Política Eleições 2026
Bahia não tem eleição descasada entre governador e senador desde 1962
Primeiro e único governador que não elegeu seu senador foi Lomanto Júnior.
08/08/2026 08h06
Por: Karoliny Dias Fonte: A Tarde

Foto: Divulgação

A correlação entre os votos para governador e senador criou um intervalo de 64 anos sem uma eleição descasada na Bahia. Desde o início das eleições diretas para o governo estadual, em 1947, o eleitorado baiano elegeu 23 senadores, mas apenas dois deles venceram em uma composição diferente da chapa do governador eleito.

A última e única vez em que houve divergência na composição da chapa majoritária ocorreu em 1962 quando Antônio Lomanto Júnior foi eleito governador após enfrentar Waldir Pires. Na disputa pelo Senado, porém, os dois candidatos apoiados por Waldir — Josaphat Marinho e Antônio Balbino — foram eleitos, superando os nomes ligados a Lomanto, Dantas Júnior e Lima Teixeira.

Ex-governador e ex-senador, Antônio Balbino - Foto: Reprodução | Arquivo Nacional

De acordo com o levantamento realizado pelo portal A TARDE, o episódio de 1962 é, portanto, o único registro em que o eleitorado baiano escolheu um governador e senadores vinculados a uma força política adversária.

Não exatamente aliados

A eleição daquele ano teve uma configuração particular. Lomanto Júnior foi eleito para o governo da Bahia, enquanto Josaphat Marinho e Antônio Balbino conquistaram as duas vagas disponíveis para o Senado.

Embora Josaphat e Waldir tenham feito campanha juntos naquele pleito, os dois não eram filiados ao mesmo partido. O próprio Josaphat explicou a situação em entrevista ao Globo em 1986, quando voltou a disputar o governo baiano contra Waldir Pires.

O então governador Antônio Lomanto Jr. e o senador Josaphat Marinho - Foto: 23/07/1963. Acervo | Cedoc A TARDE

Questionado sobre como dois socialistas e antigos aliados haviam chegado à disputa pelo governo apoiados por forças políticas opostas, Josaphat afirmou que os dois nunca haviam militado no mesmo partido e que a aliança de 1962 havia ocorrido em torno de uma “composição partidária”.

A trajetória política dos dois também ajuda a explicar a distância entre aquela aliança e a disputa de 1986. Josaphat havia ocupado cargos no governo Juracy Magalhães e presidido o Conselho Nacional do Petróleo (CNP) durante o governo de Jânio Quadros. Em 1986, deixou o PSB e ingressou no PFL após convite de Antônio Carlos Magalhães, tornando-se o candidato apoiado pelo grupo carlista contra Waldir Pires.

Josaphat na presidência da ANP - Foto: 07/04/1961. Agência Nacional | Cedoc A TARDE

Depois de 1962

A partir da redemocratização, a coincidência entre as forças vencedoras do governo e do Senado voltou a se repetir nas eleições baianas. Em 1982, primeira eleição direta em 20 anos, João Durval foi eleito governador pelo PDS, enquanto Luiz Viana Filho conquistou a vaga para o Senado pelo mesmo partido.

Quatro anos depois, Waldir Pires (PMDB) venceu a eleição para o governo, e Ruy Bacelar e Jutahy Magalhães, também do PMDB, foram eleitos senadores. Em 1990, Antônio Carlos Magalhães (PFL) venceu para governador e Josaphat Marinho, que havia migrado para o mesmo partido, foi eleito senador.

Waldir Pires se elegeu para o governo em 1986 - Foto: 03/04/1979. Acervo | Cedoc A TARDE

A mesma lógica se repetiu nas eleições seguintes. Em 1994, Paulo Souto venceu para governador e ACM e Waldeck Ornelas foram eleitos senadores pelo PFL. Em 1998, César Borges ganhou o governo e Paulo Souto conquistou uma vaga no Senado, ambos pelo PFL.

Em 2002, Souto e César Borges "inveteram" os cargos. O primeiro voltou a se eleger para o Governo do Estado, sendo acompanhado pela sua chapa ao Senado, o próprio César Borges e ACM, todos pelo PFL.

Era petista mantém padrão

A mudança de grupo político no comando do Estado, em 2006, não rompeu o padrão, mas ampliou a importância das coligações ao eleger senadores e governadores de partidos diferentes. Jaques Wagner (PT) foi eleito governador, enquanto João Durval (PDT), apoiado por Wagner, conquistou uma das vagas para o Senado.

Em 2010, Wagner foi reeleito e os senadores eleitos foram Walter Pinheiro (PT) e Lídice da Mata (PSB), ambos integrantes da base que sustentava a candidatura governista. Em 2014, Rui Costa (PT) venceu para governador e Otto Alencar (PSD) foi eleito senador.

Lídice da Mata em atuação no Senado em 2014 - Foto: Moreira Mariz | Agência Senado

A exceção ocorre agora em 2026, com o lançamento da chapa “puro-sangue” petista. A composição é formada pelo governador Jerônimo Rodrigues em busca da reeleição, além de Rui Costa e Jaques Wagner como candidatos ao Senado.

Quase quebras

Em 2018, quando Rui Costa buscava a reeleição, sua chapa era composta por Jaques Wagner (PT) e Angelo Coronel — à época pelo PSD — para o Senado. O pessedista apareceu atrás nas pesquisas do então candidato Irmão Lázaro (PSC). Contudo, Coronel se elegeu com 32,97% dos votos válidos, enquanto o postulante do PSC alcançou 15,37%.

Outro caso em que o tabu ficou em risco foi em 2022. Era prevista uma eleição tranquila para Otto Alencar para o Senado, mas o cenário era indefinido para seu aliado Jerônimo Rodrigues (PT) para a disputa contra ACM Neto (União) pelo Governo do Estado. Todavia, apesar do embate difícil, o petista acabou eleito no segundo turno, junto com Otto para o Senado.

Em discussão

Com a eleição de 2026 se aproximando, a composição das chapas majoritárias volta a colocar em evidência o histórico eleitoral baiano. Desde 1962, o eleitorado do Estado não escolhe um governador de uma força política e, simultaneamente, um senador de uma composição adversária.

O histórico recente mostra que as disputas pelo governo e pelo Senado foram marcadas pela formação de chapas majoritárias amplas, nas quais os candidatos às diferentes posições caminharam juntos na campanha.

Em 2026, Jerônimo foi na contramão ao lançar Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado. Contudo, no campo da oposição, ACM Neto compõe a chapa majoritária com Angelo Coronel (Republicanos) e João Roma (PL) na disputa pela Casa Alta.