenas os partidos que já elegeram representantes para o Congresso Nacional.
Embora tenha sido utilizada com mais frequência por partidos de oposição ou por candidaturas com menor estrutura eleitoral, a estratégia também esteve presente em períodos de domínio político e resultou em algumas das principais vitórias eleitorais da história recente do estado.
Em 2026, o PT pode ter uma nova oportunidade de repetir esse resultado ou contribuir para a série histórica de 20 derrotas. Este ano, o partido terá Jerônimo Rodrigues como candidato ao governo e Rui Costa e Jaques Wagner na disputa pelas duas vagas ao Senado, formando a 27ª chapa puro-sangue identificada pelo levantamento.
Chapas puro-sangue foram utilizadas 26 vezes, somando seis campanhas vitoriosas e 20 derrotadas
O início
A primeira chapa puro-sangue registrada na história das eleições diretas na Bahia ocorreu justamente em 1947. O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) lançou Antônio Medeiros Neto para o Governo do Estado e Landulfo Alves ao Senado. No entanto, a chapa acabou sendo derrotada por Otávio Mangabeira e Pereira Moacir.
Assim, a primeira composição puro-sangue que saiu vencedora foi a de 1982, quando o PDS lançou João Durval para o governo e Luiz Viana Filho para o Senado. Os dois foram eleitos em uma eleição ainda marcada pelo processo de abertura política durante a ditadura militar. No mesmo pleito, o PMDB apresentou uma chapa puro-sangue com Roberto Santos para governador e Waldir Pires para o Senado, mas os dois foram derrotados pelo PDS.
Assim, 1982 foi a primeira eleição em que o levantamento identificou duas chapas puro-sangue concorrendo simultaneamente, sendo uma vencedora e outra derrotada.
Quatro anos depois, o PMDB repetiu a estratégia e conseguiu eleger seus candidatos. Waldir Pires venceu a disputa pelo governo da Bahia, enquanto Ruy Bacelar e Jutahy Magalhães, ambos do PMDB, conquistaram as duas vagas ao Senado.
“Existe, hoje, na Bahia, a vontade política e a vontade popular em favor das mudanças que a candidatura de Waldir Pires representa. Daí não temos dúvidas quanto à sua vitória”, declarou Jutahy Magalhães antes do resultado do pleito.
O resultado transformou a composição em uma das seis chapas puro-sangue vitoriosas identificadas pelo levantamento. A eleição também marcou o retorno de Waldir Pires ao centro da política baiana após a derrota para João Durval em 1982.
A partir de 1990, o PFL passou a ocupar espaço central entre as chapas puro-sangue vencedoras. Naquele ano, Antonio Carlos Magalhães (ACM) foi eleito governador e Josaphat Marinho conquistou uma vaga ao Senado. A vitória marcou o primeiro de uma sequência de resultados favoráveis ao partido.
Em 1994, o PFL voltou a formar uma chapa integralmente partidária com Paulo Souto para governador e Antonio Carlos Magalhães e Waldeck Ornelas para o Senado. Os três foram eleitos.
Em 1998, a composição foi novamente vitoriosa. César Borges, até então vice-governador, foi eleito para Executivo e Paulo Souto, seu correligionário no PFL, conquistou a vaga ao Senado.
A última vitória de uma chapa puro-sangue antes de um longo período sem resultado semelhante ocorreu em 2002.
Naquele ano, o PFL lançou Paulo Souto para governador e Antonio Carlos Magalhães e César Borges para as duas vagas ao Senado. Os três foram eleitos, mantendo a hegemonia puro-sangue iniciada em 1982 com a chapa de João Durval.
Com isso, o PFL foi responsável por quatro das seis chapas puro-sangue vencedoras identificadas pelo levantamento: 1990, 1994, 1998 e 2002. As outras duas vitórias foram do PDS, em 1982, e do PMDB, em 1986.
Desde 2006, nenhuma chapa do tipo venceu
Depois da vitória do PFL em 2002, o cenário mudou. Em 2006, duas chapas puro-sangue foram registradas: a do PFL, com Paulo Souto para governador e Rodolpho Tourinho para o Senado, e a do PSOL, com Hilton Coelho e André Luís.
Nenhuma das duas venceu e, assim, Jaques Wagner, do PT, foi eleito governador, enquanto João Durval, do PDT, conquistou uma vaga no Senado.
Para a cientista política, Helcimara Telles, a derrota de 2006 foi resultado da perda de força pelo acúmulo de desgastes da era Carlista na Bahia. Além disso, ela apontou que a modernização da política afetou a manutenção do grupo no poder.
"Houve também uma disputa interna muito grande no PFL pelo espólio do senador ACM e isto prejudicou o partido", disse a especialista em entrevista após o resultado da eleição na época.
"Estou perplexo. Vai levar algum tempo para a gente encontrar as razões que levaram Jaques Wagner a vencer no primeiro turno", Antônio Carlos Magalhães - Então senador e líder do Carlismo
Em 2010, outras duas composições do tipo foram registradas: Paulo Souto, Zé Ronaldo e José Carlos Aleluia, pelo DEM (ex-PFL), e Marcos Mendes, França e Zilmar, pelo PV. No entanto, também não houve vitória.
O mesmo ocorreu em 2014, com as chapas do PSB, formada por Lídice da Mata e Eliana Calmon, e do PSOL, com Marcos Mendes e Hamilton Assis.
2018 teve quatro chapas puro-sangue
O maior número de chapas desse tipo em uma mesma eleição ocorreu em 2018, quando quatro partidos apresentaram composições formadas exclusivamente por seus candidatos para governo e Senado.
Foram elas:
Rui Costa foi reeleito governador pelo PT, enquanto Jaques Wagner, do PT, e Angelo Coronel, na época pelo PSD, foram eleitos para o Senado. Assim, contabilizando quatro chapas de partido único derrotadas.
Na eleição de 2022, o modelo apareceu novamente em duas candidaturas. O PL lançou João Roma para governador e Raíssa Soares para o Senado. O PSOL apresentou Kleber Rosa ao governo e Tâmara Azevedo para a Casa Alta.
Todavia, Jerônimo Rodrigues foi eleito governador pelo PT, enquanto Otto Alencar, do PSD, conquistou a vaga única ao Senado.
O histórico será atualizado neste ano com a candidatura do PT. A legenda terá uma tríade petista, com Jerônimo Rodrigues novamente na disputa pelo governo, enquanto Rui Costa e Jaques Wagner serão os candidatos ao Senado.
A composição será a 27ª identificada pelo site desde 1947. Será também a primeira chapa do tipo desde 2002 a reunir um partido que já ocupa o governo da Bahia e tenta eleger simultaneamente seus candidatos ao Executivo estadual e às duas vagas do Senado.
O PT, porém, terá de superar um histórico recente desfavorável. Desde a última vitória de uma chapa puro-sangue, em 2002, nenhuma das 14 composições desse tipo disputadas até 2022 conseguiu eleger seus candidatos.
1947
1982
1990
1994
1998
2002
2006
2010
2014
2018
2022