Até quando uma sociedade aceitará que mulheres sejam assassinadas simplesmente porque decidiram encerrar um relacionamento, disseram "não" ou ousaram viver sem o controle de um companheiro? A resposta parece distante. Enquanto leis são aperfeiçoadas, campanhas de conscientização se multiplicam e a rede de proteção é ampliada, o machismo continua fazendo vítimas dentro de casa, onde muitas mulheres acreditavam estar protegidas.
Na Bahia, uma mulher é assassinada por razões de gênero, em média, a cada quatro dias. Desde 2017, foram registrados 891 feminicídios no estado. Somente no último ano, 102 mulheres perderam a vida nessa circunstância. O levantamento elaborado pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), em parceria com a Secretaria da Segurança Pública, mostra ainda que uma em cada quatro mulheres assassinadas de forma violenta no estado foi vítima de feminicídio.
No dia 5 de julho, Paloma Izabel Ramos dos Santos, de 41 anos, foi encontrada morta dentro da própria casa, no bairro de Tancredo Neves, em Salvador. A investigação concluiu que ela foi vítima de feminicídio e o ex-companheiro acabou preso três dias depois. Em 8 de julho, Ariane Silva Fonseca, de 28 anos, foi assassinada no Engenho Velho da Federação. Segundo a Polícia Civil, o crime também foi cometido pelo ex-companheiro, preso horas depois. Dias antes, em 3 de julho, o assassinato da cabo da Polícia Militar Celeste Martins Oliveira do Nascimento, de 39 anos, também atribuído ao marido e colega de farda, provocou forte comoção na Bahia. Histórias diferentes, vítimas com trajetórias distintas, mas unidas pelo mesmo roteiro: mulheres mortas por homens que um dia disseram amá-las.
Ciclo recente
As mortes, no entanto, são apenas a face mais cruel de um problema que começa muito antes. O Painel da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos registrou mais de 10 mil violações contra mulheres na Bahia em um único ciclo recente. O Ministério Público do Estado também recebe, todos os os anos, mais de 10 mil ações relacionadas à violência doméstica. Salvador concentra o maior número de ocorrências, seguida porFeira de Santana, Vitória da Conquista, Camaçari, Itabuna e Juazeiro.
As estatísticas revelam um padrão difícil de ignorar. Em cerca de 90% dos feminicídios, o autor é o companheiro ou ex-companheiro da vítima. Em aproximadamente 85% dos casos, o crime acontece dentro da própria residência. O lugar onde muitas mulheres deveriam encontrar proteção acaba sendo exatamente onde suas vidas chegam ao fim.
De acordo com o levantamento, as principais vítimas são mulheres negras, entre 30 e 49 anos, com menor escolaridade. Também aumentaram as tentativas de feminicídio. Na Bahia, esse tipo de ocorrência cresceu 35%, indicando que, para cada mulher assassinada, muitas outras sobreviveram a ataques que poderiam ter terminado da mesma forma.
Dados do Ministério das Mulheres mostram que a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 — realizou mais de 1,08 milhão de atendimentos em 2025 e recebeu 155.111 denúncias de violência. Na prática, isso significa que mais de 425 mulheres procuraram ajuda diariamente. As denúncias envolveram diferentes formas de violência, desde agressões físicas até violência psicológica, patrimonial, moral e sexual. A maior parte ocorreu dentro de casa.
Os números ajudam a compreender uma característica comum à maioria dos feminicídios: eles raramente começam no dia da morte. Antes do assassinato costumam surgir ameaças, perseguições, controle sobre amizades, proibição de trabalhar, vigilância constante, humilhações, agressões verbais e violência psicológica. Depois aparecem os empurrões, os tapas, os socos. Em muitos relacionamentos, esse ciclo se repete durante meses ou anos, alternando pedidos de perdão, promessas de mudança e novos episódios de violência.
Denúncias
Muitas mulheres denunciam. Outras desistem por medo. Algumas acreditam que o agressor realmente mudará. Há ainda aquelas que permanecem em silêncio por depender financeiramente do companheiro, por receio de perder os filhos ou simplesmente porque não encontram apoio quando decidem pedir ajuda.
Em diversos casos, familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho já conheciam a situação. Sabiam das ameaças, das agressões e do medo vivido pela vítima. Ainda assim, a violência continuou até atingir o desfecho mais extremo.
Rede de atendimento e de apoiio precisa ser melhor divulgada para encorajar as denúncias
A sequência de agressões que antecede o feminicídio tem sido uma das principais preocupações de quem trabalha no enfrentamento à violência contra a mulher. Em reportagem publicada Tribuna da Bahia, a pesquisadora do Instituto Fogo Cruzado, Maria Auxiliadora, chamou atenção para a necessidade de enxergar cada ocorrência para além da estatística.
"Cada ocorrência representa uma história interrompida e evidencia a importância de fortalecer políticas públicas de prevenção, proteção e enfrentamento da violência de gênero", afirmou.
Essa percepção também orienta as ações adotadas pelo Governo Federal. Nos últimos anos, o Ministério das Mulheres ampliou o atendimento do Ligue 180, fortaleceu a rede de acolhimento às vítimas e passou a investir em campanhas permanentes de conscientização. Entre elas está a Feminicídio Zero, que busca mobilizar não apenas os órgãos públicos, mas também familiares, vizinhos, amigos, escolas, empresas e toda a sociedade para identificar situações de risco antes que elas terminem em tragédia.
Outra frente é o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, que reúne União, estados, municípios, Judiciário e forças de segurança para ampliar o cumprimento das medidas protetivas, qualificar o atendimento às vítimas e integrar informações entre os órgãos responsáveis pelo enfrentamento à violência contra a mulher. A proposta parte de um diagnóstico simples: em boa parte dos feminicídios, os sinais de risco já existiam muito antes do crime.
Políticas públicas
Ao apresentar uma dessas iniciativas, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, resumiu o principal desafio das políticas públicas. "Precisamos chegar antes. O Estado precisa chegar antes e, para isso, toda participação é muito importante", afirmou.
A ex-ministra Cida Gonçalves também tem defendido que a responsabilidade não pode recair apenas sobre as instituições públicas. Durante o lançamento da campanha Feminicídio Zero, ela lembrou que o enfrentamento da violência depende igualmente da participação da sociedade. "É muito importante que a sociedade conheça e saiba quais são os serviços que temos no Governo para atender e dar resposta às mulheres. Mas, principalmente, comece a entender que é você, individualmente, que vai ajudar a resolver o problema do feminicídio", declarou. Em outra ocasião, resumiu o desafio em uma frase que se tornou símbolo da campanha: "Não há civilização com mulheres sendo mortas."
Embora a Bahia disponha de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), da Casa da Mulher Brasileira, em Salvador, e de medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha, especialistas afirmam que uma parcela significativa das vítimas ainda enfrenta dificuldades para denunciar ou abandona o processo antes que as medidas de proteção sejam efetivamente cumpridas.
Outro dado ajuda a explicar esse cenário. Pesquisas do Senado Federal indicam que cerca de 64% das mulheres baianas conhecem pouco ou nada sobre a Lei Maria da Penha. A falta de informação, somada ao medo, à dependência financeira e às ameaças feitas pelos próprios agressores, acaba prolongando relações marcadas pela violência.
É justamente por isso que autoridades insistem para que a denúncia não fique restrita à vítima. Familiares, vizinhos, amigos, colegas de trabalho e qualquer pessoa que presencie situações de violência também podem procurar ajuda. Em muitos casos, é essa iniciativa que impede que uma sequência de agressões termine em assassinato.
O atendimento à mulher em situação de violência pode ser feito gratuitamente pelo Ligue 180, que funciona 24 horas por dia em todo o país. Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190. As Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher também recebem denúncias e solicitam medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha.