Cultura Cultura
Feira de Arte “Do Agora: Matéria em Ancestralidade” reúne artistas e mestres escultores durante o mês da Festa da Boa Morte em Cachoeira
Evento será realizado de 8 a 30 de agosto na Galeria Amanda Costa Pinto, no Memorial da Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda, com exposição, venda de obras, performances, DJs e rodas de conversa valorizando a produção artística do Recôncavo.
31/07/2026 09h35
Por: Karoliny Dias Fonte: Boca de Forno News
Ira Santos - Foto: Boca de Forno News

Cachoeira, um dos maiores berços da cultura afro-brasileira e da produção artística da Bahia, ganhará mais um importante espaço de valorização de seus artistas durante o mês de agosto. Entre os dias 8 e 30, a Galeria Amanda Costa Pinto, localizada no Memorial da Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda, sediará a Feira de Arte "Do Agora: Matéria em Ancestralidade", iniciativa que nasce com a proposta de fortalecer a economia criativa local, aproximar o público da arte produzida no município e homenagear a centenária Festa da Boa Morte, uma das manifestações culturais e religiosas mais importantes do país.

Idealizada pelo estudante de Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Ira Santos, a feira foi concebida para ser muito mais do que uma exposição convencional. O projeto pretende criar um ambiente de convivência entre artistas, moradores, pesquisadores, turistas e colecionadores, permitindo que o público não apenas contemple as obras, mas também conheça seus processos de criação, converse diretamente com seus autores e tenha a oportunidade de adquirir peças produzidas em Cachoeira.

Durante entrevista, Ira explicou que a ideia surgiu justamente da necessidade de criar um espaço permanente de valorização da produção artística local, aproveitando o período em que a cidade recebe milhares de visitantes por causa da Festa da Boa Morte. "Quando pensamos na feira, queríamos que fosse algo que fosse além de uma exposição. Um espaço onde as pessoas pudessem conhecer a produção artística de Cachoeira, conversar com os artistas e também comprar uma obra para levar consigo. A ideia é homenagear a Festa da Boa Morte e reunir artistas que fazem parte da história cultural da cidade”.

Segundo Ira Santos, a iniciativa também representa o início de sua trajetória profissional nas artes visuais. Aluno do primeiro semestre da UFRB, ele contou que sempre acreditou que uma carreira artística precisa ser construída a partir do território onde o artista vive.

A ideia começou a tomar forma após uma conversa com o artista David Rodrigues, durante uma exposição realizada no Memorial da Ajuda, em maio deste ano. Na ocasião, Ira buscava informações sobre como realizar uma mostra na galeria e percebeu que o período da Festa da Boa Morte seria o momento ideal para lançar o projeto. "Eu sempre pensei que, para começar uma carreira, era importante planejar onde começar. Cachoeira é um celeiro de arte. Eu escolhi viver aqui e achei que fazia sentido iniciar esse trabalho valorizando exatamente a cidade onde moro”.

Ele explicou que o objetivo era aproveitar o grande fluxo de turistas durante a Festa da Boa Morte para apresentar ao público a diversidade da produção artística cachoeirana. "Queríamos dialogar não apenas com quem mora aqui, mas também com quem visita a cidade durante esse período. Mostrar o trabalho dos estudantes, dos professores da UFRB e, principalmente, dos artistas que construíram a história da arte em Cachoeira”.

Um dos principais pilares da feira é o reconhecimento dos mestres escultores da cidade, responsáveis por uma tradição artística que atravessa gerações no Recôncavo Baiano. Ira lamentou que muitos desses artistas sejam lembrados apenas durante a Festa da Boa Morte e passem o restante do ano praticamente invisíveis para o grande público. "Isso me inquieta muito. Muitas vezes os escultores daqui só são lembrados quando chega a Festa da Boa Morte. Depois disso, eles ficam esquecidos. São artistas que construíram uma história enorme para Cachoeira e merecem reconhecimento durante todo o ano”.

Outro problema apontado por ele é a atuação de atravessadores, que compram esculturas diretamente dos artistas por valores baixos e depois revendem essas peças por preços muito superiores em outras regiões do país. "Infelizmente isso acontece. Pessoas chegam aqui, compram esculturas pagando muito pouco aos artistas e depois comercializam essas obras por valores muito maiores. A feira também nasce para fortalecer o mercado local e valorizar quem produz”.

Ancestralidade como tema central

A exposição foi construída a partir do conceito de "Matéria em Ancestralidade", tema que dialoga diretamente com a identidade histórica, cultural e religiosa de Cachoeira. Para os escultores convidados, não houve imposição de um novo processo criativo. Eles apresentarão obras já produzidas, que naturalmente refletem a ancestralidade presente em suas trajetórias e na cultura afro-brasileira.

Já os artistas visuais contemporâneos foram convidados a desenvolver trabalhos inspirados no tema. Ira revelou que sua própria produção artística busca representar a Festa da Boa Morte sem recorrer à representação figurativa. "Eu gosto de trabalhar com o vazio, com aquilo que está presente, mas que a gente não enxerga. Trabalho com vestígios, com memórias. Minha produção dialoga com a Festa da Boa Morte sem representar diretamente as figuras”.

Segundo ele, a proposta da feira é mostrar que a ancestralidade pode ser interpretada de diversas formas, por diferentes linguagens e técnicas.

Diversidade de linguagens

A Feira de Arte reunirá artistas com estilos bastante distintos, demonstrando a pluralidade da produção contemporânea do Recôncavo. Entre os participantes confirmados estão os mestres escultores Billy e Mimo, reconhecidos pela preservação da tradição escultórica da cidade.

Também participarão artistas como David Rodrigues, conhecido nacionalmente pelo estilo próprio baseado em sucessivas camadas de pontilhismo, técnica tão característica que acabou originando um novo movimento artístico associado ao seu nome; Cleison, que apresentará esculturas inspiradas na religiosidade de matriz africana e nos terreiros; Kéferos, com bordados e obras relacionadas à Festa da Boa Morte; Nicolas Robert, cuja produção dialoga com referências indígenas; Wallace Dias, que exibirá trabalhos utilizando garrafas revestidas por trançados em corda náutica; Eduardo Rod, responsável por obras que exploram grafismos, cartazes e composição tipográfica.

Além deles, estudantes e professores da UFRB também integrarão a exposição, fortalecendo o diálogo entre a produção acadêmica e os saberes tradicionais.

A programação foi pensada para transformar o Memorial da Ajuda em um verdadeiro centro cultural durante todo o mês de agosto. Além da exposição das obras, haverá visitas guiadas conduzidas pelos próprios artistas, rodas de conversa sobre processos criativos, encontros com mestres escultores, performances artísticas, projeções na fachada do prédio histórico e DJs aos finais de semana.

Entre as atrações já confirmadas estão a DJ Crystal, no dia 8 de agosto, e a DJ Pink, no dia 15. Outros nomes ainda serão anunciados, incluindo a possibilidade da participação de um artista vindo de Nova York para realizar uma performance especial.

Segundo Ira, a intenção é criar um ambiente em constante movimento. "A ideia é movimentar todo um ecossistema voltado para a arte. Queremos que as pessoas frequentem o espaço durante todo o mês, participem das conversas, conheçam os artistas e vivenciem essa produção cultural”.

Obras estarão disponíveis para venda

Outro diferencial da feira é que praticamente todas as obras expostas poderão ser adquiridas pelos visitantes. A proposta busca incentivar a formação de novos colecionadores, ampliar a circulação da produção artística de Cachoeira e gerar renda para os artistas locais.

Ira afirmou que a expectativa é transformar a iniciativa em um projeto permanente. "Se esse movimento crescer, queremos ampliar a participação de mais artistas da cidade e realizar novas edições da feira”.

Convite à população e aos turistas

Com expectativa de receber milhares de visitantes durante a Festa da Boa Morte, a organização acredita que a feira será uma oportunidade para apresentar ao público a riqueza artística produzida em Cachoeira ao longo de todo o ano.

Ao final da entrevista, Ira fez um convite para que moradores, estudantes, pesquisadores e turistas visitem a exposição. "Quero convidar as pessoas a conhecerem o trabalho dos artistas da cidade, levarem seus filhos, valorizarem quem produz arte aqui e prestigiarem os escultores locais. Cachoeira é um celeiro de grandes artistas, e esse patrimônio precisa ser conhecido e reconhecido”.

A Feira de Arte "Do Agora: Matéria em Ancestralidade" será aberta oficialmente no dia 8 de agosto, com vernissage, permanecendo em cartaz até 30 de agosto. A visitação ocorrerá de terça-feira a domingo, sempre das 14h às 22h, na Galeria Amanda Costa Pinto, instalada no Memorial da Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda, consolidando-se como mais uma importante ação de valorização da arte, da memória e da ancestralidade do Recôncavo Baiano.