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AVC antes dos 40: Bahia registra alta de quase 50% nas internações de jovens
Em dez anos, Bahia registra crescimento de quase 50% das internações de pessoas com menos 40 anos acometidas por AVC, taxa superior à média nacional, que é de 28,5%
06/08/2026 08h02
Por: Karoliny Dias Fonte: Metro1
Foto: Imagem gerada com auxílio de IA

Acordar muito cedo e dormir muito tarde, comer qualquer coisa na correria e conviver diariamente com estresse. Essa é uma rotina comum entre jovens adultos que pode esconder riscos de acidente vascular cerebral, mais conhecido pela sigla AVC. Segundo o Ministério da Saúde, as internações por AVC entre pessoas com menos de 40 anos cresceram quase 50% entre 2015 e 2025 na Bahia, percentual superior à alta de 28,5% registrada no Brasil. Além disso, no estado, 1.234 pessoas dessa faixa etária morreram pela doença no estado entre 2016 e 2026, segundo a Secretaria Estadual da Saúde da Bahia (Sesab).

A Bahia registrou o maior número de internações da série em 2023, quando 813 pacientes com menos de 40 anos foram hospitalizados após sofrerem AVC. No Brasil, o pico também ocorreu em 2023, com 9.594 internações. O crescimento chama atenção porque atinge pessoas em plena idade produtiva, muitas vezes sem diagnóstico anterior de hipertensão, diabetes ou colesterol elevado. 

Risco precoce

Segundo o neurologista Ramon Kruschewsky, professor universitário e membro das academias Brasileira e Americana de Neurologia, o principal motivo dos índices alarmantes é o aumento dos fatores de risco vascular entre pessoas mais novas. Obesidade, pressão alta, diabetes, colesterol elevado, sedentarismo e tabagismo estão aparecendo mais cedo e, juntos, podem estar relacionados a cerca de 80% dos AVCs isquêmicos nessa população.

O AVC isquêmico ocorre quando uma artéria que leva sangue ao cérebro fica obstruída. Já o hemorrágico acontece quando um vaso se rompe e provoca sangramento cerebral. Entre os jovens, também aparecem causas menos comuns na população idosa, como alterações nas artérias, problemas de coagulação, doenças genéticas, anemia falciforme e coágulos formados no coração que chegam ao cérebro.

Um novo perfil

A mudança de perfil aparece nas histórias de quem viu a vida mudar completamente antes dos 40 anos. Aos 29, a personal trainer Marcelli Maia, moradora de Lauro de Freitas, passou semanas procurando atendimento por causa de dores de cabeça intensas e esgotamento físico. Em diferentes consultas, recebeu tratamento para enxaqueca até descobrir que havia sofrido um AVC isquêmico. 

Já José Carlos de Jesus, de Salvador, tinha 33 anos quando sofreu dois AVCs em sequência. Cabeleireiro, começava a trabalhar cedo, não tinha hora para encerrar o expediente, beliscava lanches no lugar de almoçar e dormia pouco. A rotina intensa acabou interrompida por uma doença que o deixou com sequelas permanentes.

De fininho

Marcelli não tinha pressão alta, diabetes ou colesterol elevado. Por trabalhar como personal trainer e manter hábitos considerados saudáveis, nem ela, nem pessoas próximas imaginaram que os sintomas pudessem estar ligados a um AVC. Durante um mês, buscou atendimento em emergências e passou por oftalmologista e ortopedista, mas a possibilidade da doença não foi considerada.

A demora para identificar o problema está ligada à ideia de que uma pessoa jovem não pode sofrer AVC. Kruschewsky explica que, além dos sinais conhecidos, cerca de 26% dos pacientes jovens podem apresentar manifestações menos típicas, como dor de cabeça isolada, tontura, vômitos, confusão, alterações de comportamento e sintomas que melhoram e pioram ao longo do dia.

No caso de Marcelli, o AVC comprometeu a fala e funções automáticas do corpo. Hoje, aos 35 anos, ela ainda faz fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, neuromodulação e acompanhamento psicológico. Ainda não conseguiu voltar ao trabalho como personal trainer, mas afirma ter encontrado novos sentidos na vida durante a recuperação.

Com José Carlos, o atendimento também não foi imediato. No fim de maio de 2009, a família recebeu uma ligação de um amigo por volta das 22h que dizia que o cabeleleiro estava com a fala embolada. Os irmãos foram até o local e o levaram ao hospital, mas, enquanto aguardava atendimento, ele sofreu outro AVC. O cabeleireiro entrou em coma e perdeu os movimentos do lado direito do corpo. Perto de completar 50 anos, mora com os pais na Ilha de Itaparica.

Estresse e excesso de trabalho

As histórias também mostram como diferentes fatores podem se acumular. Kruschewsky explica que trabalhar 55 horas ou mais por semana está associado a um risco maior de AVC. Dormir menos de cinco horas ou mais de nove horas regularmente também pode aumentar o perigo.

O especialista ressalta que o estresse raramente aparece sozinho. Em geral, vem acompanhado de alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo e falta de acompanhamento médico. Cigarro, vapes, drogas estimulantes, anabolizantes e consumo excessivo de álcool também podem causar inflamação, elevar a pressão, provocar arritmias e favorecer a formação de coágulos. 

Sinais e cuidados

Fraqueza ou dormência de um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou entender, alteração repentina da visão, perda de equilíbrio e dor de cabeça súbita e muito intensa merecem atendimento imediato, reforça o neurologista Ramon Kruschewsky, ao apontar os principais sintomas da doença.

Controlar a pressão arterial, o diabetes, o colesterol e o peso, praticar exercícios, dormir adequadamente, evitar o cigarro e as drogas e reduzir o consumo de álcool são medidas essenciais. Uma alimentação baseada em vegetais, frutas, legumes, peixes, castanhas e alimentos pouco processados também contribui para diminuir o risco.