Começam como entretenimento, prometem dinheiro fácil e, para milhares de brasileiros, terminam em dívidas, depressão, rompimentos familiares e até morte. O avanço das apostas online tem revelado uma realidade que vai muito além das perdas financeiras. O Jornal Metropole reuniu relatos de pessoas que conviveram e ainda convivem com a ludopatia - conhecida como transtorno do jogo ou jogo patológico.
Trata-se de condição marcada pela dependência compulsiva e incontrolável em jogos de azar e apostas, como cassinos e bets. Os depoimentos mostram como o transtorno tem devastado vidas, estando por trás de suicídios, dívidas milionárias e histórias de pessoas que perderam o controle sobre a própria existência.
Quando o jogo termina em tragédia
Após perder o irmão para o vício em apostas online, a advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE), Juliana Prates, segue transformando o luto em ativismo. Otacílio Prates, auditor do mesmo órgão, morreu aos 46 anos sem que a família soubesse que ele enfrentava o vício em apostas. Somente após sua morte, Juliana descobriu que ele havia acumulado cerca de R$ 1,5 milhão em dívidas desde que começou a apostar, em 2023.
"Hoje faz exatamente cinco meses que eu perdi meu colega de trabalho para as apostas. Mas não era qualquer colega de trabalho. Ele era o meu irmão. Nós estudamos e passamos juntos para o mesmo concurso público de auditor. E ele foi adoecendo, foi definhando e foi perdendo qualquer capacidade que tinha de raciocinar, porque o vício em apostas leva a um adoecimento e ideações suicidas inimagináveis", declarou.
A declaração foi dada por Juliana em maio deste ano e repetida em entrevista concedida na terça-feira (21) ao programa Metropole Mais, da Rádio Metropole. Até então, contou Juliana, a família acreditava que as dificuldades financeiras do auditor eram consequência de investimentos malsucedidos na bolsa de valores e em criptomoedas. Pouco antes do Natal, ao encontrar uma carta deixada pelo irmão antes da morte, Juliana descobriu que ele enfrentava a ludopatia.
"Só descobri que meu irmão estava viciado em apostas quando ele morreu." Na carta, Otacílio escreveu que havia perdido a vontade de viver. Ao acessar o celular dele, Juliana encontrou diversas contas em plataformas de apostas. "Na carta que deixou, ele dizia que havia perdido o sentido da vida, que havia perdido todo o dinheiro. Ele deixou todas as senhas, e quando abri o celular, vi várias contas de bets abertas. Só naquele dia, ele tinha apostado R$ 109 mil." Segundo Juliana, após tornar pública a história do irmão, dezenas de famílias procuraram a auditora relatando experiências semelhantes.
"Cheguei a agredir minha própria mãe”
Outro relato é o de um marceneiro de 26 anos, morador de Itapuã, em Salvador, que pediu para ter a identidade preservada. Nesta reportagem, ele será chamado de "Igor", para garantir seu anonimato. Em entrevista ao Jornal Metropole, ele contou que o vício em apostas esportivas começou de forma aparentemente inofensiva, dentro de casa, ao lado da mãe.
O hábito, que parecia apenas uma distração, rapidamente se transformou em compulsão. Antes mesmo de perder o emprego, Igor diz que já comprometia todo o salário tentando recuperar o dinheiro perdido. "Eu chegava a apostar meu salário todo, pensando que poderia duplicar ou triplicar o valor. Eu via como um investimento, uma renda extra." Quando o dinheiro acabou, vieram os empréstimos com amigos, colegas de trabalho e agiotas.
"Eles começaram a aparecer no meu trabalho. Até que minha chefe não suportou mais a situação e me demitiu”, relatou. Sem renda e cercado por dívidas, ele afirma que chegou ao limite. "Pra mim foi um desespero com tantas dívidas, mas eu não sabia como pagar. Pensei em ir para o crime, em tirar minha própria vida", disse.
"Perdi 15 quilos. Não consigo me alimentar e dormir. Não tenho acompanhamento psicológico, tenho vergonha. Minha família não sabe. Eles perguntam como eu perdi o emprego, por que eu emagreci tanto. Uns cogitaram que eu estava usando drogas. Um dos piores momentos da minha vida foi quando eu agredi minha própria mãe porque eu precisava de dinheiro para apostar", lamentou.
O preço da compulsão
O hoteleiro Luendew de Freitas, de 31 anos, conta que começou a apostar no fim de 2022, durante o período da Copa do Mundo do Catar, influenciado pela forte divulgação de plataformas de apostas feita por influenciadores digitais. Os prejuízos financeiros, segundo Luendew, são difíceis de calcular. Para continuar apostando, fez empréstimos e utilizou cartões de crédito de terceiros.
A dependência também abalou profundamente a vida pessoal. Luendew conta que escondia o vício da família e que a situação só veio à tona quando as perdas financeiras se tornaram insustentáveis. O comportamento provocado pela compulsão, segundo ele, contribuiu para o fim do relacionamento. "Muitas das brigas que a gente teve foi por conta de eu estar alimentando um vício de forma silenciosa", afirma. Hoje, separado da companheira e pai de uma menina, ele diz que ainda enfrenta as consequências desse período.
Além dos impactos financeiros e familiares, Luendew relata que a ludopatia agravou sua saúde mental. Atualmente, faz acompanhamento psiquiátrico e psicológico para tratar ansiedade e sintomas depressivos e investiga um possível transtorno bipolar.
Desde então, aderiu à autoexclusão das plataformas de apostas, iniciou tratamento especializado e criou uma página nas redes sociais para compartilhar sua recuperação e apoiar outras pessoas que enfrentam o mesmo problema. Há cerca de 20 dias sem apostar, Luendew afirma que o apoio da terapia, de grupos de ajuda e da comunidade formada em torno de sua experiência tem sido essencial para manter a recuperação.
Da compulsão à recuperação
Membro do grupo Jogadores Anônimos de Salvador, um participante identificado pelo nome fictício João - em respeito ao anonimato preservado pela irmandade - concedeu entrevista na qual compartilhou uma trajetória marcada pelo vício em jogos de azar e apostas esportivas. “Eu faço parte da Irmandade há três anos, mas o meu problema começou há uns 15 anos”, relatou João.
Segundo ele, embora já apostasse antes, foi com a popularização das bets que a compulsão se intensificou. Atualmente, João está há mais de dois anos em abstinência, mas continua frequentando as reuniões da irmandade. “Como a doença é incurável, eu continuo voltando para a irmandade porque é justamente assim que consigo fazer a manutenção da minha recuperação.” João também fez um alerta sobre os riscos da ludopatia quando não há tratamento. “A doença é progressiva, incurável e, se não for tratada, pode ter um desfecho fatal. O meu fundo do poço foi a minha tentativa de suicídio”.
Mudança de perfil
O grupo, que atua há 18 anos, realiza duas reuniões presenciais por semana no Centro Comunitário da Igreja da Pituba. Ao Jornal Metropole, o grupo relatou que o perfil das pessoas que procuram ajuda mudou nos últimos anos. Historicamente, as salas de reunião eram ocupadas principalmente por homens, entre 40 e 60 anos, que enfrentavam problemas relacionados a jogos presenciais, como jogo do bicho, máquinas caça-níqueis e bingos.
Com a popularização das apostas esportivas e dos cassinos online, esse cenário mudou. Atualmente há uma presença crescente de jovens, principalmente na faixa dos 18 aos 35 anos, além de um aumento gradual por parte do público feminino. A mudança também aparece no perfil socioeconômico. A compulsão por jogos atinge pessoas com diferentes níveis de escolaridade, renda, e escolaridade, a reboque do aumento expressivo nos casos.
A espiral do vício
Gabriel Lima, 27 anos, conta que entrou no universo das apostas esportivas de forma despretensiosa, após amigos divulgarem um bingo em um grupo de WhatsApp. A curiosidade o levou a pesquisar sobre plataformas de apostas.
Com o agravamento da compulsão, a rotina foi completamente alterada. Gabriel diz que deixou de cuidar da alimentação, da higiene e do próprio bem-estar, enquanto as apostas ocupavam todos os espaços do dia. "Eu acordava já com o telefone na mão, dormia com o telefone na mão", lembrou
Na tentativa de sustentar o vício, ele afirma que pegou dinheiro emprestado com amigos, familiares e agiotas, além de vender praticamente todos os bens que possuía. Gabriel conta que desenvolveu depressão, ficou meses afastado do trabalho e passou a ter pensamentos suicidas. "Cheguei a ficar três meses de cama", relatou.
Hoje, há quase um ano sem apostar, Gabriel atribui a recuperação à internação, ao acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Ele afirma que evita situações que funcionam como gatilho, como assistir a partidas de futebol. "Eu não posso lutar contra esse vício sozinho", concluiu
Peça ajuda
Diante do aumento dos casos de dependência relacionados a jogos e apostas, o SUS passou a oferecer teleatendimento em saúde mental para pessoas que enfrentam esse tipo de problema, especialmente envolvendo apostas online. O serviço é gratuito, destinado a maiores de 18 anos e pode ser utilizado por familiares e pessoas da rede de apoio. O acesso é realizado por meio do aplicativo Meu SUS Digital, ampliando o suporte para quem busca tratamento e orientação. Pessoas que enfrentam sofrimento emocional intenso ou pensamentos relacionados ao suicídio podem buscar apoio gratuito pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento sigiloso e voluntário pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil. O serviço também disponibiliza atendimento por chat e e-mail.