Feira de Santana Clima quente
El Niño já provoca perdas na zona rural e deve intensificar estiagem em Feira de Santana, alerta especialista
João Dias afirma que fenômeno já afeta a região, com prejuízos à agricultura, risco de escassez de água e necessidade de medidas ambientais para reduzir os impactos das mudanças climáticas.
12/08/2026 08h42
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News

Créditos: Meteored/Adaptado de NASA worldview

O fenômeno El Niño já está provocando impactos em Feira de Santana e em diversos municípios do Nordeste. O alerta é do especialista João Dias, que afirma que o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, aliado às mudanças climáticas globais, já influencia diretamente o regime de chuvas da região e deve resultar em um longo período de estiagem.

Segundo João Dias, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico Equatorial, um fenômeno natural que, neste momento, é potencializado pelo aquecimento global. “O El Niño é o aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento acontece naturalmente, mas agora ele está acima do normal. Esse cenário vem sendo agravado pelas mudanças climáticas, pelo aquecimento global, pelas ilhas de calor e por outros fenômenos que estão acontecendo em todo o planeta”, explicou.

Ele destaca que os efeitos já são percebidos em diversas regiões do Brasil. Enquanto os estados do Sul e Sudeste enfrentam eventos extremos, como tornados, ciclones, ventos intensos e chuvas volumosas, o Nordeste sofre justamente com a redução das precipitações. “Na região do Matopiba, que compreende áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a influência do El Niño é muito maior para reduzir as chuvas. Essa situação já está acontecendo. Muitos municípios nordestinos perderam ou reduziram suas safras e, segundo a ciência, vamos enfrentar uma longa estiagem”.

De acordo com João Dias, os efeitos do fenômeno já atingem a zona rural de Feira de Santana. A interrupção das chuvas comprometeu a produção agrícola em localidades como Ipuaçu, Bomfim de Feira e Jaguara. “Nós também perdemos safras. Em Ipuaçu, Bomfim de Feira e Jaguara, o milho já estava praticamente pronto para ser colhido quando a chuva parou. Perdemos milho, perdemos feijão e teremos dificuldades também com a alimentação do gado”.

Ele alerta que, caso o cenário permaneça, poderá haver falta de pastagem para os animais e dificuldades no abastecimento de água. “Pode faltar comida para os animais e pode faltar água. Precisamos utilizar a tecnologia e nos preparar para essa realidade”.

Lagoas ajudam a reduzir os efeitos na cidade

Embora o cenário seja preocupante, João Dias ressalta que Feira de Santana possui uma característica ambiental que contribui para amenizar os impactos das altas temperaturas na área urbana. Segundo ele, as 38 lagoas existentes dentro do perímetro urbano desempenham papel importante na regulação do clima.

“As lagoas colocam mais umidade no ar, tornando o ambiente mais confortável e reduzindo as ilhas de calor. Elas têm um papel fundamental durante períodos de mudanças climáticas e também durante o El Niño”.

João Dias - Foto: Boca de Forno News

Além da preservação das lagoas, o especialista defende o plantio e a conservação de árvores como estratégia para melhorar o conforto térmico da cidade. “A população pode ajudar muito plantando árvores, preservando as que já existem e colaborando para cuidar das lagoas”.

Plantio

João Dias explica que o plantio de árvores deve seguir orientações técnicas e respeitar as características do bioma Caatinga. De acordo com o especialista, espécies exóticas podem trazer problemas ambientais e exigir maior manutenção. “O ideal é plantar árvores próprias do bioma. Quando se planta uma espécie que não pertence à região, aumentam as dificuldades de adaptação e podem surgir doenças”.

Ele ressalta que, antes do plantio na área urbana, é necessário observar a existência de redes de água, esgoto, drenagem e fiação elétrica.

Também chama atenção para espécies que possuem raízes superficiais e de grande porte, como gameleira, ingá, jenipapo, jaqueira e mangueira, que não devem ser plantadas próximas às residências. Já espécies como os ipês, branco, amarelo, rosa e roxo, apresentam raízes mais adequadas para determinadas áreas da cidade, desde que sejam respeitadas as distâncias corretas.

Para evitar problemas, João Dias recomenda que a população procure orientação técnica junto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente, aos setores responsáveis pela arborização urbana e, na zona rural, à Secretaria de Agricultura.

Calor acima do esperado em agosto

Questionado sobre as temperaturas elevadas registradas nos primeiros dias de agosto, período normalmente marcado por clima mais ameno, João Dias afirmou que o fenômeno já é reflexo do El Niño e das mudanças climáticas. “Estamos percebendo uma incidência maior da radiação solar. Isso faz parte desse conjunto de alterações climáticas que estamos vivendo”.

Ele também defendeu uma revisão das políticas de preservação ambiental voltadas ao semiárido. Segundo João Dias, a legislação que permite a manutenção de apenas 20% da vegetação nativa em propriedades localizadas na Caatinga precisa ser reavaliada, considerando as características da região. “O semiárido precisa aumentar a preservação das áreas naturais”.

Outra proposta defendida por ele é o fortalecimento do Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), mecanismo que remunera proprietários rurais pela conservação dos recursos naturais. “Está na hora de os governos estadual e federal destinarem recursos para que o homem do campo possa preservar e continuar produzindo”.

Durante a entrevista, João Dias destacou que enfrentar os impactos das mudanças climáticas exige também mudanças de comportamento da população. Entre as medidas sugeridas estão a redução do uso de combustíveis fósseis, a preferência pelo etanol em vez da gasolina, a utilização de bicicletas, a prática de caronas e o incentivo ao transporte coletivo e escolar compartilhado.

“Todo mundo fala sobre mudanças climáticas, mas nem todo mundo está disposto a mudar. Precisamos reduzir o uso de plásticos, diminuir a emissão de gases provocada pelos combustíveis fósseis e buscar alternativas mais limpas”.

Ele afirmou que procura dar exemplo no dia a dia. “Meu carro utiliza GNV e, duas vezes por semana, vou trabalhar de bicicleta. Se uma parcela significativa da população fizer a sua parte, o impacto positivo será muito grande”.

João Dias lembrou ainda que a Constituição Federal estabelece que tanto o poder público quanto a coletividade têm responsabilidade na proteção do meio ambiente. “O prefeito, o governador e o presidente têm suas responsabilidades, mas cada cidadão também precisa fazer sua parte”.

Chuvas só em 2027

Ao falar sobre a expectativa para os próximos meses, João Dias afirmou que, embora previsões climáticas possam sofrer alterações, os dados científicos disponíveis indicam um cenário pouco animador. Conforme João, a expectativa é de que as chuvas regulares só retornem em 2027.

“A previsão de termos chuvas constantes e consideradas boas é apenas em 2027. Estamos em agosto, um mês em que normalmente ainda chove um pouco na nossa região. Agora vamos entrar em setembro, outubro, novembro e dezembro, e a situação preocupa muito”.

O especialista afirma que a vegetação da zona rural já apresenta sinais da estiagem. “Quem visita a zona rural já percebe que a paisagem está ficando marrom. Vamos enfrentar problemas com os pastos, que são a alimentação dos animais, e, se esse cenário continuar, também poderemos ter dificuldades no abastecimento de água”.

Para João Dias, o momento exige planejamento, preservação ambiental e ações conjuntas entre governos e sociedade para minimizar os impactos de um cenário climático que tende a se tornar cada vez mais desafiador.