Jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 e TDAH enfrentam desafios que vão muito além do desempenho escolar. A transição para a vida adulta exige habilidades sociais, autonomia, comunicação e preparo para o mercado de trabalho. A dificuldade para iniciar uma conversa, interpretar expressões faciais, controlar a impulsividade ou construir novas amizades faz parte da rotina de muitos desses jovens neurodivergentes.
Em Feira de Santana, um novo programa pretende transformar esses desafios em oportunidades de aprendizado por meio da prática, da convivência e do fortalecimento das relações sociais. É o Programa CONECTA que foi desenvolvido para fortalecer essas competências por meio de encontros em grupo, com atividades práticas e baseadas em evidências científicas.
Idealizado pela psicóloga Flávia Valéria, o programa Conecta nasceu a partir da experiência clínica com pacientes autistas, com TDAH e outras neurodivergências. Segundo a especialista, a iniciativa surgiu ao perceber que muitos avanços obtidos durante a terapia individual precisavam ser levados para situações reais de interação social. “Percebendo essa demanda nos atendimentos, eu observei que uma das maiores dificuldades estava justamente na comunicação social. Foi daí que surgiu a ideia de criar um grupo terapêutico voltado para desenvolver habilidades que facilitassem a inclusão dessas pessoas na sociedade”, explica.
Diferente de uma terapia convencional, o Conecta funciona como um espaço de treinamento prático. Durante dez encontros, com duração de duas horas cada, os participantes vivenciam situações do cotidiano para exercitar competências essenciais para a vida em sociedade. Entre as habilidades trabalhadas estão a iniciação de conversas, manutenção de diálogos, reconhecimento de emoções e expressões faciais, desenvolvimento da empatia e controle da impulsividade.
Flávia destaca que muitas das chamadas “regras sociais”, percebidas naturalmente por pessoas neurotípicas, exigem um esforço muito maior para pessoas neurodivergentes. “Iniciar uma conversa, compreender expressões emocionais ou perceber sinais mais sutis durante uma interação pode ser bastante desafiador. Quando essas habilidades são praticadas em um ambiente seguro, eles conseguem construir ferramentas para se relacionar sem precisar mascarar quem são”.
O programa é direcionado a pessoas neurodivergentes, incluindo autistas, pessoas com TDAH e indivíduos com altas habilidades ou superdotação. Embora o foco seja o treinamento dos participantes, a família também desempenha papel importante no processo. “A família funciona como rede de apoio durante todo o percurso. O treinamento acontece diretamente com os jovens, mas esse suporte em casa faz toda a diferença para que as habilidades desenvolvidas sejam fortalecidas no dia a dia”, afirma.
A psicóloga faz questão de esclarecer que o Conecta não substitui a psicoterapia individual. Pelo contrário, as duas abordagens caminham juntas. “A terapia trabalha questões individuais de cada paciente. O Conecta é um complemento, um espaço onde eles colocam em prática aquilo que aprendem, experimentam novas formas de interação e fortalecem vínculos”.
Segundo Flávia Valéria, os resultados costumam aparecer em diferentes áreas da vida. Ela observa melhora na construção de amizades, nos relacionamentos afetivos, na inserção profissional e, principalmente, no ganho de autonomia e confiança. “Eles passam a se sentir mais seguros para experimentar o mundo, criar relações mais saudáveis e enfrentar situações que antes geravam insegurança”.
Para a especialista, Feira de Santana ainda possui uma carência de iniciativas voltadas especificamente ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais para pessoas neurodivergentes. “Até onde é do meu conhecimento, esse é o primeiro programa na cidade estruturado especificamente para esse objetivo.”
As inscrições para o Conecta são realizadas por meio do WhatsApp disponível no link da bio do perfil @atossaudemental no Instagram, onde também podem ser obtidas outras informações sobre o funcionamento do programa.
Ao convidar famílias e jovens a conhecerem a iniciativa, Flávia reforça que investir nessas habilidades representa um passo importante para a independência dos participantes. “Se você é neurodivergente ou é pai de um jovem neurodivergente que ainda apresenta dificuldades nessas habilidades, procure o Conecta. Esse trabalho pode representar um grande diferencial no desenvolvimento da autonomia e da inclusão social”, finaliza.